Mundo de ficçãoIniciar sessãoO fim da tarde derramava sobre o quarto de Mirela aquela luz dourada e oblíqua que só existe por alguns minutos — o tipo de luz que parece saber que vai embora logo e por isso capricha enquanto pode. Ela entrava pela janela em ângulo suave, aquecendo as cores dos brinquedos espalhados pelo chão, o rosa desbotado da roupa de cama, os cabelos escuros da menina sentada no chão entre as pernas de Anitta.
Mirela estava com a cabeça levemente inclinada, a postura de quem aprendeu que ficar quietinha durante as trancinhas era o preço justo pelo resultado que adorava. Mas ficar quietinha, para Mirela, nunca durava muito.
— Mais uma história — pediu ela, virando a cabeça o suficiente para olhar para Anitta com aqueles olhos que tinham o dom de tornar qualquer negativa muito mais difícil do que deveria ser.
— Mirela — Anitta separou uma mecha com delicadeza e a dividiu em três partes com os dedos. — Eu já contei duas hoje.
— Duas é pouco.
— Duas é exatamente o combinado.
— O combinado era uma. — A menina fez aquela expressão — queixo levemente empurrado, sobrancelhas erguidas, canto da boca virado para baixo com uma dramaticidade que beirava o profissional. — Então você já foi além do combinado. Mais uma não muda nada.
— Está bem — disse ela, fingindo um suspiro de derrota. — Mas só mais uma. E você fica quietinha até eu terminar.
Mirela endireitou a postura com a solenidade de quem acaba de vencer uma negociação importante.
— Combinado.
— Era uma vez — começou ela, e a voz mudou levemente, ganhando aquela qualidade particular que usava para histórias, mais devagar, mais cheia — uma menina muito curiosa. Curiosa do tipo que não consegue passar por uma porta fechada sem querer saber o que tem do outro lado. Que subia em árvores não para chegar ao topo, mas para ver como o mundo ficava diferente de lá de cima.
— Igual eu — interrompeu Mirela imediatamente.
— Muito parecida com você — confirmou Anitta. — Mas essa menina também tinha uma guardiã. Uma mulher que caminhava ao lado dela nos caminhos conhecidos e na frente dela nos desconhecidos, sem nunca deixar que ela soubesse que estava sendo protegida — porque essa menina era orgulhosa e não gostava de achar que precisava de proteção.
Mirela ficou em silêncio por um segundo.
— E a guardiã… era corajosa?
— Ela tinha medo de alguma coisa?
Anitta amarrou o último laço rosa na ponta da trancinha. Ficou olhando para o reflexo da menina no espelho por um momento antes de responder.
— Todo mundo tem medo de alguma coisa, meu amorzinho.
— Mas ela protegia mesmo assim?
Mirela processou aquilo com aquela seriedade súbita que as crianças têm quando uma ideia as alcança de verdade.
Não como pergunta desta vez, ela falou como afirmação. Anitta piscou.
Pouco depois, as duas desciam a alameda que levava à pracinha próxima à mansão, Mirela já dois passos à frente como de costume, os pés acelerando na antecipação dos brinquedos que ela já conseguia avistar entre as árvores.
A tarde estava cedendo para o fim — aquela hora em que as famílias ainda resistem ao chamado de casa, esticando o dia mais um pouco enquanto a luz permite. As árvores antigas projetavam sombras longas sobre o chão de areia. Algumas mães conversavam num banco próximo. Um homem passava com um cachorro que farejava tudo com aquela curiosidade canina inesgotável.
— Empurra! — Mirela já estava no balanço antes que Anitta chegasse, as mãos agarrando as correntes com familiaridade.
— Você nem disse oi para o balanço primeiro.
— Oi, balanço. Agora empurra!
Anitta riu e se posicionou atrás dela.
O primeiro impulso foi suave — Mirela gritou de alegria e pediu mais. O segundo foi maior. O terceiro fez a menina gargalhar com aquele riso aberto e sem nenhuma reserva que só as crianças têm, aquele que vem do centro do corpo.
— Mais alto! Mais alto!
— Se eu empurrar mais alto você vai decolar.
— EU QUERIA!
— Sua mãe me mata se eu te mandar para a órbita.
— Eu digo que foi acidente!
Anitta abriu um sorriso largo — e foi exatamente nesse momento, com o sorriso ainda no rosto e as mãos se preparando para o próximo impulso, que sentiu.
Não viu nada. Não ouviu nada. Mas sentiu — aquela coisa que existe no corpo antes de existir na mente, aquele alarme silencioso que dispara quando algo no ambiente muda de um jeito que os olhos ainda não processaram mas que a pele já registrou. Alguém estava olhando para ela. Anitta varreu a praça com os olhos discretamente, sem parar os movimentos — continuou empurrando o balanço, continuou sorrindo para Mirela, mas os olhos se moviam com uma atenção diferente agora.
As mães no banco continuavam na conversa, animadas, gesticulando. O homem com o cachorro havia dobrado a esquina. Um adolescente sentado num banco mexia no celular sem levantar os olhos. Uma mulher mais velha caminhava no perímetro externo da praça com passo regular. Nada errado. Nada que justificasse aquela sensação. E ainda assim ela não passava.
— Mirela — disse ela, mantendo o tom leve, quase casual. — Que tal a gente dar uma voltinha pelo caminho de pedra?
A menina freou o balanço com os pés.
— Mas eu estava indo tão alto.
— A gente pode voltar amanhã.
— Amanhã você sempre diz que a gente volta e nem sempre a gente volta.
— Desta vez eu prometo.
Mirela estudou o rosto de Anitta por um segundo com aquela perspicácia irritante das crianças.
— Você ficou esquisita.
— Fiquei nada. Vamos?
A menina suspirou com uma dramaticidade que claramente havia herdado de alguém, aceitou a mão estendida e desceu do balanço. Elas caminharam. E a sensação não foi embora.
Ficou — persistente, densa, grudada nas costas de Anitta como algo que ela não conseguia virar para encarar. Ela resistiu ao impulso de olhar para trás duas vezes, três vezes. Na quarta não resistiu. O caminho atrás delas estava vazio. As árvores. A praça. A tarde normal. Mas o coração havia acelerado de um jeito que não era normal. Sem deliberar, sem explicar para si mesma, Anitta se abaixou e pegou Lili no colo.
— Ei! — a menina se surpreendeu. — Eu estou pesada!
— Você fala isso toda vez.
— Porque é verdade toda vez!
— Abraça meu pescoço e fica quietinha por um segundo.
Mirela abraçou. E sentiu, talvez pela primeira vez naquela tarde, que algo na Anitta estava diferente — não assustado exatamente, mas tenso, como um fio que foi esticado além do confortável.
— Você ficou com medo — disse ela, baixinho, perto do ouvido de Anitta.
— Não fiquei.
— Ficou sim. Eu sinto quando os adultos ficam com medo.
— É?
— Eles ficam quietos de um jeito diferente.
Anitta beijou a testa da menina sem responder, apenas com ternura e carinho mas ainda apavorada. Os passos dela estavam apressados agora — não correndo, mas acima do ritmo normal, aquele passo de quem tem um destino e precisa chegar nele logo. Quando atravessaram o portão da mansão e Anitta ouviu o trinco fechar atrás delas, algo no seu peito afrouxou levemente. Apenas levemente. Porque a sensação — aquela que não tinha nome, não tinha forma, não tinha nada concreto para justificá-la — não havia sumido completamente. Estava apenas esperando.







