Capítulo 8

Eu fiquei ali por mais alguns minutos depois que ele foi embora.

Meu coração ainda batia rápido… como se não tivesse entendido que tudo já tinha acabado. Meus dedos tocaram a pulseira no meu pulso… devagar… como se eu precisasse confirmar que aquilo era real.

Era.

O vento da noite era leve… o céu cheio de estrelas…

Mas a paz já não era a mesma.

Eu senti antes de ouvir.

Passos.

Pesados.

Lentos.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Quando me virei… ele estava lá.

O feitor.

Encostado na sombra… me olhando.

O mesmo olhar.

Mas agora… sem disfarce.

Mais direto.

Mais perigoso.

— Sozinha essa hora? — ele disse, dando um passo à frente.

Eu recuei automaticamente.

— Eu… já estava voltando.

— Calma… — ele respondeu, com um sorriso que me deu mais medo do que qualquer grito. — Não precisa fugir de mim.

Mas eu já estava com medo.

Muito.

Ele continuou se aproximando… devagar… como se tivesse certeza de que eu não tinha para onde ir.

— Eu venho te olhando faz tempo… — a voz dele ficou mais baixa. — Só que agora…

O olhar dele passou por mim… devagar.

— Agora você não é mais uma menina.

Meu coração disparou.

— Me deixe ir — eu disse.

Tentei manter a voz firme.

Mas o medo já estava ali.

Ele riu.

Baixo.

— Ir?… Depois de tudo que eu esperei?

Mais um passo.

Eu recuei.

— Ninguém vai aparecer… ninguém vai te ouvir… — ele disse. — E eu posso te tratar bem…

— Não!

Eu falei mais alto.

Mais firme.

Mas ele foi mais rápido.

Segurou meu braço com força.

Eu senti dor.

E foi ali… que o medo virou desespero.

— Me solta!

Eu me debati.

Com tudo que eu tinha.

— Para de lutar — ele rosnou. — Você devia agradecer!

Não.

Não.

Eu puxei meu braço com força… com tudo que eu tinha dentro de mim…

E consegui me soltar.

Eu não pensei.

Só corri.

Corri como nunca tinha corrido antes.

O chão batia forte sob meus pés… meu coração parecia explodir no peito…

Eu não olhei pra trás.

Não podia.

Só corri.

Até ver a senzala.

Entrei quase sem ar… tremendo… assustada…

— O que foi?! — alguém perguntou.

Mas foi Chinara que chegou primeiro.

Sempre era ela.

— Jamila?

Eu tentei falar… mas a voz não saía.

— Ele… — consegui dizer — o feitor…

Ela entendeu.

Na hora.

Eu vi nos olhos dela.

Ela me puxou pra perto.

Me abraçou forte.

— Calma… você tá aqui… você tá segura agora…

Mas eu sabia.

Não estava.

Não de verdade.

Ela me levou pra sentar, afastada dos outros.

— Respira… — ela dizia, passando a mão no meu cabelo.

Eu tentei.

Mas o corpo ainda tremia.

— Ele tentou… — minha voz falhou.

Ela fechou os olhos.

Por um segundo.

Quando abriu… estava diferente.

Mais séria.

— Eu sei.

Eu levantei o olhar.

— Você precisa ter cuidado agora — ela disse. — Você cresceu… e aqui… isso vira perigo.

Eu abaixei o olhar… segurando minha mão.

A pulseira ainda estava ali.

— Eu tive medo… achei que…

— Escuta.

Ela se aproximou mais.

E o tom dela mudou.

— Tem coisas que eu nunca quis te contar…

O silêncio ao redor ficou mais fundo.

Ela respirou.

— Quando eu era mais nova… eu trabalhava em outra fazenda.

A voz dela… ficou distante.

Como se estivesse voltando no tempo.

— Lá… não existia limite.

Eu senti meu coração apertar.

— Um feitor começou a me olhar… como esse olha pra você.

Eu prendi a respiração.

— Eu tentei evitar… fugir…

Ela parou.

Os olhos dela encheram de lágrimas.

— Mas teve um dia… que eu não consegui.

Meu peito doeu.

— Ele me forçou…

O mundo ficou em silêncio.

Eu levei a mão à boca.

Sem acreditar.

— Depois disso… eu tive um filho.

Ela sorriu.

Um sorriso que doía.

— Ele era tudo pra mim…

As lágrimas caíram.

— Mas venderam ele.

Eu senti as minhas caírem também.

— Você nunca mais viu?…

Ela negou.

— Nunca.

Silêncio.

Pesado.

— Depois… me venderam também.

Ela olhou ao redor.

— Foi assim que eu vim parar aqui.

Eu não sabia o que dizer.

— Aqui… é menos pior — ela continuou. — Mas isso não quer dizer que você está segura.

Ela segurou meu rosto.

— Homem como aquele… não precisa de ordem pra fazer mal.

Eu assenti.

Devagar.

— Então… o que eu faço?

Ela pensou.

— Não fica sozinha. Principalmente à noite.

Eu lembrei na hora.

Do que tinha acabado de acontecer.

— E toma cuidado com quem te olha demais.

Eu entendi.

Mais do que ela disse.

Mas não falei nada.

— Eu não pude me proteger… — ela disse — mas você ainda pode.

Eu segurei a mão dela.

Forte.

— Eu não vou deixar isso acontecer comigo.

Ela me olhou.

E, pela primeira vez…

Eu vi orgulho ali.

— É assim que começa…

Ela disse.

— A força.

Lá fora… a noite continuava silenciosa.

Mas dentro de mim…

Nada estava igual.

O medo ainda estava ali.

Forte.

Mas agora…

Eu sabia.

E junto com o medo…

Nascia algo novo.

Consciência.

E uma força…

Que eu ainda estava aprendendo a usar.

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