Capítulo 4

Depois que Dona Ofélia falou comigo… eu fiquei em silêncio.

Meus olhos, que antes estavam encantados com as luzes e a música, se abaixaram. Era como se tudo tivesse perdido a cor de repente. Eu só queria… desaparecer.

Me afastei devagar, ficando perto de uma coluna, tentando me esconder no meio de tanta gente importante. Era como se, se eu ficasse bem quieta… ninguém mais fosse me notar.

Mas por dentro… eu sentia tudo.

Vergonha.

Medo.

E aquele peso que eu já conhecia tão bem.

Eu achei que ia ficar ali sozinha.

Mas então eu ouvi:

— Jamila…

Meu corpo reagiu antes da minha mente. Levantei os olhos rápido, assustada, achando que era mais uma bronca.

Mas era ele.

Afonso.

Assim que percebi… abaixei a cabeça de novo.

— Desculpa, senhorzinho… — minha voz saiu baixa, quase sumindo. — Eu não quis fazer nada de errado.

Eu já estava acostumada a me desculpar… mesmo sem saber exatamente pelo quê.

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Ei… não precisa me chamar assim — ele disse, meio sem jeito. — E você não fez nada de errado.

Aquilo me confundiu.

Errado… eu sempre estava.

— Mas… a sinhá Ofélia…

— Minha mãe exagerou — ele interrompeu, olhando ao redor, como se tivesse medo de alguém ouvir. — Eu só… queria saber se você está bem.

Eu demorei pra responder.

Ninguém nunca me perguntava isso.

Se eu estava bem.

Eu podia ter dito a verdade.

Mas a verdade… não cabia ali.

— Estou, sim… — eu disse.

Mas minha voz me traiu.

Ele percebeu.

— Você pode falar a verdade comigo — ele disse, mais baixo. — Eu não vou te machucar.

Eu apertei minhas mãos contra o vestido verde. O mesmo vestido que, há pouco tempo, tinha me feito sentir… bonita.

Agora ele pesava.

— Eu só… não queria estragar a festa… — confessei, sentindo meus olhos encherem. — Eu não estou acostumada com essas coisas.

Eu me senti pequena dizendo aquilo.

Mas era verdade.

Ele respirou fundo.

— Você não estragou nada — disse com firmeza.

Eu levantei os olhos, sem querer.

— Na verdade… — ele hesitou — quando eu te vi… você estava… muito bonita.

Por um instante… eu esqueci de respirar.

Ninguém nunca tinha me dito aquilo.

Nunca.

Eu não sabia o que fazer.

Baixei o olhar de novo… mas dessa vez… algo dentro de mim mudou.

Pequeno.

Tímido.

Mas diferente.

— Obrigada… — eu murmurei.

Por um momento… o barulho da festa desapareceu.

Era como se só existisse aquele instante.

Mas não passou despercebido.

Eu senti.

Antes mesmo de ver.

O olhar de Dona Ofélia.

Frio.

Pesado.

Ela estava nos observando.

Eu senti um arrepio.

E, naquele momento… eu soube.

Aquilo não ia acabar bem.

Mesmo assim… ele continuou ali.

— Você… gostou da festa? — ele perguntou.

Eu olhei ao redor.

As luzes… os vestidos… as risadas…

Tudo parecia tão distante agora.

— É bonita… — eu disse — mas não é lugar pra mim.

Ele ficou em silêncio.

E então perguntou algo que eu não esperava:

— E se fosse?

Eu olhei pra ele, confusa.

— Não pode ser — respondi. — Eu sei quem eu sou.

E eu sabia mesmo.

Antes que ele dissesse qualquer coisa…

— Jamila!

Meu corpo travou na hora.

A voz dela.

Dona Ofélia se aproximava.

Cada passo dela parecia mais pesado que o outro.

— Eu mandei você ficar perto de Sol — ela disse. — Ou agora você também decidiu ignorar ordens?

Eu abaixei a cabeça rápido.

— Desculpe, sinhá…

Eu senti quando Afonso se moveu.

Ele deu um passo à frente.

— Mãe, fui eu que chamei ela pra conversar.

Eu me assustei.

Ninguém… nunca fazia isso por mim.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Pois não faça isso novamente — disse, fria. — Você não precisa desse tipo de companhia.

“Esse tipo.”

As palavras ficaram no ar.

Eu senti… como sempre sentia.

Mas, dessa vez… algo foi diferente.

— Ela não fez nada de errado — ele disse.

O silêncio ficou pesado.

Eu nem tive coragem de levantar os olhos.

— E você está começando a fazer — ela respondeu. — Não me desafie em público.

Eu senti a tensão.

Aquilo ia piorar.

E eu não podia deixar.

— A culpa foi minha… — falei rápido. — Eu já vou voltar pra perto da sinhazinha Sol.

Era melhor assim.

Sempre era.

Eu me afastei.

Cada passo… mais pesado que o outro.

Eu queria chorar.

Mas não podia.

Não ali.

Não na frente de ninguém.

Eu só andei.

Sem olhar pra trás.

Mas eu senti.

O olhar dele.

Em mim.

E, naquele momento… algo mudou.

Eu não sabia o quê.

Mas senti.

Do outro lado do salão… Chinara me observava.

E mesmo sem dizer nada… eu sabia.

Ela tinha entendido tudo.

E, no fundo do meu peito…

Uma sensação começou a nascer.

Bonita…

E perigosa.

Porque eu sabia…

Que nada daquilo era permitido.

E que, quando algo proibido começa…

O preço… sempre vem depois.

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