Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarioneta
Cleusa vem com uma postura nada amigável, mãos que não se fecham, mas desejam cerrar os punhos, rosto que quer deixar clara a sua indignação com o sucedido. Pora, se fosse só por dinheiro eu estava ok em saber que o miserável era noivo de alguém, mas eu amava… amo aquele homem e ele me enganou direitinho, me fez de boba.
Agora está à minha frente, mãos semicerradas e boca amarrada. Eu, que estou sentada no sofá, ergo o rosto. "Não me vem com drama, eu não sabia nada de vocês dois juntos" — penso em dizer exatamente isso, uma coisa bem errada considerando que ela é minha amiga, ou, minha futura ex-amiga.
— Olha — digo e abaixo o rosto e coço a minha perna que não pediu nada disso. — Eu não sabia que vocês estavam juntos, nem que se conheciam.
Ela não muda a postura. Eu começo a pensar que o relógio para o ataque dela está a 3 segundos na contagem regressiva.
— Você nunca me apresentou ele, como eu deveria adivinhar? — questiono com o rosto erguido, fitando-a diretamente.
Ela senta ao meu lado, coloca os dois braços entre as pernas, as mãos unidas e respira fundo.
— Eu sei, amiga — eu fico logo aliviada, afinal, ainda éramos amigas e não haveria drama, pelo menos não físico nem de palavras, o drama será o coração partido de cada um. — Ele é que é cafajeste.
Eu seguro o ombro dela.
— Obrigada por entender.
— Você não fez nada de propósito, por que não entenderia? — diz, com um pé apoiado sobre a coxa.
Silêncio.
— Mas como vocês se conheceram? Desde quando? Onde? — ela começa a entrevista de forma abrupta e me encarando. Assusto-me com o estrondo da voz dela ao dizer: "mas como…".
— Eh — começo eu a explicar, me dando o tempo de escolher com cuidado as palavras para não soarem erradas, se é mesmo necessário, não tenho certeza. — Há uns 5 anos, mas a gente só se conheceu bem 3 meses atrás — eu digo, mentindo, porque nos comemos faz cinco anos, sim, nos comemos, porque sempre foi negócio, eu comia dinheiro dele e ele comia o meu corpo. Negócios que com o tempo, o meu coração me traiu e caí na paixão, no amor. Fizemos isso faz cinco anos, embora tenha se intensificado neste ano, mas não era bem menos antes como eu faço parecer quando informo Cleusa.
— E — com o tom da voz, ela quer falar algo, provavelmente perguntar, mas eu a interrompo com a minha continuação das respostas. — Foi num hotel em que eu estava a trabalhar…
— Você trabalhou num hotel? — ela perguntou excitada como se fosse atualmente e como se fosse automaticamente grande coisa: eu podia ter sido uma faxineira do nível mais básico, mas enfim, nem isso eu era, estava lá porque tinha um cliente para o que vocês já sabem.
— Me deparei com ele na saída do hotel, maaas… — ela arregala os olhos por causa do silêncio. — Mas, como é teu namorado, eu não vou contar os detalhes, não acha? — ela assente, abana a cabeça, concordando.
Ela observa analiticamente, praticamente a loja na mesa e no chão.
— Nossa! Amiga, fez compras para mais de um mês, considerando que vives sozin… quer dizer, com a tua irmã, mas ela quase não fica aqui. — disse Cleusa, tentando disfarçar, mas eu sei que ela desconfia, eu não sou uma milionária e um milionário saiu daqui hoje.
— Acho que um mês. Isso gastou uma fortuna, mas mais pela qualidade que quantidade, deve levar um mês e certas coisas, dois a três meses. — respondo.
— Eehh — ela murmura sem tirar os olhos e o rosto parece pensar.
Não quero nenhuma conversa de ironias sérias, então, respiro fundo e conto a verdade.
— Foi ele que comprou, você sabe, não sabe? — inclino-me um pouco para ela, para ouvir bem.
Ela fica de ombros e rosto caídos, provavelmente envergonhada por fingir não desconfiar nem um pouco de quem poderia ser o verdadeiro comprador das coisas, mas depois, fica com cara triste, parecia querer chorar.
Eu toco o braço dela querendo me explicar.
— Eu não queria te machucar, só disse porque queria… Aghh — rosneio, sem encontrar a palavra certa, porque qualquer uma pode tornar as coisas piores.
Eu seguro os dois ombros dela e a viro para mim e nos encaramos.
— Hei, escuta, eu não sou muito boa em falar, mas qualquer palavra que te machucar, saiba que não era a intenção. Eu só queria dizer a verdade porque somos amigas.
Ela assente com a cabeça. Eu largo os ombros dela e ela se levanta sem mais nem menos e sai para fora, deixando a sua pasta de livros, pois ela vinha me buscar para escola, ela costuma chegar cedo para conversarmos um pouco enquanto eu me apronto. Eu também saio para ver o que deu nela. Ela já atravessou o portão do muro, eu quero chamá-la mas desisto, melhor outro dia.
Volto a arrumar as minhas coisas que comprei com o meu corpo. Se bem que não é bem assim, porque aquilo não sei quantas voltas eu precisaria para conseguir — o que consigo é para comer com uma economização rigorosa para pagar a escola pública, sim, porque os materiais escolares não são gratuitos — mas não quero pensar nisso, tento me consolar da decepção de ele ser noivo e dizer que tudo foi negócio para ele e eu. Depois de arrumar, vou para escola, não sei qual vai ser o clima de nós três hoje.







