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Amo-te, Mesmo Feia
Amo-te, Mesmo Feia
Por: Tvpal
Capítulo 1: A patetica.

Marioneta

O silêncio entre nós três é tão pesado quanto o ar que eu tento engolir. A risada dela ecoa, afiada, cortando a tensão como vidro quebrado.

— Não responde, Marioneta? — Ela inclina a cabeça, um sorriso torto nos lábios pintados de vermelho. O cropped assimétrico sobe um pouco mais com o movimento, revelando a curva da cintura dela. Ela sabe o que está fazendo. Sabe cada ângulo, cada centímetro de pele que mostra. — Está tão surpresa assim? Achou que era especial?

Meus dedos se contraem. As unhas cravam na palma da minha mão. A dor é um ponto de ancoragem. Não, não posso fechar o punho. Não posso dar a eles essa satisfação. Mas o corpo trai a vontade — ombros enrijecidos, maxilar travado, respiração curta que tento disfarçar.

— Você achou mesmo que tinha chances de ser esposa de um bilionário?

A pergunta vem como um tapa. Eu fico calada. Dedos ainda se segurando para não formar um punho. As palavras se embolam na garganta, nenhuma delas digna o bastante para sair. Ela ri — um som baixo, cheio de veneno — e o corpo dela se aninha mais contra o dele. A mão dele descansa na curva do quadril dela, os dedos preguiçosos, como se ela fosse um móvel confortável.

— Por favor, ele sempre foi meu… — Ela suspira, passando a mão pelos cabelos soltos com um gesto de cansada superioridade. O salto alto muda de peso. A saia curta sobe mais um centímetro. — Mas ele é homem, precisa se divertir um pouco com outras, são assim os homens, e você —

O coração aperta. Eu sei o que vem. Vejo nos olhos dela, na curvatura dos lábios, na forma como ela se inclina para frente, os dedos apoiados no peito dele através da camisa branca.

— E você — ela repete, saboreando cada sílaba — é uma vadia feia.

As palavras caem como pregos. Sinto cada uma penetrar. O rosto não se mexe, mas por dentro algo se parte e se afia ao mesmo tempo.

— Ele só queria o meio das tuas pernas. — Ela dá um passo à frente, ainda nos braços dele, e ele a acompanha, acomodando os braços em volta dela como se fosse a coisa mais natural do mundo. A gravata vermelha balança levemente com o movimento. — Confesso. Tuas pernas são perfeitas nessa sua mini-saia e mini-camisa de vadia.

O olhar dela desce pelo meu corpo, devagar, deliberado, como se avaliasse um pedaço de carne no açougue. O ar gelado toca minha pele exposta. De repente, a mini-saia parece menor. A mini-camisa parece mais curta. Quero me encolher, mas não me encolho.

— Até eu pareço me provocar certas sensações — ela continua, a voz mais baixa, mais íntima, como se dividisse um segredo. A ponta da língua molha o lábio inferior. O braço dele aperta a cintura dela. Ele não diz nada, apenas sorri aquele sorriso pequeno de canto, os olhos fixos em mim. — Pena que a cara é outra coisa.

O sorriso dela se alarga. Ela sabe que acertou. Sabe que aquela é a ferida mais funda. Enterra o dedo nela com prazer.

— Fala alguma coisa, Marioneta — ela provoca, inclinando a cabeça. O cropped assimétrico desliza no ombro exposto. — Ou a boca só serve pra outra coisa?

Não respondo. Os dedos tremem contra a palma da mão. A pressão aumenta.

Ela se vira ligeiramente para ele, ainda nos braços dele, mas os olhos continuam em mim.

— Alguma vez ele te beijou?

A pergunta perfura o ar. Fico com vários sentimentos. Raiva dos dois. Raiva dos três. Contando comigo. Porque ele nunca me beijou. Nunca. Os lábios dele nunca tocaram os meus. Nem um selo. Nem um roçar. Nada.

Revire a memória, desesperada, procurando algum beijo, algum gesto, alguma coisa que possa contrapor. Não há. Ele sempre desviava o rosto. Sempre virava na hora certa. Achei que era timidez. Achei que era espera. Achei que era construção.

Era nada.

— Nunca me beijou.

Os olhos dela brilham de satisfação, como se lessem meus pensamentos.

— Nunca te apresentou a ninguém como namorada. Nunca postou uma foto. Nunca te levou a um restaurante que não tivesse luz baixa e mesas nos cantos. E tu não leste os sinais.

Os olhos se enchem de água, mas não deixo cair. Não. Não na frente dela. Não na frente dele.

Ela ri. O riso ecoa no espaço vazio entre nós.

— Você é tão patética que dói.

Os punhos se cerram sozinhos. As unhas cravam nas palmas. A dor é real, física, e por um momento é a única coisa que me mantém no chão. O sangue pulsa nas mãos fechadas. Os músculos dos antebraços se contraem. Todo o corpo grita para explodir, para revidar, para fazer alguma coisa.

Mas não me movo.

Olho para ele.

Ali, parado. Os braços em volta dela. A camisa branca impecável. A gravata vermelha como uma faixa de sangue no meio do peito. Ele não fala. Não me defende. Não a repreende. Ele apenas sorri. Aquele sorriso pequeno, de canto, que não alcança os olhos. E que me diz tudo o que preciso saber.

Ele está se divertindo.

Ela apoia a cabeça no ombro dele e me encara. Os olhos estreitos. A boca torta num sorriso cruel.

— Olha pra ela, amor — ela sussurra, alto o bastante para eu ouvir. — Olha como ela treme. Como quer explodir. E não faz nada. Não pode fazer nada.

Ele não responde. Apenas continua sorrindo. A mão desliza pela cintura dela, os dedos traçando um caminho lento até o quadril exposto pelo cropped assimétrico. Ela arqueia as costas — um movimento felino. Eu vejo a aliança no dedo dela. Uma aliança que nunca vi antes.

O estômago se contrai.

— Acha que essa aliança é sua, Marioneta? — ela pergunta, levantando a mão propositalmente. O ouro brilha sob a luz. Ela gira o anel no dedo, devagar, para que eu veja cada detalhe. — Não é. Nunca foi. Nunca vai ser.

Engulo em seco. Os punhos ainda cerrados. As unhas tão fundas que quase rompem a pele. A voz sai. Baixa. Trêmula. Mas sai.

— Por que ele te mantém nos braços, então?

Ela pisca. Por uma fração de segundo, a certeza vacila.

— O quê?

— Você está nos braços dele. E ele está olhando para mim. — A voz treme, mas não paro. — Não sei o que ele sente por você. Mas sei que ele não está te olhando agora. Está me olhando.

Ela se vira para ele, buscando confirmação. O rosto, antes tão confiante, tem uma ruga fina entre as sobrancelhas.

— Camargo? — Ela toca o peito dele, os dedos tamborilando contra a camisa branca. — Fala alguma coisa.

Ele não fala. Apenas sorri. Olha para mim. E sorri.

O silêncio cai entre nós. Ouço meu próprio coração, alto, acelerado, batendo contra as costelas como um pássaro preso. Ela continua nos braços dele, mas o corpo está mais tenso agora. Menos aninhado. Mais agarrado. Não está mais confortável. Está se segurando.

— Isso não significa nada — ela cospe, mas a voz já não tem a mesma força. — Ele está te olhando porque és um show de horrores. Porque és patética. Porque achaste que eras alguém e não és nada.

Os olhos ainda cheios, mas não pisco. Não vou piscar. Cada lágrima é uma vitória para ela. Não vou dar isso a ela.

— Então por que estás com medo? — pergunto.

Ela ri. Um riso forçado, agudo, falso.

— Medo? De ti? Por favor, Marioneta. Mal podes segurar as próprias lágrimas.

Mas as mãos dela tremem. E eu vejo. Vejo a forma como os dedos se enrolam no braço dele, apertando, segurando, como quem agarra algo que pode escapar.

O sorriso dele nunca muda. Apenas fica ali, observando. O que ele pensa, o que sente, ninguém sabe. Ele só observa.

E eu, Marioneta, continuo ali. Parada. Punhos cerrados. Olhos ardendo. Coração batendo tão forte que juro que eles ouvem.

"Camargo, Camargo — penso, encarando-o com fervor nos olhos — tu me pagas."

A voz não sai. Fica dentro de mim. Mas sei que ele ouviu. O olhar dele se mantém no meu, fixo, inescrutável. O sorriso cresce. Só um pouco. Só o bastante para eu ver.

Ele leu meus pensamentos.

E não se importa.

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