Mundo de ficçãoIniciar sessãoLucas estava se acabando na festa por mais tempo do que eu gostaria e estava começando a ficar cansada. Gostaria que ele pudesse parar, mas também não queria cortar o seu clima e me sentir uma megera mal humorada. Conversei com mais pessoas conhecidas, fingi que estava tudo bem, comi algumas coisas.
Não sabia mais o que fazer para poder sumir dali.
- Você não parece muito animada Gobetti. - Ricardo fala assim que se aproxima.
Dou um gole só em uma caipirinha de limão.
- Já tive dias melhores.
- Eu sei. - Ele confirma, me fazendo lembrar de todas as festas que o próprio testemunhou.
- Como anda a sua vida, Ricardo? Você ainda é tão esnobe e egocêntrico como sempre foi? Você se apaixonou em algum momento? Namorou? Algo mudou para você? - Me questiono como se tivesse deixando meus pensamentos falar por si - Ou você simplesmente atingiu o topo da cadeia alimentar cedo e nunca precisou mudar?
Ele ri.
- Acho que alguém está bebada.
- Não estou bebada. Estou reflexiva. Casamentos fazem isso. - Dou de ombros.
- Namorei duas vezes nesses últimos anos, nunca quis casar.
- Porque não?
- Bom, você se casou e agora está aqui se lamentando por um dos caras mais medianos que eu já conheci em toda a minha vida.
Dou risada.
- Ele poderia dizer o mesmo sobre você.
- Ele não é o advogado vice diretor da empresa que ele trabalha.
- Ele é coordenador de artes dessa empresa, até onde eu sei, isso é muito bom. - Ricardo coloca a mão direita acima da mão esquerda e espere que eu interprete a hierarquia empresarial que ele vive.
- Você está o defendendo? - Ele tem um tom de curiosidade na voz que me intriga.
- Talvez esteja te acusando de não ser tão bom como pensa.
Ele ri.
- Um dos seus maiores hobbys.
Faço um não com a cabeça, percebendo que conversar com ele me deixa mais relaxada nesse ambiente estranho que é esse casamento. Fico mais eu, e menos eu recem divorciada que precisa fugir do ex-marido.
- É bom conversar com você. - Externo esse pensamento em voz alta.
Ele se surpreende com tal frase e me encara por apenas segundos, mas consigo enxergar o seu olhar se iluminando em algo.
Ricardo assente e pressiona os dois lábios. Há um silêncio constrangedor e então ele ri.
- Nunca pensei na minha vida ouvir essas palavras sairem da sua linda boquinha.
Sinto um arrepio pela espinha com a frase, de uma forma completamente inesperada.
- Eu me arrependi no momento em que falei.
Ele riu.
Encaro a pista de dança com Lucas se divertindo horrores e respiro fundo.
- Vai encerrar a noite? - A pergunta soa interessada.
- Eu vim com Lucas. - Respondo. - Ele parece estar longe de encerrar a noite.
- Sempre tão dependente do Luquinhas. - Franzo o cenho enquanto ele me encara.
- Não sou dependente dele.
- Cada um acredita na mentira que escolhe contar.
Fico tentada a negar novamente, mas qual a chance? Eu tenho uma dependencia leve de Lucas, mesmo. É recíprico e igualmente sufocante para os dois. Mas funcional. Completamente funcional.
- Qual a mentira que você escolhe acreditar hoje? - Pergunto um pouco curiosa.
- Que não deveria te oferecer carona hoje. - Ele diz.
Levanto a sobrancelha levemente surpresa e sinto o coração acelerar um pouco.
Assinto devagar e penso sobre o que as suas palavras significam.
- Bom, eu acho que você deveria. - Determino, como sempre me senti fazendo na relação que cultivamos anos atrás.
Ele sorri.
- Você que manda.
Ricardo provoca, porque ele nunca sentiu que eu mandava em algo.
- Vou avisar Lucas. - Ele assente. - Quer me esperar lá fora?
Pergunto cuidadosamente para que niguém perceba que vamos embora juntos.
Ele assente e espera eu me afastar para poder se levantar da mesa. Quando me aproximo de Lucas, leva alguns segundos para ele conseguir me ouvir e se concentrar.
- Vou indo, tá? Não aguento mais a noite.
- Vai com quem, está louca?
- Consegui uma carona! Não precisa. Não! - Interrompo seu impulso para ir embora - Pode curtir, sei que você precisa.
Ele me encara por alguns segudos.
- Quem vai te dar carona?
- Um conhecido da Prisma. - Omito. - Te vejo semana que vem?
Ele confirma e me da um beijo na testa demorado. Então eu volto para a mesa e arrumo a minha pequena bolsa para ficar presa no corpo.
Vou em direção a saída sem olhar em volta, evitando os olhos que estavam em cima de mim, todo o momento desde que me levantei da mesa pela primeira vez.







