O choro do bebê cessou nos braços de Camila, mas dentro dela algo continuava gritando.
Era um silêncio que machucava.
Os dias seguintes passaram como uma névoa espessa. Camila cumpria a rotina — acordava, amamentava, caminhava pela casa — mas tudo parecia acontecer fora do próprio corpo, como se ela observasse a própria vida de longe.
Às vezes, parava no meio do corredor sem saber para onde ia.
Outras, sentia o leite descer no peito em horários que não faziam sentido, acompanhados de uma dor estranha no ventre vazio.
— Camila… — Ricardo chamou, da porta da cozinha.
Ela se virou devagar demais.
— Você me chamou?
Ele franziu o cenho. — Eu chamei três vezes.
Ela tentou sorrir, mas o sorriso caiu antes de se formar.
— Desculpa… eu me distraí.
Ricardo não insistiu. Apenas observou.
Ela estava ali — mas não inteira.
À noite, os sintomas pioravam.
Camila acordava assustada, suada, com a sensação clara de contração. Chegava a arquear o corpo, ofegante, como se estivesse em trabalho de parto o