Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarioneta
Marionete Pois é. Sobrevivi no lixão com a família catadora de lixo. E fui uma catadora de lixo também.Marioneta não é bem o meu nome. Esse nome me deram pela mãe adotiva do lixão. No que ela pensava, eu não sei. Mas gostei desde criança porque não sabia o quão ridículo era. Agora sei, mas já me acostumei. Aprendi a gostar e não abandono ele por nada.
Tenho 30 anos de idade.
E aqui estou, à frente da escola, indo para a minha sala de nona classe. Olho para o portão, desejando ver o portão bonito se abrindo sozinho como uma aluna de uma mãe milionária. Mas nada. Só um muro em pedaços e um barulho grande de um portão velho e enferrujado aniquilando os meus ouvidos ao ser arrastado por um velhote. Nada contra velhotes, se serve de consolo, ele parece que ainda é fortão, e talvez também seja 🧨.
Entro na escola. Como sempre, sendo observada por quase todos. Se bobear, por todos.
"Olha aí, uma vovó ainda na nona classe… já deveria ter passado da décima segunda para a universidade."
Finjo não ouvir. Ninguém levantou a voz até agora. Se alguém o fizer para me zoar, talvez apresente o caso à secretaria, levando comigo os mínimos detalhes dos rostos. Se a secretaria não resolver, o que eu vou fazer… bom, não sei. Não tenho habilidades de arrumar brigas.
— Com licença, senhor professor — peço tranquila. Afinal, não atrasei. Ele é que entrou cedo demais.
Ele me manda um olhar estreito por um momento e mexe a cabeça para eu entrar.
— Bom dia — ele diz enquanto eu vou sentar. Acho que fez para eu me sentir mal por não cumprimentar um professor. Mas vá a merda. Nos conhecemos muito bem.
— Bom dia!!! Senhor professor — respondo, prolongando a palavra dia e com um sorriso irônico.
Ele vira bruscamente para o lado e vasculha a sua pasta. Mas tenho a certeza de que queria nada, pois ele só levou uma caneta azul e substituiu a que estava a usar para assinar papéis — e ela era azul também. Não faz sentido. Ainda mais, percebi aquele sorriso ao virar. Os colegas não perceberam nada. Se há quem percebeu, não se revelou.
Eu andava de trás após aquela cumplicidade evidente. A minha mente imaginava alguém a esticar a perna atrás de mim para me derrubar e rirem de duas coisas: o cair com esta minha idade. Talvez seja uma coisa, mas não aconteceu.
Sentei com a minha amiga Cleusa Fantielle.
— Por que diabos o professor já entrou? Tão cedo! — perguntei e comentei.
Cleusa olha para o seu relógio de pulso e abana a cabeça.
— Desculpe, Olivia, acho que o teu relógio está atrasadíssimo. Já se passaram 15 minutos de aula. Se tivéssemos tido um, ele acaba de chegar também.
— Ah — olho para o meu celular. Peço horas ao vizinho ao lado. Realmente está atrasado. Ligo dados móveis e ele se acerta sozinho.
Tiro o meu caderno de exercícios e abro, folheando a mesma folha, a última que contém palavras. Viro amigavelmente como nunca para ela.
— A senhora poderia me ajudar com o exercício número 4 antes que o professor peça pelo trabalho de casa?
Ela arregala os olhos e aproxima o rosto prá mim. Já sabia que não sairia algo sério da boca dela.
— Você quer fazer copy-paste??? — pergunta ela em voz de surpresa artificial.
— Não, talvez faça paste copy. Me dá logo isso daí. — eu digo, arrancando o caderno dela.
Copio tentando ao máximo usar sinônimos. Porque dizem: copie o trabalho mas não faça parecer.
Cleusa arregala os olhos quando arranco o caderno dela, mas não reage. Só cruza os braços e fica me olhando enquanto copio.
— Você não muda, Olivia — diz ela, baixinho. — Sempre a mesma.
— E você sempre a mesma também — respondo sem levantar os olhos do papel. — Por isso ainda somos amigas.
Ela bufa. Ouço o som de unha batendo na mesa — ela fazia isso quando queria falar mas não sabia como começar, ou não tinha assunto, estava à procura de um.
O professor caminha entre as fileiras, a caneta azul na mão, fingindo que olha os cadernos. Passa perto da minha mesa. Não para. Cleusa segue ele com o olhar e depois se vira para mim.
— Ele está diferente hoje — comenta, a voz baixa. — Mais calmo.
— Ele não está calmo. — continuo escrevendo. — Está pensando em alguma coisa.
— Como você sabe?
— Porque quando ele está calmo, ele fica sério. Quando está pensando, ele fica com esse sorriso pequeno que ele acha que ninguém vê.
Cleusa inclina a cabeça, me olha diferente.
— Você olha muito para ele.
— Você que olha muito para todo mundo. — digo com um sorriso escondido.
Ela ri. Um som curto. Desvia o olhar.
O professor para na mesa de um rapaz da frente, pega o caderno dele, vira algumas páginas. O rapaz fica vermelho. O professor não diz nada, só devolve o caderno e continua andando.
Cleusa se inclina para mim de novo.
— Sabe o que a Beatriz contou?
— Não. — termino a frase e começo a próxima. — E não quero saber.
— Pois eu vou contar.
— Cleusa, preciso me concentrar na transferência do conteúdo. — digo usando um vocabulário longo contradizendo a minha necessidade de concentração.
— A Beatriz viu a mãe dela saindo com o pai do Lucas na semana passada.
— Isso não é novidade. A mãe da Beatriz sai com meio mundo.
— Não, Olivia. Não sai. É que meio mundo sai com ela.
Eu paro de escrever. Olho para ela.
— Essa foi a sua melhor fala em meses.
Ela sorri, orgulhosa.
Atrás de mim, alguém tosse. O professor está agora na fileira de trás, as costas viradas para a sala, escrevendo algo num papel sobre a mesa do aluno que está ausente. O sorriso que Cleusa tinha mencionado ainda está lá, no canto da boca dele, mesmo de costas, eu acho.
Eu volto a copiar.
Cleusa mexe no cabelo, ajeita a blusa, olha para o relógio de novo.
— Quer saber a outra fofoca?
— Não.
— A mãe da Beatriz também saiu com o seu professor no mês passado.
A minha mão para no papel.
— O quê?
— Calma. Não é o professor agora. É o anterior. O que dava Matemática.
— Aquele que foi transferido?
— Transferido. — Ela faz aspas com os dedos. — É o que a Beatriz disse.
Eu solto a caneta. Olho para ela.
— Cleusa.
— O quê?
— Por que você só me conta essas coisas agora? Na aula? Quando eu estou copiando sua lição?
Ela dá de ombros.
— Porque você sempre está copiando minha lição. Então nunca tenho uma chance de te contar nada antes.
Eu ia responder, mas o professor vira de repente e caminha em nossa direção. Não olha para nós especificamente, mas anda na nossa direção. Cleusa finge que está lendo o caderno dela. Eu finjo que estou pensando. Mas eu sei que ele tem a vontade de fechar meu caderno e dizer que é proibido copiar na sala de aula as respostas do trabalho para casa. Mas não pode. Por isso finge não me ver a copiar.
Ele passa. Não para. Não olha.
Mas eu vejo o sorriso.
Ainda está lá. Acho, porque o conheço bem.
Quando ele chega perto da porta, vira-se para a sala inteira.
— Silêncio — diz ele, e o barulho das conversas morre. — Estamos começando a chamada. Não vou repetir nome.
Ele pega a lista. A sala cala.
Atrás de mim, alguém cochicha. À minha frente, Cleusa já não está mais fingindo ler. Ela está me olhando com os olhos que ela usa quando vai dizer alguma coisa que não devia.
Eu já sabia.
— Olivia.
— O quê?
— Você vai passar?
Eu olho para o caderno dela. Depois para o meu. As palavras estão lá, mas eu não sei se são minhas.
— Vou.
— Como?
— Eu copio.
— Não é isso que eu perguntei. — a maldita amiga foi sarcástica na constatação, revelava que desconfia de algo que não deveria.
O professor chama o primeiro nome. A sala fica em silêncio encarando o prof; quem estivesse desatento e deixasse passar o próprio nome teria depois de resolver a falta na secretaria. Todos respondem. Só falta um, logo ao primeiro nome.
CAMARGO DEBRES.
No fim da aula, enquanto o professor sai, eu aceno com os dedos — um estalo que diz: dinheiro, telefone, hoje.
Tradução: Preciso de dinheiro. Me ligue hoje mesmo.
A boca dele franze para o lado direito antes de desaparecer da minha vista.
Saímos todos. Eu vou atrás dele. Já está no carro. Antes que eu chegue, ele já está com a carteira na mão e me oferece 500 reais.
"Quinhentos reais 💸 !!!" — bufo internamente, surpresa. 500 reais para uma mulher, vindo de um professor de uma escola pobre. A não ser que queira muitas voltas hoje. Mas ele sempre só quer um e com o valor certo de 100 reais 💵. Sim, 100 reais a volta. A menos que meus sentidos de aranha me avisem do dinheiro em excesso no bolso da pessoa, que inclui a carteira.
(Sempre torço para que não encontre alguém de 45 minutos, porque o filho da mãe vai ter que aumentar.)
— Te ligo.
Faço que sim com o polegar e me afasto. Não podem achar que estou seduzindo o professor.
Já estou a ir para casa e Clea, como me refiro a ela de vez em quando, me chama para acompanhá-la à biblioteca.
E assim o faço.







