4 - Primeiro round

Diego subia a escada rolante em direção ao coworking do shopping com o envelope pardo debaixo do braço e a mente presa na cena de minutos antes.

Terminar com Diana havia sido irritantemente fácil. Sem dramas, sem lágrimas cinematográficas, sem escândalos que pudessem atrair os olhares dos curiosos.

O rompimento fora o reflexo exato do que o relacionamento deles havia sido nos últimos anos: morno. Uma conveniência social que agora se tornara um passivo caro demais para manter.

Mas as últimas palavras dela ainda reverberavam, como um zumbido persistente, em sua cabeça:

"São só dois anos? Eu posso esperar por você."

Diego não tinha prometido nada. Ele não era do tipo que assinava notas promissórias emocionais.

Mas ele conhecia a determinação silenciosa de Diana; ela não aceitaria o papel de "ex" tão facilmente enquanto houvesse um prazo de validade no contrato dele com Suzie.

Ele apertou o passo, sentindo o peso da responsabilidade.

Traições estavam estritamente proibidas. Uma única foto comprometedora, um único deslize com Diana, e ele entregaria a Colt de bandeja para a "Abelhinha".

E ele preferia ver a Colt pegando fogo do que dar esse gostinho a Suzie Martini.

Quando a porta de vidro do coworking se abriu, o som do sino pareceu um gongo anunciando o início do round.

Suzie já estava lá.

Ela parecia um ponto loiro contra o cinza minimalista da sala. Estava cercada por papéis, três copos de café e uma expressão que indicava que ela já tinha lido cada linha do contrato pelo menos dez vezes.

— Você está cinco minutos atrasado — ela disparou, sem sequer levantar os olhos do tablet. — O trânsito de Londres era pior e eu nunca me atrasei para uma reunião.

— Eu não estava no trânsito, Suzie — Diego rebateu, jogando o contrato sobre a mesa com uma força que fez os copos de café tremerem. — Estava resolvendo os destroços da minha vida pessoal que o seu pai e o meu decidiram implodir.

Ele puxou a cadeira, sentando-se com uma agressividade controlada.

— Agora, vamos assinar essa sentença de morte logo, ou você vai querer analisar a gramática das cláusulas de fidelidade primeiro?

Suzie finalmente levantou o olhar do tablet. Suas íris pareciam duas pedras de gelo polidas, sem um pingo de empatia.

— Se você teve que fazer uma limpeza no seu estoque de namoradas, considere isso um ajuste de mercado.

Diego recostou na cadeira com um sorriso lento, do tipo que antecede algo que vai doer.

— Faz sentido você ver isso como ajuste de mercado. — ele pausou um segundo, só o suficiente. — Nunca foi exatamente um mercado competitivo no seu caso.

O silêncio que se seguiu foi do tipo que ocupa espaço físico.

Suzie não piscou. Não se mexeu. Devolveu os olhos para o tablet com a tranquilidade de quem acabou de ouvir algo completamente irrelevante.

"Essa doeu, Alencar. Mas não vai sair barato pra você."

Um dos advogados tossiu discretamente.

O outro advogado se adiantou, abrindo a pasta com o cuidado de quem manuseia algo que pode explodir.

— O contrato base estabelece dois anos de união civil, proibição de escândalos ou traições, sob pena de transferência total das ações para a parte lesada, e a unificação dos blocos de voto na Colt. — Ele pousou os papéis na mesa. — Qualquer adendo que vocês queiram incluir pode ser anexado como cláusula complementar.

Diego e Suzie se entreolharam.

Cláusula complementar.

Aquelas duas palavras abriram um portal.

Se iam ser condenados à convivência, eles fariam questão de cercar o território com cercas elétricas invisíveis.

A reunião seguiu por duas horas de pura mesquinharia corporativa. Os advogados, sentados nas pontas da mesa, trocavam olhares de profunda exaustão, sentindo que seus diplomas de Direito estavam sendo desperdiçados em uma briga de quinta série.

— Próxima cláusula — Suzie disse, a voz absolutamente neutra. — Residência. Eu escolho. Londres me ensinou que espaço e luz natural são inegociáveis.

Diego arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Aceito. Mas com uma ressalva: eu escolho qual será o meu quarto exclusivo.

— Ótimo. Desde que seja bem longe do meu — ela rebateu, com um sorriso gélido. — Próxima: transporte independente. Eu quero um carro exclusivo da empresa para ir ao escritório. Não vou passar quarenta minutos por dia ouvindo suas playlists de rock duvidoso no trânsito.

"É, mas na faculdade vivia me pedindo minhas playlists, né, sua cara de pau?" pensou ele, a memória de Suzie com fones de ouvido divididos com ele piscando por um milésimo de segundo antes de ser esmagada pelo presente.

Diego sorriu de um jeito que Suzie deveria ter reconhecido como perigoso.

— Justo. Mas, se por algum acaso o seu carro "sofrer uma falha mecânica" e você precisar de carona no meu, haverá uma multa de cem reais por quilômetro rodado. Pago imediatamente em dinheiro vivo.

Suzie ergueu os olhos do tablet, avaliando.

— Em dinheiro vivo? — ela repetiu. — Que específico. Algum trauma recente com transferências?

— Só uma preferência por garantias reais. Gente que some por quatro anos costuma ser difícil de ser cobrada posteriormente.

— Tanto faz. — ela disse, digitando.

Um dos advogados levou a mão ao rosto, tentando disfarçar o riso.

O outro já não fazia questão.

— Próxima cláusula — Suzie continuou, implacável. — Uso de áreas comuns. Proibição de permanência simultânea na piscina.

Diego inclinou o corpo para frente.

— Concordo. Não tenho interesse em compartilhar o mesmo espaço aquático que você.

Suzie estreitou os olhos, anotando a provocação.

— Inclua também uma proibição de circulação em trajes impróprios nas áreas comuns. Nada de andar pela casa apenas de toalha ou sem camisa. Eu assinei um contrato de sócia, não um passe para um strip-club de baixo orçamento.

Diego soltou uma risada curta, se jogando pra trás na cadeira.

— Medo de não conseguir manter o foco no balanço trimestral, Suzie? — Ele rabiscou algo no papel. — Ok. Também seria bom deixar claro que em eventos sociais a proximidade é obrigatória apenas para fotos. Não quero ser forçado a ficar mais do que cinco segundos ao seu lado.

— Ótimo. Estamos alinhados. — ela disse, estendendo a mão para a caneta. — Mais alguma coisa ou podemos finalmente transformar esse circo em documento oficial?

Diego soltou um suspiro resignado e assinou sem dizer mais nada.

Os advogados se cumprimentaram com um alívio quase cômico, recolheram as pastas e saíram da sala de vidro, deixando os dois a sós por um breve e sufocante instante.

Suzie e Diego saíram logo em seguida, sem cerimônia, em direções opostas pelo shopping.

E na cabeça de ambos, além da dor lancinante, o mesmo pensamento latejava insistentemente, no ritmo exato de seus passos:

"Quando foi que estarmos juntos se tornou tão ruim?"

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