Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando acordo, descubro que sobreviver também pode ser uma forma de tortura.
A dor está em toda parte, mas assume formas diferentes. Minha perna pulsa sob camadas de curativos; o pescoço arde cada vez que tento respirar; e o lado esquerdo do rosto parece pressionado contra uma chapa incandescente. Tento levar a mão até ele, mas meus dedos também estão cobertos por gaze.
Uma mulher de uniforme se aproxima da cama e segura meu braço antes que eu toque as bandagens.
— Não mexa no rosto. Você sofreu queimaduras profundas e passou por um procedimento de emergência.
Quero perguntar onde estou e quanto tempo se passou, mas nenhum som reconhecível sai da minha boca. A garganta queimada transforma minha voz em um sopro doloroso.
— Não force — orienta ela, ajustando o soro. — Você inalou muita fumaça. O médico disse que sua voz deve voltar, mas precisamos esperar a inflamação diminuir.
Olho ao redor. O quarto é pequeno, com paredes claras e uma janela estreita. Não há flores, objetos pessoais ou familiares esperando ao meu lado. Apenas uma prancheta presa à extremidade da cama.
No espaço reservado ao nome da paciente, está escrito: NÃO IDENTIFICADA.
A mulher acompanha meu olhar.
— Você chegou sem documentos. Suas roupas estavam muito danificadas, e ninguém conseguiu confirmar quem você é. Consegue escrever seu nome?
Ela coloca um bloco e uma caneta sobre meu colo. Meus dedos tremem quando seguro o objeto, e a ponta encosta no papel.
Helena Vilar.
As letras começam a se formar em minha cabeça, mas não chegam à página. Se eu escrever meu nome, a polícia avisará Dante. Meu marido descobrirá que fracassou antes que eu consiga sair daquela cama.
— Não precisa ter pressa — diz a enfermeira. — Ficou inconsciente por quase dois dias. A memória pode retornar aos poucos.
Dois dias.
Durante quarenta e oito horas, Dante acreditou que eu estava morta. Talvez ainda acredite.
Escrevo apenas duas palavras.
NÃO LEMBRO.
A enfermeira lê e aperta minha mão com cuidado.
— Tudo bem. Por enquanto, vamos registrar você como desconhecida.
Ela se afasta para chamar o médico. Observo aquelas duas palavras e percebo que, pela primeira vez em muitos anos, Dante não sabe onde estou, o que penso ou qual será meu próximo movimento.
O anonimato é a única coisa que ele nunca conseguiu roubar de mim.
♠ ♦ ♣ ♥
Horas depois, acordo com vozes vindas da televisão. A luz do quarto está apagada, e o aparelho preso à parede transmite imagens do teatro destruído. Bombeiros caminham entre os escombros enquanto uma repórter descreve o incêndio como uma das maiores tragédias do entretenimento nacional.
— As autoridades confirmaram que uma mulher foi resgatada com vida — informa ela. — A sobrevivente permanece sem identificação e não possui condições de prestar depoimento. Segundo os investigadores, provavelmente se trata de uma funcionária que trabalhava nos bastidores.
A imagem muda.
Dante aparece diante das câmeras usando uma camisa preta. Há fuligem cuidadosamente espalhada em seu rosto, e um curativo pequeno cobre sua testa. Ele não sofreu aquele ferimento tentando me salvar. Eu o vi abandonar o teatro sem sequer olhar para trás.
Lorena permanece ao lado dele, vestida de preto. Mantém uma das mãos sobre seu ombro e os olhos baixos, representando diante das câmeras a melhor amiga devastada.
— Minha esposa conhecia aquele teatro melhor do que qualquer pessoa — declara Dante, com a voz embargada. — Se houvesse alguma forma de escapar, Helena teria encontrado.
Ele precisa interromper a frase e levar a mão ao rosto. Os jornalistas respeitam seu sofrimento, mas reconheço o momento exato em que Dante espera que as câmeras registrem suas lágrimas.
Até seu luto é uma ilusão criada para o público.
— O senhor viu o que aconteceu? — pergunta um repórter.
Dante demora alguns segundos antes de responder.
— Helena estava dentro da caixa quando o sistema falhou. Tentei acionar o controle de emergência, mas o fogo se espalhou rápido demais. Permaneci no teatro enquanto foi possível, esperando que ela surgisse pela passagem secreta.
Meu monitor cardíaco acelera.
Ele está transformando o próprio crime em um ato de heroísmo. Destruiu o controle manual, deixou-me presa e fugiu antes do alarme, mas agora conta ao mundo que permaneceu entre as chamas tentando me encontrar.
A enfermeira entra ao ouvir o aparelho.
— Precisa se acalmar.
Aponto para a televisão e depois para mim, desesperada para fazê-la compreender.
— Você conhece esse homem?
Penso em responder que sim. Posso escrever que sou Helena, acusar Dante e obrigar a polícia a investigar. Mas a reportagem mostra uma fotografia de Theo nos braços do pai, cercado por fotógrafos na entrada de casa.
Meu filho parece pequeno demais dentro daquele casaco. Está com o rosto escondido no pescoço do homem que tentou matar sua mãe.
Dante tem Theo.
Se eu revelar que sobrevivi sem poder sair da cama, ele controlará não apenas a história, mas também a única pessoa capaz de me fazer desistir de qualquer vingança.
Balanço a cabeça.
A enfermeira desliga a televisão e verifica meus batimentos.
— A polícia acredita que Helena Vilar morreu no desabamento — explica ela. — Ainda não encontraram o corpo, mas ninguém conseguiria sobreviver naquela parte do teatro.
Fecho os olhos para esconder as lágrimas. Dante conseguiu o que queria: para a polícia, para a imprensa e para meu próprio filho, Helena Vilar morreu dentro de sua última ilusão.
— Os investigadores voltarão amanhã — continua a enfermeira. — Como você não se lembra do nome, vão colher seu DNA e comparar com os registros das pessoas desaparecidas. Talvez assim possamos encontrar sua família.
Abro os olhos.
Se compararem meu DNA, em poucas horas Dante saberá que estou viva.
A enfermeira sorri, acreditando que acabou de me dar esperança, e sai do quarto. Olho para o relógio na parede. Faltam menos de dez horas para o amanhecer.
Tenho até a chegada da polícia para desaparecer pela segunda vez.
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