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Capítulo 2: A Virgem Milionária

Os pais

Muitos dias antes.

Larissa Ednubio Diva, aos dezoito anos, era uma virgem milionária. Os pretendentes desfilavam, mas nenhum atravessava a porta. 

No dia 31 de dezembro, Larissa estava radiante. A farra do ano novo acontecia ao ar livre, um espaço aberto, tomado por mesas baixas e cordas de luz que tremiam como vaga-lumes bêbados. O som batia nos peitos, alguns dançavam com os braços abertos, outros com os corpos colados, outros com o desejo como único compasso.

Larissa usava calça preta, justa, e uma blusa de alça fina. Thadeu usava calça escura e camisa social aberta no peito, mangas dobradas, o sorriso de quem promete mais do que pode entregar. Ele era bonito do jeito que homens de origem humilde conseguem ser quando tentam parecer ricos — esforçado, cuidadoso, e mais…

Ela estava feliz.

Thadeu teve o seu:

Pegou a mão direita dela e levantou para cima, os braços flexionados no ar, os corpos colados para dançar. A outra mão deslizou pelas costas, lenta, deliberada, até encontrar as nádegas. A palma aberta, os dedos curvados.

Larissa sentiu o corpo endurecer. Quis afastar a mão. Quis dizer algo.

Mas era só dança. Uma mão nas nádegas não seria um grande problema.

Acabou sendo um grande problema.

Gostoso, mas problema.

Numa esquina, perto de caixas vazias e de um corredor que ninguém usava, os zíperes das calças se abriram. O calor dos corpos se encontrou naquela região, invadindo até a pele sob o tecido. Arderam em silêncio obrigatório, porque um gemido, e estariam entregues a qualquer pessoa que passasse. 

Desta vez, alguém atravessou a porta.

Muitos dias depois, Larissa descobriu que estava grávida.

O teste ficou sobre a pia do banheiro, as duas listras rosas gritando contra o mármore branco. Ela sentou no chão, a saia comprida amassada entre os dedos, e não teve a certeza do que sentia com a notícia.

Thadeu foi o primeiro a saber.

Ela esperava abraço. Esperava "vai ficar tudo bem".

Thadeu veio de uma família humilde. Pobre, para ser exata. Conservadora. Daquelas com regras rígidas sobre o que é certo e errado, mesmo quando as regras não fazem sentido. Engravidar antes do casamento era mancha. Mesmo que a criança fosse dele. Mesmo que ele tivesse feito.

— Não posso me casar com você — ele disse, os olhos no chão. — Minha mãe, minha avó... jamais aceitariam. Uma mulher que engravida antes do casamento não é...

Não é o quê?

Digna?

Pura?

Respeitável?

A frase ficou suspensa. Ela a completou em silêncio.

Ela considerou todas as saídas.

Abortar era a prática. Um procedimento, e tudo voltaria ao normal. Ela poderia esquecer. Poderia fingir que aquele 31 de dezembro nunca existiu.

Larissa não queria tirar uma vida.

Mesmo que aquela vida não tivesse sido planejada. Mesmo que Thadeu tivesse virado as costas.

Ela fez as malas. A mentira foi simples: estudos no exterior. Uma bolsa que não podia recusar. ela se despediu dos pais e foi  embora.

Larissa viajou. Alugou um apartamento. Esperou.

A barriga cresceu. Ela não se olhava no espelho. Não queria ver o próprio corpo mudar. Não queria lembrar que aquele corpo tinha sido tocado em uma esquina, quando jurava que sua primeira vez seria em um hotel ou casa 5 estrelas.

Deu a luz e cuidou do bebê por dois anos.

Uma manhã, com o sol ainda baixo e o ar frio, Larissa vestiu a criança com uma roupa limpa. Pegou a mão pequena. Caminhou até a periferia, até um lugar cheio de tendas velhos e lixo ao lado, era um lixão que viviam alguns adultos e cuidavam de crianças da rua.

Ela deixou a criança ali, com dois anos.

Olhou para a criança com olhos que perguntavam "por quê".

Virou as costas. Não olhou para trás.

Ela voltou para casa e os ex-noivos reataram.

Os dois fingiram que ela nunca esteve grávida.

E sim, ela pensava na sua criança de 2 anos, mas a teimosia do amor pelo Thadeu a fez ficar com a sua dor e saudades do seu bebê. Aliás,  do bebê dos dois.

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