5 - Vinte anos antes

O domingo amanheceu ensolarado, e Suzie já sabia exatamente o que isso significava: piscina.

Mas não qualquer piscina.

A piscina dos Alencar.

Não que a casa dos Martini não tivesse uma. Tinha, e era enorme, com bordas de pedra clara e espreguiçadeiras alinhadas como em um hotel cinco estrelas.

Mas na casa dos Alencar havia algo a mais. Ou melhor, alguém.

Diego Alencar.

Seu melhor amigo, cúmplice oficial de todas as aventuras e parceiro em qualquer brincadeira que envolvesse correr, mergulhar ou quase quebrar alguma coisa.

Estar na casa dos Alencar era como ir a um parque de diversões… com o dono do parque ao seu lado.

Suzie desceu a escada da mansão Martini praticamente voando, os pés pulando dois degraus de cada vez.

Seu foco era um só: chegar logo ao café da manhã e confirmar aquilo que já tinha quase certeza.

Encontrou os pais sentados à mesa de café da manhã, conversando tranquilamente enquanto o sol atravessava as janelas enormes da sala.

— Bom dia, pai! — disse ela, abraçando o homem de pouco mais de quarenta anos com entusiasmo.

Julio Martini riu baixo enquanto passava a mão pelos cabelos loiros da filha.

— Bom dia, pequena.

Suzie se inclinou um pouco para frente, cheia de expectativa.

— Hoje é dia de visitarmos os Alencar?

Por trás dos óculos caríssimos, ele sorriu.

— Sim, meu amor. Vamos à casa deles. Horácio quer fazer um churrasco no almoço, e vamos passar o dia lá, como sempre.

Suzie abriu um sorriso ainda maior.

Os encontros entre as famílias Alencar e Martini já eram praticamente uma tradição. Almoços demorados, risadas, piscina, jogos… e, claro, negócios.

Enquanto Suzie e Diego corriam pela casa, disputavam partidas no salão de jogos gigantesco ou inventavam alguma aventura na piscina, os adultos aproveitavam para discutir os assuntos da empresa que haviam construído juntos.

A Colt Enterprises.

Oficialmente, aqueles encontros eram apenas reuniões entre amigos. Na prática… eram reuniões extraoficiais da empresa.

A mansão dos Alencar ficava a poucos minutos dali, mas para Suzie a viagem parecia sempre longa demais.

E assim que o carro entrou pelo enorme portão automático, ela já começou a se esticar no banco tentando ver a casa.

O carro mal parou e Suzie já estava abrindo a porta.

E então ele apareceu.

Diego veio correndo pelo jardim como se estivesse participando de uma corrida olímpica, o cabelo escuro bagunçado pelo vento e um sorriso enorme no rosto.

— SUZIE!

— DIEGO!

Ele agarrou a mão dela imediatamente, já puxando.

— Vem! Vem rápido!

— Espera! — ela riu, quase tropeçando. — Pra onde?

— Eu tenho que te mostrar uma coisa!

Ele a conduziu até a varanda gourmet e desapareceu por alguns segundos atrás de um cantinho perto da parede.

Voltou segurando uma caixa transparente com o cuidado exagerado de quem carrega algo muito frágil.

Suzie ficou observando, curiosa.

— O que é?

— Olha, Suzie! — Diego disse, todo orgulhoso. — Dias atrás eu achei uma lagarta no quintal!

Ela fez uma careta imediata.

— Eca! Uma lagarta! — disse, tampando os olhos com as duas mãos.

Diego riu.

— Ela era uma lagarta. Não é mais! Papai me disse que ela ia virar uma borboleta, então eu guardei nessa caixinha pra te dar.

Suzie destampou os olhos imediatamente.

Devagar, ela se inclinou para olhar dentro da caixa transparente.

Lá dentro, pousada com delicadeza, estava uma linda borboleta preta com detalhes azuis nas asas.

Suzie arregalou os olhos.

— Que linda! — ela murmurou, esquecendo completamente a careta de segundos atrás.

Diego sorriu ainda mais, claramente satisfeito com a reação.

— Eu sabia que você gostava de borboletas. Por isso cuidei dela pra você.

Ele apontou para as asas.

— E olha! Ela é azul. Sua cor favorita.

Suzie continuou observando o pequeno inseto com fascínio.

— Quando ela secar as asas, a gente solta juntos — disse Diego.

Suzie fez um pequeno bico.

— Mas eu não quero que ela vá embora.

Foi quando Felicia Martini se aproximou, elegante como sempre, e se inclinou levemente ao lado da filha.

— Amor, borboletas nascem para serem livres. Você gostaria de ficar presa dentro de uma caixa?

Suzie balançou a cabeça.

— Então, quando chegar a hora certa, vocês dois vão soltá-la juntos. — Felicia sorriu com suavidade. — E tenho certeza de que vão se lembrar disso para sempre.

Suzie olhou para a caixinha. Depois para Diego.

— Tá bom — ela concordou, com uma seriedade que fazia graça num rosto de criança. — Mas eu quero abrir a caixa.

Diego ergueu uma sobrancelha.

— Por quê você?

— Porque eu sou mais delicada.

Felicia disfarçou o riso e se afastou na direção da varanda, deixando os dois resolvendo aquela negociação com a seriedade de um contrato corporativo.

— A gente abre junto — Diego decretou, com a autoridade de quem não pretende ceder.

— Junto — Suzie repetiu, como se tivesse sido ideia dela.

Felicia apontou para o jardim.

— Enquanto isso, por que vocês não vão brincar um pouco?

Suzie voltou a olhar para a caixinha.

Diego a segurava como se fosse um tesouro.

— Vamos, Suzie — disse ele — eu vou colocar ela lá na casa da árvore. Assim ela fica segura até estar pronta para voar.

Os olhos dela brilharam.

— E a gente pode brincar de exploradores!

Diego apontou para o gramado.

— Eu já fiz um mapa do território.

Suzie riu.

— Fechado!

Os dois saíram correndo pelo gramado impecável da mansão, rindo alto enquanto desapareciam na direção das árvores do jardim.

Atrás deles, os pais observavam com expressões divertidas.

Julio Martini puxou uma cadeira na grande mesa da varanda.

Horácio Alencar já servia bebidas.

Barbara Alencar e Felicia Martini conversavam enquanto o churrasco começava a ser preparado.

E, como em tantos outros domingos, os adultos voltaram ao mesmo assunto de sempre.

Negócios.

A Colt Enterprises.

Enquanto as crianças brincavam pelo jardim, completamente alheias ao fato de que, naquele mesmo dia, uma ideia começaria a tomar forma entre os adultos.

A liberdade que Suzie iria dar à borboleta, ela mesma estava prestes a perder.

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