Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu fiquei ali por mais alguns minutos depois que ele foi embora.
Meu coração ainda batia rápido… como se não tivesse entendido que tudo já tinha acabado. Meus dedos tocaram a pulseira no meu pulso… devagar… como se eu precisasse confirmar que aquilo era real. Era. O vento da noite era leve… o céu cheio de estrelas… Mas a paz já não era a mesma. Eu senti antes de ouvir. Passos. Pesados. Lentos. Meu corpo inteiro enrijeceu. Quando me virei… ele estava lá. O feitor. Encostado na sombra… me olhando. O mesmo olhar. Mas agora… sem disfarce. Mais direto. Mais perigoso. — Sozinha essa hora? — ele disse, dando um passo à frente. Eu recuei automaticamente. — Eu… já estava voltando. — Calma… — ele respondeu, com um sorriso que me deu mais medo do que qualquer grito. — Não precisa fugir de mim. Mas eu já estava com medo. Muito. Ele continuou se aproximando… devagar… como se tivesse certeza de que eu não tinha para onde ir. — Eu venho te olhando faz tempo… — a voz dele ficou mais baixa. — Só que agora… O olhar dele passou por mim… devagar. — Agora você não é mais uma menina. Meu coração disparou. — Me deixe ir — eu disse. Tentei manter a voz firme. Mas o medo já estava ali. Ele riu. Baixo. — Ir?… Depois de tudo que eu esperei? Mais um passo. Eu recuei. — Ninguém vai aparecer… ninguém vai te ouvir… — ele disse. — E eu posso te tratar bem… — Não! Eu falei mais alto. Mais firme. Mas ele foi mais rápido. Segurou meu braço com força. Eu senti dor. E foi ali… que o medo virou desespero. — Me solta! Eu me debati. Com tudo que eu tinha. — Para de lutar — ele rosnou. — Você devia agradecer! Não. Não. Eu puxei meu braço com força… com tudo que eu tinha dentro de mim… E consegui me soltar. Eu não pensei. Só corri. Corri como nunca tinha corrido antes. O chão batia forte sob meus pés… meu coração parecia explodir no peito… Eu não olhei pra trás. Não podia. Só corri. Até ver a senzala. Entrei quase sem ar… tremendo… assustada… — O que foi?! — alguém perguntou. Mas foi Chinara que chegou primeiro. Sempre era ela. — Jamila? Eu tentei falar… mas a voz não saía. — Ele… — consegui dizer — o feitor… Ela entendeu. Na hora. Eu vi nos olhos dela. Ela me puxou pra perto. Me abraçou forte. — Calma… você tá aqui… você tá segura agora… Mas eu sabia. Não estava. Não de verdade. Ela me levou pra sentar, afastada dos outros. — Respira… — ela dizia, passando a mão no meu cabelo. Eu tentei. Mas o corpo ainda tremia. — Ele tentou… — minha voz falhou. Ela fechou os olhos. Por um segundo. Quando abriu… estava diferente. Mais séria. — Eu sei. Eu levantei o olhar. — Você precisa ter cuidado agora — ela disse. — Você cresceu… e aqui… isso vira perigo. Eu abaixei o olhar… segurando minha mão. A pulseira ainda estava ali. — Eu tive medo… achei que… — Escuta. Ela se aproximou mais. E o tom dela mudou. — Tem coisas que eu nunca quis te contar… O silêncio ao redor ficou mais fundo. Ela respirou. — Quando eu era mais nova… eu trabalhava em outra fazenda. A voz dela… ficou distante. Como se estivesse voltando no tempo. — Lá… não existia limite. Eu senti meu coração apertar. — Um feitor começou a me olhar… como esse olha pra você. Eu prendi a respiração. — Eu tentei evitar… fugir… Ela parou. Os olhos dela encheram de lágrimas. — Mas teve um dia… que eu não consegui. Meu peito doeu. — Ele me forçou… O mundo ficou em silêncio. Eu levei a mão à boca. Sem acreditar. — Depois disso… eu tive um filho. Ela sorriu. Um sorriso que doía. — Ele era tudo pra mim… As lágrimas caíram. — Mas venderam ele. Eu senti as minhas caírem também. — Você nunca mais viu?… Ela negou. — Nunca. Silêncio. Pesado. — Depois… me venderam também. Ela olhou ao redor. — Foi assim que eu vim parar aqui. Eu não sabia o que dizer. — Aqui… é menos pior — ela continuou. — Mas isso não quer dizer que você está segura. Ela segurou meu rosto. — Homem como aquele… não precisa de ordem pra fazer mal. Eu assenti. Devagar. — Então… o que eu faço? Ela pensou. — Não fica sozinha. Principalmente à noite. Eu lembrei na hora. Do que tinha acabado de acontecer. — E toma cuidado com quem te olha demais. Eu entendi. Mais do que ela disse. Mas não falei nada. — Eu não pude me proteger… — ela disse — mas você ainda pode. Eu segurei a mão dela. Forte. — Eu não vou deixar isso acontecer comigo. Ela me olhou. E, pela primeira vez… Eu vi orgulho ali. — É assim que começa… Ela disse. — A força. Lá fora… a noite continuava silenciosa. Mas dentro de mim… Nada estava igual. O medo ainda estava ali. Forte. Mas agora… Eu sabia. E junto com o medo… Nascia algo novo. Consciência. E uma força… Que eu ainda estava aprendendo a usar.






