Mundo de ficçãoIniciar sessãoMih Wilde Mendes
Depois que a última aula de teatro terminou, fiz questão de prolongar cada minuto no campus da faculdade. Eu não queria voltar para aquela mansão fria e silenciosa que agora servia como minha prisão dourada. Fiquei algum tempo conversando no pátio com o Mateus e a Sophia antes de finalmente decidir retornar para casa, como sempre fazia para adiar o inevitável. Nós rimos de algumas piadas bobas e planejamos os próximos ensaios. Perto deles, eu conseguia esquecer, mesmo que por breves instantes, o peso sufocante do sobrenome Mendes e da aliança grossa de ouro que parecia queimar o meu dedo anelar esquerdo. No entanto, o tempo passou rápido demais e o motor do carro do chofer, que me aguardava do lado de fora dos portões de ferro do campus, foi o lembrete cruel de que a minha realidade me esperava. Despedi-me deles com um aceno melancólico e entrei no veículo com o peito apertado. O caminho de volta foi extremamente silencioso e desconfortável. Minha mente vagava sem rumo entre a terrível sensação de culpa por ter tratado o pequeno Noah com tanta frieza na farmácia e a raiva avassaladora de ter sido vendida pelos meus próprios pais a um homem muito mais velho, cujo controle possessivo eu simplesmente abominava do fundo da minha alma. Eu me sentia totalmente presa em uma teia de aranha invisível. Assim que passei pela imensa porta dupla da mansão à beira-mar, o ar pareceu ficar imediatamente muito mais denso e pesado. O ambiente estava imerso em um silêncio mortal, mas o cheiro que invadiu minhas narinas naquele instante era completamente diferente do habitual perfume amadeirado de Gabriel. Era um aroma forte, penetrante e característico de fumaça de tabaco. Dei alguns passos receosos em direção ao centro do enorme hall de entrada e finalmente o avistei sentado na sala. "Onde você estava?", perguntou Gabriel de forma seca e direta, assim que percebeu a minha presença na luxuosa sala. Ele estava posicionado na ponta do estofado de couro, com as feições extremamente sérias e tensas diante de mim. Seu olhar focado demonstrava que ele estava me esperando havia muitas horas naquele lugar. Ele segurava um cigarro aceso entre os dedos indicadores. Fiquei paralisada por um breve segundo, piscando surpresa. Gabriel fumava? Primeiro, descubro que ele tem um filho de três anos. Agora, descubro que o perfeito ator de cinema é, na verdade, um fumante de hábitos secretos. Quantos mais mistérios esse homem esconde por trás da fachada que ele apresenta para a mídia? Decidi ignorar a pergunta dele. Tentei passar direto sem responder nada, caminhando a passos largos para a sala de jantar. "Eu estou falando com você, droga!", berrou Gabriel, a voz dele ecoando alto e fazendo meu corpo estremecer de susto. Ele jogou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa de centro e pulou o sofá de couro com agilidade, bloqueando o meu caminho com sua estatura imensa de quase dois metros de altura. "Eu sou tua esposa, não a sua filha pequena para ficar te dizendo cada passo que dou ou onde eu estava!", gritei de volta com raiva acumulada, tentando desviar do seu corpo musculoso enquanto continuava a caminhar apressada. Gabriel deu dois passos rápidos, colocando-se novamente à minha frente com os punhos cerrados. Sua respiração estava ofegante e ele parecia um predador pronto para capturar sua presa indefesa agora mesmo. "Pensei que você simplesmente não sabia que era uma mulher casada, já que tem me ignorado e me desprezado constantemente dentro da nossa própria casa enquanto anda se esfregando abertamente naquele moleque da sua escola de teatro!", disse Gabriel entre dentes, com a voz carregada de um ciúme doentio. O insulto injusto atingiu-me como um golpe violento na alma. Antes mesmo que eu pudesse raciocinar sobre as consequências ou conter o meu próprio impulso defensivo, minha mão direita voou no ar. O estalo do meu tapa contra a bochecha esquerda dele ecoou como um trovão. O rosto dele virou levemente para o lado com o impacto. Um silêncio mortal caiu sobre a sala. "Você me respeite!", gritei com a voz trêmula de raiva, sentindo meu peito subir e descer com rapidez. Em uma fração de segundo, a expressão dele mudou. Gabriel deu um passo rápido, segurou meus pulsos com força firme e me empurrou para trás até que minhas costas batessem contra a parede fria do corredor. Ele inclinou seu corpo imenso sobre o meu, eliminando qualquer espaço pessoal entre nós e me deixando completamente encurralada. Eu conseguia sentir a vibração perigosa que emanava de sua presença física marcante agora. "Você é minha, minha Mih! Acho melhor você ficar longe daquele moleque ou de qualquer outro homem, ou da próxima vez eu mando ele para o hospital. E aí, eu realmente não sei se ele vai para os primeiros socorros ou direto para o necrotério!", disse Gabriel, apertando-me contra a parede com força. "Por que... por que eu, sendo seu marido legítimo, só recebo o seu desprezo, sua falta de respeito, sua falta de paciência diária? Eu sou o seu marido, seu marido!" Os olhos dele estavam completamente cheios de raiva e mágoa profunda. O olhar dele parecia queimar minha pele. Eu sentia o meu coração bater descompassado no peito, uma mistura de medo absoluto e uma estranha atração que eu não queria admitir de forma alguma. Ele respirava de forma pesada, mantendo nossos corpos colados de um jeito íntimo e perigoso. A proximidade era perturbadora. Eu me sentia sufocada pela intensidade do seu olhar, incapaz de me mover ou de formular qualquer pensamento coerente diante daquela fúria possessiva que emanava dele. O aperto em meus pulsos era firme, mas não o suficiente para me ferir, apenas para me manter exatamente onde ele queria que eu estivesse. "Gabriel, os funcionários estão olhando", sussurrei para ele, tentando desviar meus olhos dos dele de qualquer maneira. Eu estava morrendo de vergonha com aquela situação exposta. Olhei rapidamente em direção ao corredor e vi sua assistente de pé, observando-nos com uma expressão de total desprezo. Ela sempre me olhava de um jeito frio e superior assim mesmo. A presença daquela mulher me incomodava profundamente. Desde que cheguei à mansão, sentia que ela me odiava secretamente, talvez por desejar o lugar que eu fora obrigada a ocupar ao lado de Gabriel. Ver o desdém evidente nos olhos dela naquele momento de fragilidade me fez sentir uma humilhação insuportável. Minhas bochechas arderam de vergonha. Eu não podia permitir que os empregados presenciassem aquela cena digna de um melodrama barato. "Solte-me agora, Gabriel", exigi em um tom de voz baixo, porém firme o suficiente para demonstrar que eu não aceitaria ser tratada daquela maneira na frente de estranhos.






