Mundo de ficçãoIniciar sessãoEnquanto Suzie caminhava, o barulho dos saltos no chão parecia marcar os segundos para o que ela acreditava ser a oficialização de sua entrada na Colt.
Sua postura confiante, no entanto, contrastava com a desconfiança crescente de Diego, que vinha logo atrás.
Com as mãos nos bolsos e um embrulho no estômago que ele não conseguia ignorar, Diego observava as costas dela tentando montar um cenário, qualquer cenário, que explicasse o olhar que seu pai trocara com Julio durante o jantar.
Não era de "boas-vindas".
Era de "missão de resgate".
"Missão de resgate de quê, exatamente?" ele se perguntou.
Ao entrarem na sala revestida de carvalho, Julio não se sentou atrás da mesa; ele permaneceu de pé ao lado de Horácio, como se aquilo já fosse, por si só, uma resposta.
Sobre a mesa de centro, dois envelopes idênticos de papel pardo aguardavam. Não havia logotipos, apenas os nomes manuscritos: Diego e Suzie.
— O que é isso? Uma promoção antecipada? — Diego tentou usar o sarcasmo como escudo, mas sua voz saiu um tom mais baixa do que pretendia.
Suzie não esperou a resposta. Seus dedos longos e bem cuidados já alcançavam o envelope, os olhos brilhando com a expectativa de ler seu novo título de diretora.
— Não é uma promoção, Diego — Horácio respondeu, a voz grave e sem espaço para réplicas. — É a única forma de garantir que a Colt não seja desmembrada pelo Zaret na próxima reunião.
Suzie parou o movimento de abrir o papel, o sorriso sutil desaparecendo instantaneamente. Ela olhou para o pai, depois para Horácio e, finalmente, para o envelope.
— Leiam — ordenou Julio, cruzando os braços. — E entendam que, a partir de agora, vocês deixam de ser dois lados opostos.
Diego rasgou o papel primeiro.
Percorreu as primeiras linhas. Voltou ao início. Avançou até o meio. Voltou no título.
"Tá de sacanagem comigo, não é possível", pensou enquanto seu rosto se abria em um sorriso incrédulo.
E então soltou uma gargalhada de verdade, do tipo que acontece quando o cérebro ainda não decidiu se a situação é absurda ou catastrófica e resolve ir de absurda enquanto pensa.
Suzie o olhou assustada, sem entender o que poderia ser tão engraçado em um momento tão sério.
— Isso aqui só pode ser uma piada, né? — Diego questionou entre risos, balançando as folhas no ar. — Vocês estão de parabéns pela criatividade.
Suzie puxou o conteúdo de seu próprio envelope e sentiu o chão sumir. As pernas, que ela tanto lutou para manter firmes na escadaria, finalmente cederam.
Ela desabou na poltrona em frente à mesa, o ar fugindo dos pulmões.
— O que significa isso? — ela perguntou, a voz saindo em um sussurro incrédulo enquanto lia a palavra "Matrimonial".
Horácio foi o primeiro a se justificar:
— Julio e eu decidimos nos afastar da administração da empresa e passar o controle para vocês, que são mais jovens. Mas, como vocês já sabem, Vitor Zaret está a um passo de ter a maioria das ações.
— E ele não hesitaria em passar como um rolo compressor sobre vocês. E, sinceramente, vocês estão facilitando bastante esse trabalho. — Julio completou, implacável.
Horácio continuou, sem dar espaço para interrupções:
— Ele é um homem esperto, com anos de experiência e a maturidade que vocês ainda não têm. Por isso, decidimos unificar as nossas ações através de...
— De um casamento? — Suzie indagou, sentindo a palavra amarga em sua boca.
— Vocês perderam a cabeça. Isso não vai acontecer! — Diego exclamou, jogando o envelope de volta sobre a mesa como se ele estivesse em chamas.
Julio e Horácio se entreolharam, mantendo a calma de quem já esperava a explosão.
Suzie levantou-se, recuperando a postura de "gelo" por puro instinto de sobrevivência.
— Eu não preciso de um marido para segurar minha posição no conselho — disse, a voz firme, fria, sem margem para interpretação.
Diego virou o rosto na direção dela.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
— Não se anime — ela rebateu sem olhar para ele.
Julio suspirou, como quem já esperava exatamente aquela reação.
— É exatamente esse tipo de comportamento que coloca tudo a perder. Vocês não confiam um no outro e disputam espaço como adversários.
— Porque é exatamente isso que nós somos — Diego respondeu.
— Não mais — retrucou Horácio, seco.
Diego engoliu a raiva, mas antes que pudesse responder, Julio o interrompeu com um gesto seco.
— Levem o contrato para seus advogados analisarem. Vocês têm duas opções: ou assinam e assumem o comando como uma unidade, ou vamos dissolver nossa parte na empresa agora mesmo.
Suzie franziu o cenho.
— Dissolver…?Julio assentiu.
— Vendemos nossa parte. O mercado absorve. O Zaret assume. E vocês ficam livres para abrir o negócio de vocês... do zero. Obviamente sem o nosso capital. Sem o nosso nome.
O silêncio que se seguiu foi cortante.
Pela primeira vez em quatro anos, o ódio foi substituído por algo mais urgente: o medo. Eles se olharam e, no reflexo dos olhos um do outro, viram o mesmo precipício.
Suzie foi a primeira a se mover. Recolheu o envelope com a ponta dos dedos, como quem lida com material radioativo, e atravessou a porta sem dizer uma palavra.
No corredor, antes mesmo que os saltos encontrassem o ritmo, o celular já estava na mão e o contato do advogado já estava na tela.
"Pensa, Suzie. Deve ter outra forma de convencer eles."
Diego pegou o seu exemplar, enfiou debaixo do braço com uma brutalidade completamente desnecessária e saiu logo em seguida.
"Casamento... até parece!". Ele repetiu mentalmente enquanto se afastava.
Julio Martini caminhou até a janela e suspirou, cruzando os braços.
— Você acha que eles vão mesmo assinar, Horácio? — perguntou sem se virar. — Ou acabamos de dar o empurrão final para eles se destruírem de vez?
Horácio Alencar aproximou-se do sócio, esboçando um sorriso enigmático enquanto ajeitava o relógio no pulso.
— Se eles lembrarem da infância e de quem costumavam ser antes desse orgulho todo tomar conta... verão que a proposta em si não tem nada de ruim.







