Capitulo 5

  O andar superior da mansão de Pablo transformou-se em um verdadeiro ateliê de alta-costura. Mal o sol havia atingido o topo do céu, e uma equipe dos profissionais mais caros e requisitados da cidade cruzou as portas, carregando araras repletas de tecidos finos, maletas de maquiagem reluzentes e caixas de joias que reluziam sob a luz dos lustres.

 

 

   Para Liz, tudo parecia um sonho pintado em tons de dourado. Pela primeira vez na vida, ela não era a garota invisível do sótão.

 

   — Por aqui, senhorita Liz. Por favor, sente-se — pediu um dos cabeleireiros mais famosos da alta sociedade, tratando-a com uma reverência e um respeito que a fizeram engolir em seco.

Ninguém ali sabia de onde ela tinha vindo. Para aquela equipe, ela era a mulher escolhida pelo homem mais poderoso e temido da cidade. E isso bastava para tratá-la como uma verdadeira princesa.

 

   Liz sentou-se diante de um imenso espelho iluminado. O processo começou pelo seu cabelo. Longo, castanho e cheio de ondas naturais, os fios estavam castigados pelo sol do interior e pelo vento frio do sótão. Uma das assistentes aproximou-se com uma tesoura afiada na mão, pronta para adotar um corte moderno e curto, quando a porta do quarto se abriu.

 

   O som ritmado da bengala preta ecoou no piso de madeira. Pablo entrou, vestindo apenas a camisa social branca com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até o antebraço. Seus olhos cinzentos fixaram-se no espelho.

 

    — Não corte — a voz de Pablo soou grave, fazendo a cabeleireira congelar com a tesoura no ar. — O cabelo dela fica como está. Apenas hidratem e cuidem para que as ondas fiquem perfeitas. Eu quero o cabelo longo.

 

   Liz olhou para ele através do reflexo, o coração dando uma batida desalinhada. Pablo sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de caminhar até uma poltrona de couro no canto do quarto. Ele sentou-se, apoiando as mãos sobre a bengala de estilo, e simplesmente ficou ali, observando.

As horas seguintes foram mágicas. O cabelo de Liz passou por tratamentos profundos que devolveram um brilho espelhado a cada onda, fazendo os fios descerem sedosos até a altura de sua cintura. Na pele, produtos com cheiro de baunilha e flores foram aplicados com delicadeza. A maquiagem foi feita para ser sutil, mas poderosa: realçou seus olhos expressivos e desenhou seus lábios com uma cor natural e convidativa.

 

   A cada pincelada, Pablo observava os detalhes. Ele viu as bochechas dela ganharem uma cor saudável. Viu a postura de Liz mudar de uma jovem acuada para uma mulher que começava a entender o próprio magnetismo. Por trás de sua expressão ilegível, o chefe da máfia sentiu o peito aquecer. Ela estava ficando cada vez mais linda. Uma beleza pura, que não precisava de máscaras.

 

  Quando a equipe finalmente se afastou para que ela pudesse se ver, Liz prendeu a respiração. A garota de bota de borracha e casaco surrado tinha sumido. No lugar dela, havia uma mulher deslumbrante, de olhar altivo.

 

   — Podem nos dar licença por um momento — Pablo ordenou.

 

  Os profissionais recolheram suas coisas rapidamente e deixaram o quarto em silêncio. Pablo levantou-se da poltrona e caminhou até parar logo atrás da cadeira de Liz. Ele olhou para o reflexo dos dois juntos no espelho. O contraste do homem sombrio da máfia com a beleza radiante dela era hipnotizante.

 

  — Você está diferente — Pablo disse, a voz baixa, quase um sussurro perto do ouvido dela.

 

  — Está ruim? — Liz perguntou, sentindo um arrepio na nuca pelo calor da presença dele. — Não estou acostumada com nada disso. Parece que estou fantasiada.

 

  Pablo estendeu a mão e tocou uma das mechas onduladas e hidratadas do cabelo dela, sentindo a maciez entre os dedos.

 

  — Não está fantasiada, Liz. Este é apenas o seu verdadeiro lugar, que o seu pai tentou esconder do mundo — ele olhou fixamente nos olhos dela pelo espelho. — Você é linda. E amanhã, todos os que te humilharam vão engolir o próprio orgulho quando te virem passar.

 

  Liz engoliu em seco, sentindo a determinação voltar com força total.

 

  — E o vestido? — ela perguntou, virando-se um pouco para olhá-lo diretamente. — Eles trouxeram dezenas de vestidos de noiva lá embaixo. Eu vi os tecidos quando cheguei.

Pablo deu um sorriso curto, aquele canto de boca perigoso que fazia o estômago dela revirar de uma forma estranha. Ele se afastou um passo, apoiando-se na bengala.

 

   — Os vestidos de noiva são uma história para o final do dia — Pablo respondeu, caminhando em direção à porta. — Descanse um pouco. No fim da tarde, eu mesmo vou subir para escolher o vestido que você usará amanhã. Quero ver o seu rosto quando encontrar o modelo perfeito para o nosso início.

 

  Ele saiu do quarto, deixando Liz com o coração acelerado e um mistério no ar. Ela olhou mais uma vez para o espelho, ansiosa pelo momento em que Pablo voltaria para escolher a peça que selaria o destino deles de vez.


 

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