Mundo de ficçãoIniciar sessão- O que você está fazendo aqui? Não sabia que era amigo de Marcela. - Questiono a sua presença, pois nunca vi os dois juntos.
- Sou amigo de Davi. - Ele justifica e fica óbvio. Um cara como Ricardo nunca é amigo da mulher. - E sou o vice diretor da empresa.
Ele se gaba e eu automaticamente viro o meu olho, como tantas outras vezes eu fiz.
- Fiquei sabendo. - Digo segurando minhas congratulações. - Acho que você conseguiu o que sempre quis.
Observo agora percebendo que talvez eu conhecesse Ricardo um pouco mais do que eu pensava. Depois que saí da Prisma Brasil, ele, que ocupava tanto espaço na minha mente com estresse e um ranço descomunal, tinha esvaido completamente.
- E você? Conseguiu o que sempre quis? - Ele questionou de uma forma que me senti sendo avaliada.
Era incomodo ao mesmo tempo que me instigava a responder. Mas e a resposta? Eu consegui o que eu sempre quis?
- E o que seria isso? - Pergunto de volta.
- Salvar a pátria de um mundo injusto. Ser a heroína da educação. - Ele responde com um tom melodramático, que me faz perceber que Ricardo também me conhecia mais do que eu pensava.
Fui professora por quatro anos antes de entrar na Prisma Brasil, porque convenhamos, a educação não é exatamente o campo mais generoso da economia. Após dar aulas de Português, consegui um cargo de Revisora e Tradutora na Prisma, que era essencial para os projetos de Marketing e que pagavam muito bem, mas sentia falta da educação. Tentei conciliar os dois. Não consegui e saí escolhendo um.
Atualmente não tenho emprego, pois nos últimos meses de casamento decidimos que ia me dedicar aos trabalhos editoriais e de escrita, então acho que a resposta para isso é não.
- Ainda nessa luta. - Respondo um pouco envergonhada.
Travei brigas intensas com Ricardos por valores que para mim eram imprencidíveis. Houve reuniões e sarcasmo e muito estresse, mas aqui está ele, vice diretor de uma empresa gigante, e eu, desempregada e recém divorciada. Claro que isso não significa que ele estivesse certo em todas as situações que brigamos, mas também significa que ele é mais inteligente do que eu.
Mas sobre isso, eu suspeito que nunca tive dúvidas.
- Não dá para ganhar todas as apostas da vida. Ao menos que você seja eu.
Viro o olho novamente.
- Feliz em saber que pelo menos você não teve nenhuma evolução espiritual. - Ele ri.
- Você teve?
- Ando trabalhando nisso.
- Como exatamente? - Ricardo se encostou ao lado e deu um gole na sua bebida.
E enquanto eu sentia os olhos do meu ex-marido me encarar na conversa com alguém que eu já fiz inúmeras reclamações, eu quis prolongar o assunto.
- Então você não está desempregada. - Ele conclui.
- Hum... Tenho um projeto em mente que eu mesma tenho que financiar e que provavelmente não vai dar lucro.
- Você tem pouca fé nos seus alunos.
Viro o olho revoltada.
- Não tenho pouca fé, eu sei como funciona a leitura no Brasil, apenas.
- Quais são seus planos para essa publicação?
- Bom... eu revisei o livro e enviei para ele as minhas notas. Vou aguardar as alterações que ele aceitar fazer. Depois disso, vou investir na diagramação e artes, essas finalizações, para então procurar uma editora.
- Já pensou em abrir uma?
- Não tenho dinheiro para investir e muito menos cabeça. Sou mais dos bastidores, sempre fui.
- Posso apresentar o livro para uma editora boa.
Levanto a sobrancelha.
- E em troca do que você faria essa boa ação?
Ricardo j**a o corpo para trás no espaço e me encara com certo prazer no olhar.
- Talvez eu tenha tido evolução espiritual.
- Dúvido. - Respondo prontamente.
Ele toma um gole da sua bebida e me sinto mais relaxada com a noite, por mais incrível que pareça. Observo agora o olhar de Lucas, encarando essa situação e com certeza se perguntando o que diabos está acontecendo no Planeta Terra.
- O que aconteceu com você e Eduardo?
A pergunta me pega de surpresa, mas não me sinto incomodada em responder para ele, apesar de não entender o motivo.
- O mesmo de sempre. - Digo o encarando por alguns segundos - Mentiras e traição.
Não esperava que fosse brutalmente honesta agora, ainda mais com a pessoa com quem estou conversando. Nunca me abri completamente com Ricardo, a não ser que fosse de maneira indireta, em um surto ou em uma crise de choro. E a forma como ele me respondeu, com o olhar que não era de piedade, compaixão, pena... Ele simplesmente me olhou como se entendesse.
- Da sua parte?
Dou risada da sua pergunta, mas ela não é tão sem pé nem cabeça.
- Acho que também. Uma parte pelo menos.
- Sabe... é o que eu sempre digo...
- Se relacionar com qualquer pessoa é dificil o bastente, no campo romântico é uma catastrofe.
Ele se surpreende com quão subitamente repeti sua frase barata.
- Acho que te ensinei bem.
- Posso editar seu livro de auto ajuda para machistas egocêntricos.
Ele ri.
- Com certeza vai vender muitas cópias.
- Nesse mundo? Eu não dúvido.
Há uma familiaridade nessa conversa que me tira de órbita. Talvez porque me faça voltar para o tempo em que nem namorava com Eduardo, onde eu era mais determinada, tinha mais sede de salvar o mundo, queria conquistar a minha vida, dar orgulho para a minha família, onde era tudo árduo e uma luta, mas uma luta boa de brigar. Depois de Eduardo tudo ficou tão fácil. Não precisava ser mais determinada, sagaz, rápida. Só precisava ser. Não que tivesse sido ruim, mas estar nesse campo lembra de uma eu que eu tinha esquecido.
- Bom, eu gostaria de interromper a todos nesse evento adorável para poder prestigiar duas pessoas que eu sempre admirei, e que não são os casados. Me perdoem, mas eu emprego vocês. - O Dr. Joaquim começa a falar em uma das diversas homenages e em meio a risadadas, prestamos atenção. - Como diretor da Prisma Brasil, eu vi essas duas pessoas progredirem e crescerem. E nos últimos tempos, pensei que nunca mais as veriam juntas. Separei até a Taylor Swift na playlist para pedir uma dança aos dois. - Fico completamente apreensiva. Ele não pode fazer isso. Não pode, não deve, não é possível que ele vá cogitar a ideia de pedir uma dança para eu e Eduardo.
Automanticamente, procuro Eduardo pelo salão e o encontro rápido, e enquanto eu transpiro desespero, ele tem um olhar de esperança.
Minha respiração prende e fico com o corpo completamente tenso.
- Por favor... Ana Paula e Ricardo. - Ele anúncia.
Ouço a melodia começar a tocar de uma música que adoro. Viro meu rosto para encarar Ricardo a minha frente.
Me sinto completamente aliviada.







