####O RECOMEÇO

Rachel subiu lentamente, apoiando-se no corrimão.

Seu corpo ainda era fraco e os músculos doloridos eram reflexos do que haviam enfrentado.

Os ecos do choro do bebê ressoavam pelo corredor, como um chamado desesperado que ativava um instinto maternal adormecido.

Cada soluço parecia apertar seu coração com mais força, reafirmando a dor e a luta que estava vivendo.

Uma mulher de meia-idade, com expressão gentil e calorosa, ofereceu-lhe o braço com um sorriso acolhedor.

— Venha, querida, vou te ajudar a chegar ao seu desejo mais profundo — disse ela, sua voz suave como um bálsamo.

Os degraus pareciam infinitos sob seus pés cansados, desafiando-a enquanto cada passo a levava a um espaço sagrado, um lugar onde poderia encontrar uma nova esperança.

Quando finalmente alcançou o topo da escada, a empregada abriu uma porta delicadamente decorada, com cortinas rosadas que filtravam a luz do sol e um berço branco perfeitamente organizado.

O aroma adocicado de talco e leite formava um ambiente que era, ao mesmo tempo, familiar e estranhamente novo.

Dentro do quarto, outra funcionária tentava em vão consolar a criança, balançando-a em uma dança desajeitada e tentando forçá-la a aceitar uma mamadeira pequena, que estava longe de ser bem recebida.

Rachel não pôde evitar a sensação de que aquele gesto, embora bem-intencionado, estava distante da conexão que desejava estabelecer.

— Não, não faça isso — disse Rachel, sua voz suave como um sussurro de uma mãe que apenas buscava a proximidade. — Entregue-a pra mim, por favor.

A empregada atendeu ao pedido sem hesitar, passando o pequeno ser em suas mãos como se estivesse entregando um tesouro precioso.

Rachel sentou-se na cadeira de amamentação, posicionada junto à janela onde a luz se infiltrava delicadamente, e ajeitou a postura, buscando conforto e conexão.

Ao receber a bebê em seus braços, o choro foi diminuindo gradualmente, como se o simples toque dela trabalhava como um feitiço.

Rachel a olhou com ternura, admirando aqueles olhos ainda marejados, que pareciam buscar algo em sua mãe, mesmo sem saber o que era.

— Oi, meu amor, o que foi, hein? — murmurou, encostando o rosto pertinho do dela, tentando transmitir todo o amor que não conseguira dar. — Está assustada, é? O choro foi suavizado, transformando-se em um resmungo fraco e hesitante. Rachel sorriu, emocionada, como se estivesse diante de um milagre.

— Você está com fome, não é isso? — indagou, buscando compreensão no olhar inocente da criança. Olhando para as empregadas, pediu, quase em um sussurro protetor: — Pode me trazer um algodão com água, por favor?

Quero limpar o bico do meu seio. Uma delas levantou-se imediatamente e correu até o banheiro, voltando com o algodão macio.

Rachel, com movimentos cuidadosos e delicados, higienizou o seio como se estivesse prestes a realizar um ritual sagrado, seu gesto trêmulo, mas terno, como se estivesse retomando algo que acreditava ter perdido para sempre. Então, aproximou a bebê e a posicionou para mamar.

A menina, em um gesto de urgência faminta, buscou o seio com força, sugando com determinação.

Por um momento, Rachel prendeu a respiração, surpresa com a conexão instantânea que se formava entre elas.

— Isso você só estava com fome, não é meu anjo?

— sussurrou, as lágrimas começando a descer por seu rosto, uma mistura de emoção e alívio. Por um instante, o tempo parou; o barulho da chuva lá fora parecia distante, enquanto tudo que importava era aquele pequeno ser agora em seus braços, unidos por algo invisível, mas indiscutivelmente poderoso.

As lágrimas escorriam silenciosas quando ela murmurou, quase num sussurro envolto em dor e esperança: — O leite que era para o meu filho vai alimentar você.

Cada gota de leite que a menina recebia não era apenas sustento; era uma continuação do amor que Rachel havia reservado para seu próprio filho.

A menina mamava com tanta serenidade que Rachel sentia o próprio coração se aquietar, cada batida se tornando um eco do que poderia ser um futuro, um com amor e alegria.

Depois de alguns minutos, ela a colocou no outro seio, garantindo que a criança se alimentasse bem, como se estivesse oferecendo uma nova vida.

Quando terminou, com o coração cheio de amor e esperança, ergueu a menina com cuidado excessivo e a fez arrotar, apoiando a cabecinha delicada no seu ombro, como se estivesse carregando um milagre.

O ar saiu em um pequeno som, e Rachel sorriu entre lágrimas, o alívio inundando-a.

— Como é o nome dela? — perguntou, olhando com afeto para as mulheres que observavam a cena com respeito e um toque de admiração. — Roxy — respondeu uma delas, com voz baixa, quase reverente.

Rachel repetiu o nome, sorrindo enquanto o saboreava como se fosse uma canção familiar, seu coração finalmente se abrindo para a vida.

— Oi, Roxy, sou a Rachel e agora vou cuidar de você. Com toda a doçura que ainda possuía, colocou a bebê para dormir, ajeitou o cobertor e permaneceu um instante observando o rostinho tranquilo que, há pouco, chorava de dor e desespero, agora com a serenidade trazida pela nutrição e pelo amor.

— Onde vou dormir? — perguntou, um certo toque de vulnerabilidade se revelando enquanto se virava para as empregadas, buscando um sentido de segurança.

— Aqui mesmo, Rachel. — A mais velha, com um olhar benevolente, apontou para uma cama encostada à parede, discreta, mas bem arrumada e convidativa.

— Pode dividir o quarto com a menina, é prático e assim você fica mais perto dela.

— Há um lugar para guardar minhas coisas? — indagou, ainda num tom de doçura cansada que refletia todo o peso que carregava. — Sim, claro, — responderam prontamente, abrindo o pequeno guarda-roupa e começando a ajudá-la a dobrar suas roupas, organizando tudo com uma delicadeza quase maternal que aquecia seu coração.

Enquanto guardavam suas coisas, uma das mulheres, com um olhar solidário e cheio de compaixão, perguntou hesitante: — Você perdeu o seu bebê, não foi? Rachel parou por um instante, olhando para o nada, suas lembranças dolorosas tomando conta de sua mente.

Respirou fundo, sentindo o peso da dor em seu peito, e respondeu num fio de voz quase quebrado: — No mesmo dia, perdi meu marido e meu filho; perdi tudo de uma vez só. O silêncio se fez, pesado e carregado de tristeza.

A mulher baixou os olhos, comovida, incapaz de encontrar palavras que poderiam aliviar a dor de Rachel.

Esta, então, continuou, as lágrimas nublando sua visão e com a voz trêmula de emoção: — Minha sogra me culpa pela morte deles, disse que eu matei os dois, como se eu tivesse escolhido essa tragédia.

Me expulsou de casa; não tive direito de me despedir deles. Ao menos, pude voltar para casa pegar minhas coisas.

A empregada suspirou e apertou o braço dela em um gesto de compaixão silenciosa, como se o toque pudesse transmitir um pouco de consolo.

— Sinto muito. Rachel, ninguém merece tanta dor. Rachel, forçando um sorriso pequeno e cansado, olhou para as mulheres, tentando, e falhando, em esconder a vulnerabilidade que sentia.

— Agora, pelo menos, eu tenho alguém para cuidar; talvez Roxy me ajude a continuar respirando.

Com um novo brilho de esperança nos olhos, ela olhou novamente para o berço onde Roxy dormia profundamente, os lábios entreabertos e o rostinho envolto em um descanso tranquilo.

Rachel se aproximou uma vez mais, ajeitou o cobertor que a envolvia e sussurrou quase com reverência: — Boa noite, meu amor.

Era como se, por um breve instante, o universo lhe devolvesse o que havia levado, oferecendo uma nova chance de amor e união em meio à dor que a vida havia imposto.

Rachel sabia que aquela conexão, ainda nascendo, tinha o potencial de curar não só a ela, mas a pequena que agora precisava dela tanto quanto ela precisava dela.

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