Mundo de ficçãoIniciar sessãoAntony Brandão era conhecido no mercado como um homem inabalável, um nome que se pronunciava com respeito nas reuniões mais fechadas do setor imobiliário brasileiro, especialmente em São Paulo, onde o sobrenome Brandão carregava peso suficiente para abrir portas antes mesmo que alguém tocasse a maçaneta.
Frio nas negociações. Firme nas decisões. Implacável nos contratos.
Mas havia um único lugar onde sua armadura rachava.
Era noite quando ele deixou o escritório improvisado no andar térreo da mansão e subiu as escadas em silêncio, afrouxando a gravata como se, a cada degrau, se libertasse um pouco do homem público para tentar recuperar algo do homem que ainda existia por dentro.
A porta do quarto de Mirela estava entreaberta.
Ele empurrou devagar.
A menina estava sentada no chão, cercada de folhas e lápis de cor espalhados como pequenas explosões de arco-íris. A luz suave do abajur desenhava sombras delicadas nas paredes.
— Oi, princesa — ele disse, encostando-se no batente.
Mirela levantou o rosto, e o sorriso que surgiu ali era tão espontâneo que parecia iluminar o quarto inteiro.
— Papai!
Ela largou os lápis e correu até ele, os pezinhos descalços batendo no piso de madeira. Antony se abaixou a tempo de recebê-la nos braços, fechando os olhos por um segundo ao sentir os braços pequenos ao redor do pescoço.
— Eu tava esperando você — ela murmurou.
— Eu sei. Desculpa a demora. — Ele beijou os cabelos da filha. — Papai teve um dia longo.
— Você sempre tem dia longo — ela respondeu, com a sinceridade desarmante de quem ainda não aprendeu a suavizar verdades.
Ele sorriu de canto.
— E você? O que está fazendo acordada até agora?
— Tô desenhando.
— Posso ver?
Ela puxou a mão dele com urgência.
— Vem!
Sentaram-se no tapete. Mirela pegou uma das folhas com cuidado, como se fosse uma obra-prima prestes a ser exposta.
— É a nossa família.
Antony observou o desenho com atenção.
Ali estavam três figuras: ele, Mirela e… Anitta. A babá estava desenhada com cabelos longos e ondulados, um sorriso grande e mãos dadas com a menina.
Não havia uma quarta figura.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
— E a mamãe? — ele perguntou com suavidade, tentando manter o tom neutro.
Mirela encolheu os ombros.
— A mamãe tá trabalhando.
— Mas aqui é o desenho da família.
— A Anitta fica comigo.
A resposta foi simples, direta, inocente — e pesada.
Antony sentiu algo apertar dentro do peito.
— Você ama muito a Anitta, não é?
— Amo. — Mirela abriu um sorriso orgulhoso. — Ela brinca comigo. Ela faz voz de fada. Ela me abraça quando eu tenho medo.
Ele respirou fundo.
— E a mamãe?
Mirela ficou pensativa, balançando os pezinhos.
— A mamãe é bonita.
Antony riu baixo, mas era um riso que escondia tristeza.
— Só isso?
— Ela trabalha muito, papai.
Ele acariciou os cabelos da filha.
— Você sente falta dela?
Mirela olhou para o desenho por um instante antes de responder:
— Às vezes.
O coração dele pareceu se fragmentar em silêncio, como vidro fino trincando sob pressão invisível.
— Eu vou tentar fazer a mamãe brincar mais com você, tá bem?
Ela assentiu, satisfeita com a promessa.
— Você vai dormir comigo hoje?
— Só até você pegar no sono.
— Promete?
— Prometo.
Ele a colocou na cama, cobriu-a com o edredom e sentou-se ao lado, passando a mão devagar pelos cabelos da menina.
— Papai?
— Oi?
— Você é feliz?
A pergunta o pegou desprevenido.
Ele demorou um segundo a mais do que deveria.
— Sou, quando estou com você.
Ela sorriu, satisfeita com a resposta, e fechou os olhos.
Minutos depois, a respiração dela já era tranquila.
Antony levantou-se devagar, deu um beijo na testa da filha e apagou o abajur.
No corredor, o silêncio da casa era quase absoluto.
Ele passou a mão pelos cabelos, sentindo o peso do cansaço que não era físico, mas emocional. Caminhou até o outro lado do corredor, onde ficava o quarto de Helena.
Nos últimos meses, aquela divisão tornara-se oficial: quartos separados. Mais privacidade, ela havia dito. Mais espaço. Mais foco, isso o incomodava.
Ele estava prestes a bater quando ouviu a voz dela do outro lado da porta.
— Não, precisamos rever esses valores. A margem de lucro pode ser maior… sim, eu sei que o risco aumenta, mas é calculado… — pausa. — Não, Antony não precisa saber agora. Eu resolvo isso amanhã.
Ele ficou imóvel.
— Sim, fechamos em cinco milhões acima do previsto… exatamente… ótimo. Falamos cedo.
O clique do telefone encerrando a chamada soou seco.
Antony respirou fundo e bateu à porta.
— Entre — veio a resposta.
Ele abriu. Helena estava de pé perto da janela, o telefone ainda na mão. Os cabelos loiros lisos caíam perfeitamente sobre os ombros. Os olhos claros tinham um brilho calculado, mas havia um cansaço sutil na curva do sorriso. Em sua mente a imagem de Helena contrastava com a imagem da Dominadora, mas ele balança a cabeça por um pequeno tempo e volta a atenção para sua esposa. Ela era, inegavelmente, bela.
— Ainda acordado? — ela perguntou.
— Fui ver Mirela.
— Ela está bem?
— Está.
Ele caminhou até ela.
— Você deveria ter ido.
— Eu estava resolvendo algo importante.
— Sempre há algo importante.
Ela suspirou.
— Antony, você sabe como funciona.
Ele a observou por um instante antes de inclinar-se e beijá-la. Um beijo firme, mas que buscava algo mais profundo do que contato físico.
— Senti sua falta hoje — ele murmurou.
Ela hesitou por um segundo quase imperceptível.
— Estou cansada.
— Eu também estou. — Ele apoiou a testa na dela. — Cansado de reuniões. De contratos. De números.
Helena o encarou.
— Podemos dormir juntos hoje, se você quiser.
Ele ergueu levemente as sobrancelhas.
— Podemos?
— Sim. — Ela deu um sorriso discreto. — Faz tempo.
Fazia. Ele fechou a porta atrás de si e a abraçou, como se aquele gesto pudesse reconstruir algo invisível.
Deitaram-se na cama ampla demais para duas pessoas que, nos últimos tempos, pareciam ocupar extremos opostos. Antony a puxou para perto.
— Eu sinto sua falta, Helena.
— Eu estou aqui.
— Mas não está.
Ela ficou em silêncio por um instante antes de começar:
— Amanhã tenho uma reunião com investidores internacionais. Se fecharmos esse projeto, o nome Brandão vai se consolidar ainda mais no mercado europeu. Você viu os relatórios?
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Não quero falar de negócios agora.
— Mas é importante.
— Eu sei que é importante. — Ele abriu os olhos e a encarou. — Mas eu queria falar de nós.
Ela se afastou levemente para olhá-lo melhor.
— O que tem nós?
— Você lembra quando éramos só Antony e Helena? Antes da empresa. Antes das obrigações.
Ela desviou o olhar.
— Eu era sua secretária.
— Você era muito mais que isso.
Ele lembrava da conexão, dos olhares demorados, da gravidez inesperada que o fizera sentir-se completo, realizado, como se o universo tivesse conspirado a favor de um amor sólido.
Ele casara-se com ela imediatamente, acreditando estar fazendo o que era certo — por amor, por honra, por família.
— Às vezes eu me pergunto — ele disse em voz baixa — se você me amava ou se tudo isso foi… conveniente.
Os olhos dela se fixaram nele, frios.
— Está questionando meu caráter?
— Estou tentando entender o que aconteceu com a gente.
Ela respirou fundo.
— Crescemos, Antony. Amadurecemos. A paixão não dura para sempre.
— Mas o cuidado deveria durar.
O silêncio voltou a se instalar.
Ele a abraçou novamente, buscando calor.
Ela começou a falar sobre projeções, contratos, terrenos estratégicos. Ele escutava. Mas, por dentro, sentia-se cada vez mais distante. Cansado dos negócios. Cansado das metas. Cansado de dormir ao lado da própria esposa e sentir-se só.
Enquanto Helena descrevia cifras e planos de expansão, Antony fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, perguntou-se se a escolha que fizera cinco anos atrás tinha sido amor — ou apenas dever.
E, mais assustador ainda, perguntou-se se ainda havia algo ali para salvar.







