Mundo de ficçãoIniciar sessãoCamargo Debres
Estou dirigindo o meu Ferrari preto nesta estrada podre, é nisso que dá ser milionário numa zona pobre. Tenho que conduzir a passo de camaleão, mas no que estava a pensar quando comprei este carro? Que se estrague logo para eu comprar um 4x4.Passo algumas bancas, aliás, barracas com alguns produtos que algumas pessoas diriam que um milionário compraria tudo de todas as barracas só com troco.
E aquela mulher que estou vendo, de mini-saia e camiseta, ambos amarelos, uma sacola na mão, provavelmente para pão de café da manhã, é a minha colega da escola, Olívia, também conhecida como a Marioneta. Ela caminha a largos passos e desajeitados comicamente, como se estivesse furiosa e quisesse deixar isso muito bem claro.
Eu tento olhar só na parte da cabeça, porque se os olhos descem, a minha paz acaba.
Ela com certeza ainda não me viu, se tivesse, teria parado, já que não estamos brigados.
Eu buzino para ela, porque com certeza vai para a mesma loja que eu, ou pelo menos o mesmo centro comercial. Ela não me ouve e eu não posso acelerar. Não quero buzinar muito e chamar atenção de muitos como um desesperado para ter a gata.
Eu continuo a marcha na mesma velocidade, sei que vou chegar numa parte boa da estrada e acelerar, inclusive essa parte está logo ali.
Já na parte boa, VRUUUUUUUM! E buzino 5 metros dela. Ela olha para trás e se afasta da estrada e continua a caminhar, logo recordo-me de que ela não conhece este carro, nunca me viu com ele.
Buzino três vezes rapidamente 🔊📢📢📢, ela vira para trás, eu aceno com a mão e ela para. Ainda não tinha visto quem estava no carro e tenho medo de pensar no motivo de ela parar, claro, talvez tenha sido educada, só isso.
Ela me vê, inclina um pouco para o carro e acena com as mãos, dizendo "olá".
— Olá — eu respondo e acrescento: — quer carona?
Ela dá um sorriso que quer dizer "seu idiota sem dizer". Ela segura a maçaneta e eu destravo a porta, ela entra atrás.
— Não era mais fácil ter entrado na frente? — perguntei espreitando-a pelo retrovisor.
— Não — ela respondeu. — Na verdade levei uns dois segundos para entrar e sentar atrás, se eu quisesse dar volta para sentar na frente, tinha levado segundos a mais.
— É, teria, com certeza. Então, não seria melhor sentar na frente? — disse, sacudindo a cadeira ao lado.
— O carro já está andando e o mercado é logo a frente, seria burrice parar para trocar de lugar.
— Você sempre foi tão prática assim, ou foi a vida que te ensinou? — perguntei, arrancando o carro com uma aceleração suave, mas o suficiente para sentir o motor roncar sob meus dedos.
— A vida, o tempo, e a falta de paciência para gente que faz perguntas desnecessárias — ela respondeu, e eu pude vê-la ajustar a sacola no colo pelo retrovisor. — E você? Sempre foi tão dramático? Buzinar como um louco numa estrada de terra, com um carro que vale mais que esta rua inteira?
— Dramático? Eu estava sendo educado. Reconheci uma colega de escola, ofereci carona... Isso é cavalheirismo, não drama.
— Cavalheirismo é abrir a porta para a dama, não buzinar feito um caminhoneiro em dia de greve. — Ela inclinou a cabeça, e eu vi o canto do sorriso dela. — E já que você mencionou a escola, quantos anos fazem que a gente não se vê? Dez? Doze?
— Onze — respondi rápido demais, e me arrependi na mesma hora. — Onze anos, desde que você se mudou no meio do terceiro ano.
— Uau. Você contou. — A voz dela tinha uma ponta de deboche. — Deve ter sentido minha falta.
— Senti falta de alguém que me chamasse de idiota sem dizer a palavra. É raro, hoje em dia as pessoas são muito diretas.
Ela riu, um som baixo e seco, como se tivesse sido pega desprevenida.
— E você continua o mesmo, né? O Camargo que fazia perguntas em voz alta na sala de aula só para ver o professor perder a paciência.
— E você continua a mesma Olívia que andava com aqueles tênis amarelos furados e fingia que não ligava quando os outros zoavam.
Silêncio. Por um segundo, pensei que tinha pisado na bola.
— Eu ainda tenho tênis amarelos — ela disse, com um tom que eu não consegui decifrar. — Mas agora são de marca. E eu continuo não ligando.
— Justo. — Desviei de um buraco na estrada com um movimento brusco. — Desculpa. Foi sem querer.
— Foi sim — ela respondeu, mas a voz estava mais macia. — Olha, não precisa pisar em ovos comigo. Onze anos não me transformaram numa princesa de cristal. Só me deram mais juízo e menos paciência para besteira.
— Então posso falar que você ainda anda com a mesma expressão de "estou furiosa, vou fazer questão de mostrar" quando tá puta?
— Descobriu meu nome — fez uma pausa porque eu fiquei calado sem entender nada, então continuou — Pode. E eu posso dizer que você ainda dirige como se estivesse num videogame, mas com menos habilidade.
— Habilidade? Eu desviei daquele buraco com maestria.
— Você quase me jogou no teto do carro. Maestria, uma ova.
Eu ri alto, e ela riu junto. O som encheu o carro, e por um instante o Ferrari preto não parecia mais um brinquedo de rico numa estrada de terra. Parecia apenas um carro, com dois velhos amigos dentro.
— Falando em compras — eu disse, apontando com o queixo para o centro comercial que já aparecia no fim da reta. — O que você vai buscar? Pão? Leite? Um novo par de tênis amarelos?
— Pão, café, e um pouco de dignidade que eu deixei cair em casa. — Ela suspirou, teatral. — E você? Vai comprar o quê? Mais um carro para passar raiva nesta estrada?
— Vou comprar um 4x4. Já tô de saco cheio desse. — Bati na direção com a palma da mão. — Se quiser, posso te dar uma volta depois que eu comprar. Só para você ver o que é dirigir de verdade.
— De verdade, ou de mentira? Porque até agora, com esse carro, você só me mostrou que dinheiro não compra noção de trânsito.
— Olívia...
— O quê?
— Você ainda é a única pessoa que me faz rir e me insultar ao mesmo tempo. Isso é um talento.
— E você ainda é o único idiota que acha que buzinar três vezes é um cumprimento.
Estacionei na frente do mercado. O sol batia no para-brisa, e ela já estava com a mão na maçaneta.
— Espera — eu disse, virando-me no banco para encará-la pelo retrovisor. — Vai comprar pão e café. E depois?
— Depois? — Ela levantou uma sobrancelha. — Depois volto a pé.
— Não vai. Eu te espero. Te levo de volta.
— Por quê?
— Porque... — Hesitei, buscando a palavra certa. — Porque onze anos é tempo demais para deixar uma conversa assim no meio.
Ela me olhou por um longo segundo. Depois abriu a porta e saiu, mas antes de fechar, inclinou a cabeça para dentro.
— Cinco minutos. Se você buzinar, eu vou embora a pé de verdade.
— Combinado.
Ela fechou a porta, e eu a vi atravessar o estacionamento com aqueles passos largos e desajeitados, mas agora eu sabia — não era fúria. Era só o jeito dela de andar no próprio ritmo.
E eu, ali, no meu Ferrari preto, esperando cinco minutos como se fossem onze anos, percebi que talvez o 4x4 pudesse esperar, para bater mais em buracos e se estragar com nós dois lá dentro, bem juntinhos no meio do nada.
A verdade é que esta conversa estranha de onze anos quando só não nos vimos ontem é típica de nós — inventar uma conversa real. Aquele andar de passos largos desajeitados que ela acabou de fazer agora, é só porque sabe que eu a vi andar assim lá atrás, quis repetir a fórmula só por diversão.
Também desço e entro numa outra loja. 20 minutos depois, estou no carro à espera dela. Acredito que ela caiu numa fila.
E aqui está ela. Abre a porta e entra ATRÁS. E eu fico puto 😡.
Saio do carro, abro a porta dela, carrego-a. Ela sorri, tentando fazer força para ficar — mas uma tentativa claramente sem vontade alguma. Levanto-a e ela fica nos meus braços, na altura do peito. Ela puxa meu rosto para o dela e me beija enquanto vou para a porta da frente. Seriam uns três ou dois passos, mas faço de 20 passos.
Já na porta, largo-a de pé, encosto ela no carro e encosto meu corpo nela, beijando enquanto abro a porta. Ela mete a mão na minha calça e pega meu pau. Tenho vontade de pensar: "que vadia, puta, tudo isso" — mas faço de tudo para não pensar. Não sei porquê. Sei que é uma prostituta, rosto queimado, mas amo esta mulher. Não sabe o quanto desejo acordar sempre com ela do meu lado, passear com ela. Só consigo ver uma mulher bela e recuso pensamentos negativos sobre ela.
Claramente estamos num lugar público. Alguém pode nos ver. Ela pegar o meu pau aterrorizou o meu corpo, mas tínhamos que ir embora dali.
Ela mal sabe da surpresa na bagageira.







