Capítulo 4

Mih Wilde Mendes

Enquanto eu esperava ansiosa pelo meu chofer na calçada da escola de teatro, o motor de um carro importado roncou alto na minha frente. O vidro escuro desceu lentamente, revelando as feições marcantes de Gabriel. O olhar dele era sério, focado diretamente em mim.

— Entre — ele disse, sem cerimônias.

— Meu chofer vai chegar logo — respondi, erguendo o queixo e olhando firmemente em seus olhos para demonstrar que não seria facilmente intimidada.

Gabriel soltou um suspiro impaciente e desligou o motor, apoiando os braços no volante.

— Queres que eu te coloque no carro à força? Eu não me importo, mas acho que você não vai querer esse tipo de cena pública — ele disse, sem desviar o olhar dos meus olhos por um segundo sequer.

Vendo que ele tinha total razão e que a mídia adoraria um escândalo envolvendo o grande ator e sua nova esposa misteriosa, engoli meu orgulho. Abri a porta traseira, entrei no seu carro e bati a porta com força.

— Vou à casa dos meus pais — avisei de imediato, mantendo a voz fria.

— Para que exatamente? — ele perguntou, engatando a marcha.

— Para buscar minhas roupas e o restante das minhas coisas. Não pretendo usar apenas o que levei para a lua de mel.

Gabriel apenas assentiu e dirigiu em silêncio absoluto pelas ruas movimentadas. O clima dentro do veículo estava denso, quase sufocante. Eu fiz questão de manter meus olhos colados na tela do meu celular, ignorando completamente a presença imponente dele ao meu lado. Eu não o queria como marido. Aquele casamento era uma farsa dolorosa, uma sentença que eu fora obrigada a assinar apenas porque minha família exigiu que eu cumprisse uma promessa antiga.

— Mih, por que não começamos com pequenos gestos para nos acostumarmos um com o outro? — ele sugeriu de repente, mantendo a atenção concentrada na estrada.

— Não entendi — respondi com desdém, desviando o olhar do meu celular para encará-lo de soslaio.

— Estou falando de você se acostumar a estar casada comigo — ele explicou, reduzindo a velocidade do carro. — Começamos com pequenos gestos cotidianos, como passarmos mais tempo juntos fazendo coisas de casal, nos darmos nomes carinhosos, nos abraçarmos, pegar na mão um do outro... esses tipos de coisas simples.

— Não tenho interesse em fazer coisas de casal com você, Gabriel. Só estamos juntos porque fui forçada por meus pais e meu avô — declarei friamente, voltando minha atenção para a tela do aparelho.

Ele não respondeu. O silêncio voltou a reinar enquanto o carro entrava no estacionamento de um jardim de infância extremamente luxuoso. Assim que Gabriel abriu a porta do motorista e saiu, observei pela janela do carro. Um garotinho de bochechas fartas saiu correndo do portão e abraçou fortemente os pés de Gabriel. Era o Noah. Gabriel o pegou no colo com uma facilidade impressionante, e o menino depositou um beijo estalado em sua bochecha loira.

Ao redor deles, algumas mães e professoras suspiravam abertamente pelo ator famoso, cochichando e estendendo papéis pedindo autógrafos. Gabriel distribuía sorrisos simpáticos enquanto segurava o filho com ternura. Vendo aquela cena do interior do veículo, não pude evitar. Eles eram tão fofos juntos. Parecia genuinamente que Gabriel era um pai maravilhoso e dedicado. Me peguei sorrindo por um breve segundo olhando para eles, mas logo voltei à minha postura defensiva e me concentrei no meu celular antes que eles voltassem para o carro.

A porta traseira se abriu e Noah subiu, sentando-se na cadeirinha. Ele esticou o corpinho na minha direção.

— Tudo bem, mamãe? — disse o pequeno, beijando delicadamente minha bochecha.

Eu simplesmente o ignorei, mantendo meus olhos fixos na tela fria do telefone. Gabriel entrou no banco do motorista, me olhou pelo retrovisor com uma expressão de desapontamento por um tempo e depois olhou para a criança.

— Noah, o que acha de passarmos na sorveteria? — perguntou Gabriel.

— Sim! — a criança gritou no banco de trás, batendo palminhas de pura felicidade.

Depois de um tempo de trajeto, finalmente entramos nos portões da luxuosa propriedade da família Wilde. Assim que a governanta abriu a porta principal da mansão, meus pais já estavam nos esperando ansiosos no centro da sala de estar.

— Oi, pai. Oi, mãe — disse, correndo para abraçá-los apertado.

— Oi, querida! Sentimos tanto a tua falta — disse minha mãe, Greice, ainda me mantendo em seu abraço caloroso.

— Mãe, eu me casei ontem — comentei, rindo sem achar muita graça. — Não faz nem vinte e quatro horas que eu me casei e saí de casa.

— Eu sei, querida, mas para nós parece que foi uma eternidade inteira — disse minha mãe, desfazendo o abraço com carinho.

— Boa tarde, senhor e senhora Wilde — disse Gabriel, aproximando-se e pegando educadamente a mão dos meus pais para cumprimentá-los.

— Por favor, vamos deixar as formalidades de lado. Agora somos todos uma única família — disse meu pai, Marcos, sorrindo calorosamente para o genro.

— E esse deve ser o pequeno Noah — comentou minha mãe, agachando-se rapidamente para chegar à altura da criança e beijando sua bochecha macia. — Você é de fato muito fofo!

Fiquei paralisada. Minha família já sabia sobre a existência dessa criança? Senti o sangue ferver de indignação.

— Mãe, podemos conversar em particular agora? — perguntei, ríspida.

— Claro, meu amor — ela respondeu, surpresa com o meu tom de voz, e me guiou até o escritório do meu pai.

Assim que a porta se fechou, encarei-a com os punhos cerrados.

— Você sabia que o Gabriel tinha um filho? — perguntei, profundamente indignada.

— Sim, todos nós sabíamos disso — minha mãe respondeu, calma.

— E por que vocês não me disseram absolutamente nada antes do casamento? — questionei, sentindo-me traída.

— Você não quis saber nada sobre o Gabriel, Mih. Rejeitou ler qualquer informação ou proposta sobre ele — minha mãe rebateu, defendendo-se.

— Vocês deveriam ter me dito isso mesmo assim, não acham? É uma criança! — exclamei, frustrada.

— Minha filha, o Noah também é sua fi... — quando ela ia terminar de responder, uma batida na porta nos interrompeu.

Uma empregada entrou timidamente, avisando que minhas malas de roupas já tinham sido colocadas no carro de Gabriel.

— Bom, estamos indo — avisei aos meus pais, saindo do escritório.

— Esperem, fiquem para o almoço! — pediu meu pai na sala.

— Deixe-os, Marcos. Você não vê que eles ainda estão na fase doce da lua de mel? — brincou minha mãe.

Apertei os dentes. Lua de mel? Aquilo era um pesadelo. Gabriel pegou minhas últimas malas, nos despedimos e retornamos ao carro para voltar para aquela mansão de praia que agora era minha prisão.

— Então, Mih, o que achas de darmos um passo de cada vez em nossa relação? — perguntou Gabriel enquanto dirigia.

— Pare em uma farmácia — ordenei, ignorando completamente sua pergunta sobre nós.

— Você está bem? — ele indagou, preocupado.

— Estou sim — respondi secamente, e ele não disse mais nada.

Assim que ele estacionou em frente à farmácia local, desci rapidamente. Gabriel e o filho me seguiram para dentro do estabelecimento. Como sempre, ele chamava a atenção das pessoas e dos fãs por onde passava por ser um ator mundialmente famoso. Ignorei os cochichos, fui até as prateleiras e peguei comprimidos para cólicas, analgésicos fortes, além de chocolates e doces para tentar aliviar a tensão.

— Mamãe, você está doente? — o filho de Gabriel perguntou ao ver a quantidade de remédios em minhas mãos.

Ignorei-o e fui direto ao caixa pagar. Noah puxou de leve a barra da saia do meu uniforme escolar para chamar minha atenção.

— Mamãe... você pode comprar um doce para mim? — perguntou ele, olhando para baixo com medo da minha reação fria.

Eu não queria comprar, até porque ele tinha um pai rico para fazer aquilo, mas depois de pagar minhas coisas, senti uma pontada de pena e estendi um doce para ele.

— Obrigado, mamãe — disse ele, recebendo o doce com a cabeça baixa.

— Não me chame de mãe. Eu não sou sua mãe — declarei friamente, entrando de volta no carro.

Gabriel esperou que o menino se acomodasse e me encarou.

— Mih, posso te pedir algo?

— Onde está a mãe biológica dele? — perguntei com raiva.

— Eu adotei o Noah quando ele tinha um ano. Ele não tem outra mãe, Mih. Por isso ele é tão apegado a você. Só queria pedir que tentasse ser uma mãe para ele — revelou Gabriel, com a voz embargada.

Ouvir aquilo fez meu coração acelerar de culpa pela forma ríspida com que tratei o garotinho. Ignorei o sentimento e comecei a comer meu chocolate em silêncio, sem querer encará-los. Meu orgulho não me permitia pedir desculpas.

De repente, Noah esticou a mãozinha de trás, segurando uma flor amarela.

— Mamãe, para você. Eu colhi na escola — disse ele, sorrindo.

Olhei para a flor e entrei em pânico absoluto.

— O quê? Você quer me matar? — gritei furiosa, arrancando a flor da mão dele e jogando-a imediatamente pela janela aberta do carro em movimento.

— O que é isso, Mih? Ele só te deu um presente! — Gabriel gritou, elevando a voz pela primeira vez, indignado com a minha reação agressiva.

— Ele tentou me assassinar, isso sim! — respondi, com a respiração acelerada.

— Ele só te deu um girassol! Como isso seria uma tentativa de assassinato? — ele rebateu, furioso.

— Eu sou extremamente alérgica ao pólen! Se isso não é uma tentativa de homicídio, o que é? — esbravejei.

O carro silenciou. Gabriel piscou, surpreso, e sua voz caiu para um sussurro chocado:

— Eu não sabia que você era alérgica ao pólen...

— Claro que não sabia — debochei com amargura. — Meus pais mandaram um arquivo completo para você com todos os meus gostos, desgostos e alergias graves. Mas você estava ocupado demais assinando o contrato de posse da sua nova esposa para ler.

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