Mundo de ficçãoIniciar sessãoGabriel Mendes
Se antes eu acreditava que tinha alguma chance real de fazer com que a Mih aceitasse a mim e ao Noah como sua nova família, agora essas chances simplesmente deixaram de existir. O erro estúpido que cometi na estrada pesava como chumbo nos meus ombros. Eu deveria ter sido mais cuidadoso. Deveria ter sido o homem protetor que prometi ao pai dela que seria, mas falhei logo no primeiro obstáculo por pura e completa negligência. Assim que o carro finalmente estacionou na garagem da nossa mansão à beira-mar, o silêncio que se instalou entre nós era quase palpável. Mih não esperou que eu desligasse o motor ou que fizesse qualquer menção de ajudá-la. Ela abriu a porta do passageiro com pressa, recolheu suas pequenas sacolas da farmácia e saiu correndo em direção à entrada principal. Ela entrou em casa sem olhar uma única vez para trás, sem dirigir um único olhar para mim ou para o pequeno Noah, que observava tudo com os olhinhos muito arregalados de medo do banco de trás. Desliguei o motor do carro e apoiei minha testa contra o volante de couro por alguns segundos, sentindo uma frustração imensa tomar conta de mim. Eu estava exausto. — Papai... a mamãe não gosta de mim? — a pergunta sussurrada de Noah quebrou o silêncio doloroso do veículo, fazendo meu coração se apertar de imediato. Virei-me para o banco traseiro e forcei o sorriso mais caloroso e reconfortante que consegui esboçar, embora por dentro estivesse totalmente despedaçado. — Ei, meu campeão, não pense nisso. É claro que a mamãe gosta muito de você — respondi com suavidade, tentando animá-lo de qualquer maneira. — Então por que ela deitou fora o presente que eu dei para ela com tanto carinho? — ele perguntou, com a voz embargada e os grandes olhos castanhos já cheios de lágrimas brilhantes que ameaçavam rolar por suas bochechas gordinhas. Senti uma pontada aguda de culpa. A imagem de Mih jogando o girassol pela janela em pânico puro ainda estava nítida na minha mente. — A mamãe não pode receber flores, Noah. Se ela chegar perto de flores ou respirar o cheirinho delas, ela pode ficar muito doente e precisar ir para o hospital — tentei explicar de uma forma simples e lúdica para que uma criança de três anos pudesse compreender a gravidade da situação. — Mas ela ama você, sim. Só ficou muito assustada na hora. Noah pareceu processar a informação lentamente, abraçando seu pequeno urso de pelúcia contra o peito. Suspirei baixo enquanto o tirava da cadeirinha. Eu era o único culpado por aquele desastre doméstico. Eu deveria ter prestado muito mais atenção no arquivo detalhado que os pais de Mih me enviaram antes do nosso casamento. Eles haviam preparado um dossiê completo contendo todas as preferências dela, seus desgostos cotidianos, suas manias e, principalmente, suas alergias médicas graves. Mas eu estava tão absurdamente ansioso e nervoso com a perspectiva de finalmente conhecê-la e tê-la comigo que acabei não prestando atenção em quase nada do que estava escrito ali. E agora, Noah e eu estávamos pagando um preço muito alto por essa minha distração imperdoável. --- Uma semana inteira se passou desde aquele fatídico episódio do girassol na estrada, e a situação na mansão de praia só fez piorar a cada dia. Mih simplesmente parou de falar com a gente de forma definitiva. Ela nos tratava como completos fantasmas dentro de sua própria residência. A convivência forçada transformou nossa bela casa em um campo de batalha silencioso e gelado. Mih levou seu ressentimento ao extremo. Ela parou completamente de comer a comida que eu preparava ou que era servida na nossa mesa. Na única vez em que consegui encurralá-la no corredor para questionar essa atitude extrema, suas palavras foram como facas afiadas no meu peito. Com o olhar gélido, ela me disse com todas as letras que não queria que eu ou o Noah envenenássemos a sua comida para nos livrarmos dela. Ouvir aquilo me deixou sem chão. Ela realmente nos enxergava como monstros perigosos. Desde então, ela se recusava categoricamente a permanecer no mesmo ambiente que eu e meu filho. Se Noah e eu estávamos na sala de estar, ela subia imediatamente para o quarto. Se íamos para a cozinha, ela dava meia-volta e sumia pelos jardins. Nós quase não nos víamos mais ao longo do dia. O único momento em que eu conseguia de fato ver a Mih e falar diretamente com ela era durante o horário das aulas na escola de teatro, onde, como seu professor, eu fazia perguntas formais sobre a matéria apenas para ouvir o som de sua voz doce responder de volta. Fora isso, minha única visão dela era tarde da noite, no nosso quarto compartilhado, quando eu entrava de fininho e a encontrava dormindo profundamente na imensa cama de casal, parecendo um anjo intocável e distante de toda a dor que nos cercava. Para piorar a sensação de estarmos vivendo em uma vitrine de aparências, hoje a rotina da casa foi virada de cabeça para baixo. Preocupados com o bem-estar da filha e com a nossa nova vida conjugal, a família Wilde decidiu enviar cinco empregadas domésticas de sua total confiança e uma babá profissional para cuidar de Noah. Como se não bastasse a invasão, minha própria família, os Mendes, não quis ficar para trás no quesito ostentação e também enviou mais cinco empregadas domésticas e outra babá para o meu filho. Agora, nossa mansão estava entupida de funcionários andando de um lado para o outro, vigiando cada movimento nosso e tornando a nossa falta de intimidade ainda mais evidente para quem quisesse ver. No meio de toda essa confusão de criados e silêncios cortantes, quem mais sofria era o pequeno Noah. Ele andava extremamente triste e cabisbaixo pelos cantos da casa nos últimos dias, sentindo a rejeição constante de Mih como um peso enorme em suas costas infantis. Ele não entendia por que aquela moça bonita que ele queria tanto chamar de mãe se afastava dele como se ele fosse uma ameaça. Hoje à tarde, enquanto eu o ajudava a guardar seus brinquedos espalhados pelo tapete do quarto, Noah parou o que estava fazendo e me olhou com uma expressão de cortar o coração. — Papai... é porque eu me comporto mal às vezes? É por isso que a mamãe Mih não gosta de mim e não quer falar comigo? — ele perguntou, com os lábios trêmulos e os olhinhos cheios de uma inocência dolorosa. Aquela pergunta destruiu o que restava do meu coração de pai. Abracei-o com toda a força que tinha, sentindo uma mistura de raiva de mim mesmo e uma imensa tristeza por ver meu filho sofrer por erros que não eram dele. Eu precisava dar um jeito de consertar aquela situação de alguma forma, mesmo que parecesse impossível reconquistar a confiança de uma esposa que foi obrigada a se casar comigo contra a sua própria vontade.






