NO CAMINHO

Entro no carro de Ricardo e me acomodo como se estivesse acostumada com algo do tipo. Porquê não agir naturalmente, quando tudo que está acontecendo não é natural? Dou uma leve risada de nervoso comigo mesma e chamo a sua atenção, que prende os seus olhos em mim como um gavião atento. 

O encaro sem alternativa. Sorrio de leve. Não sei o que está prestes a acontecer aqui, mas pela forma que existe uma tensão entre nossos olhares, sei que é algo que eu nunca planejei na minha vida. Me pego prendendo a respiração, mas percebo que estou completamente fora da minha bolha sofrida e desiludida com a vida. Estou em um âmbito de ansiedade, mas a boa ansiedade. De tensão, mas a boa tensão. E até um pouco de frio na barriga. Mas do bom tipo. 

- Você ainda mora no Brooklin? - Ele pergunta com a sobrancelha levantada. 

- Não. - Respondo prontamente - Moro perto da Rodovia Anchieta. - Digo - Acho que é um longo caminho para você. 

Ele dá de ombros. 

- Quer ir para a sua casa? - Sua pergunta é sugestiva e não sei o que responder. 

Quero ir para a minha casa? Não. Mas para onde eu quero ir com esse homem que me pertubou por tanto tempo e de repente virou a única coisa que me salvou de mim mesma? 

- Não. - Sou sincera. 

Seu olhar se ilumina como se existisse uma infinita gama de possibilidades para explorar após essa resposta. Fico absolutamente consternada com o que pode ter passado pela mente dele, ao mesmo tempo que me sinto instigada a descobrir. 

- Não sei para onde quero ir, honestamente. - Completo a minha resposta. 

- Quer ir para a minha casa?

Dou risada. 

- Não. - Ele parece perdido com a resposta, mas não quero ir para casa de Ricardo Napoli, isso é muito até para mim que está anestesiada com toda essa situação. 

- Ok, posso pensar em algo para fazermos. Acho que você só queria sair de lá, certo? - Assinto de leve. - É um grande desperdício, sabe? Deixar que tudo isso te incomode. 

Dou de ombros. 

- Mas incomoda. - Respondo sem muito animo. - Não me sinto como eu mesma a muito tempo para falar a verdade... 

- Como isso pode acontecer? - Ele pergunta com olhos na rua, enquanto vai a caminho de um lugar que eu não faço ideia. - Você costumava encher qualquer espaço que entrava. Fosse o elevador ou uma sala enorme de reunião. Uma pessoa assim nunca pode se perder de si.

O encaro de leve, mesmo que seus olhos estejam completamente focados no caminho. 

- Diz o homem que nunca teve um coração partido. - Ele sorri de lado e me encara. 

- Quem disse que nunca tive um coração partido? 

- Por uma mulher? 

Ele dá de ombros. 

- Nunca conheci a que fosse capaz de fazer isso. - Viro os olhos. 

- Você  se acha... - Ele ri - O que partiu seu coração, então? 

Há um silêncio no carro e uma respiração pesada, que quase me faz me arrepender de ter perguntado. 

- O falecimento do meu tio. - Ele responde e eu fico surpresa. 

O tio João de Eduardo. Grande fazendeiro do interior de São Paulo que criou ele. Grande responsável por sua visão e perspectiva do mundo, grande exemplo do homem tradicional e conservador que ele era, na época em que trabalhamos juntos. Sinto uma pontada no peito por saber disso. Não imaginava, mas entendo porque seu coração partido. Anos atrás o homem era idolatrado e colocado em um pedestal. Pós morte? Não sei o que deve ter feito com ele. 

- Eu sinto muito por isso. - Digo sem saber como preencher esse clima. 

- Faz dois anos. Estou aprendendo lidar melhor do que antes. 

- E a sua tia? 

Ele me encara surpreso. Sim, sabemos da vida um do outro, para a surpresa de todos os envolvidos. 

- Sofreu bastante, mas também está aprendendo a lidar. 

Assinto de leve. Os tios criaram ele, isso eu sei. Foi adotado com quatro anos de idade e são as figuras maternas e paternas. Moldaram o seu caráter, sua força de vontade, tudo que ele é. Costumava virar os olhos para o discurso anteriormente, porque ele sempre aparecia com uma justificativa do porque ele achava que tudo era frescura e porque toda essa geração estava perdida, mas agora sinto uma empatia inédita. 

- Bom que vocês tem um ao outro. 

Ele sorri. 

- Quem você tem para te ajudar com seu coração partido? 

- Lucas. - Respondo de imediato. 

Ele solta uma gargalhada. 

- Claro! - Ele responde - Cleilson sente falta dele. 

- Esse é um tópico hiper sensível! - Respondo rindo imediatemente e toda a tensão se desvai!

O encaro por alguns segundos. Seu perfil é belíssimo, me sinto constrangida por ter negado isso por tanto tempo. E me sinto ainda mais constrangida por reparar nisso com tanto afinco agora, na sua frente, enquanto a minha linguaguem corporal entrega o que estou pensando. Ele não desvia o olhar, é um homem muito esperto para isso. 

E eu penso duas vezes se devo deferir a frase que está se formando na minha cabeça, mas ele precisa saber:

- Só porque disse que não queria ir para sua casa, não significa que não quero ir para um lugar privado com você. - Respondo com o tom sugestivo e tímido. 

Ele desvia o olho da rua pela primeira vez e sinto meu corpo contrair, com um olhar tão profundo me encarando. 

- Dica anotada. - Ele diz de forma presunçosa enquanto faz uma curva. 

Eu e Ricardo em um lugar privado. 

Quem diabos poderia imaginar? 

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