Mundo de ficçãoIniciar sessãoDante ganhou mais dinheiro com a minha morte do que jamais me pagou por todas as ilusões que criei.
A frase aparece na primeira página do relatório que Miguel coloca diante de mim. Estamos na antiga oficina dele, entre ferramentas, maquetes e mecanismos cobertos por lençóis. Durante meses, enquanto eu reaprendia a andar e falar, ele reuniu tudo o que conseguiu encontrar sobre o incêndio.
Seguro os documentos com as mãos que ainda carregam marcas do fogo. Meu nome está em cada folha, mas Helena Vilar é tratada apenas como vítima, beneficiária de apólices e esposa morta de um homem devastado.
— Dante recebeu o seguro do teatro, a indenização pelos equipamentos e a apólice feita em seu nome — explica Miguel. — Alegou que o dinheiro seria usado para pagar funcionários e reconstruir o espetáculo.
Viro a página e encontro fotografias da nova mansão, de dois carros importados e de uma lancha registrada por uma empresa recém-criada. Dante não reconstruiu o teatro. Aposentou-se no auge da carreira e transformou minhas cinzas em patrimônio.
Na fotografia seguinte, Lorena desce de um dos carros usando meus brincos. Theo caminha entre ela e Dante, segurando a mão dos dois.
Preciso afastar o relatório antes que meus dedos o rasguem.
— Ele comprou uma família com o dinheiro da minha morte.
— E não foi a única coisa que roubou — diz Miguel.
Ele abre uma pasta contendo cópias de registros técnicos protocolados após o incêndio. Reconheço cada desenho: a Câmara de Névoa, o Labirinto de Vidro, a Mulher sem Sombra e o mecanismo suspenso que eu pretendia usar no espetáculo seguinte.
Todos possuem a assinatura de Dante.
— Esses projetos estavam no meu computador — afirmo. — Alguns nem sequer estavam terminados.
— Agora pertencem legalmente à empresa dele. Dante declarou que você trabalhava apenas como assistente e que os arquivos encontrados eram cópias das criações do marido.
A injustiça produz uma dor diferente das queimaduras. Durante anos, aceitei permanecer nos bastidores porque acreditava que o sucesso de Dante também pertencia a mim. Agora descubro que até meu silêncio foi transformado em prova contra minha autoria.
— Ele não roubou apenas minha vida — digo. — Roubou tudo o que poderia provar que ela existiu.
Miguel empurra outra pasta em minha direção.
— Então vamos recuperar as duas coisas.
♠ ♦ ♣ ♥
O relatório oficial possui cento e oitenta páginas e uma conclusão de apenas quatro linhas: falha elétrica acidental, propagação rápida do fogo, colapso estrutural e morte presumida de Helena Vilar.
Leio os dados técnicos três vezes. A perícia afirma que uma sobrecarga no circuito do palco inutilizou simultaneamente a trava de emergência da caixa e o sistema automático de combate a incêndio.
— Isso é impossível — afirmo.
Miguel se inclina sobre a mesa.
— Por quê?
— Porque eu projetei os dois sistemas em circuitos independentes. Mesmo que toda a alimentação do palco fosse cortada, a caixa abriria com uma bateria interna e os sprinklers seriam acionados por uma central separada.
Aponto para uma fotografia ampliada do mecanismo destruído. A peça está deformada, mas ainda consigo reconhecer o encaixe vazio onde deveria estar o pino de liberação manual.
— O fogo não fez isso. Alguém retirou o pino antes do espetáculo.
— Podemos provar?
— A peça original desapareceu e minhas cópias técnicas agora pertencem a Dante. Ele preparou o crime para parecer uma falha criada por mim.
Miguel passa a mão pelos cabelos, frustrado.
— Foi por isso que a seguradora pagou. O laudo concluiu que não houve ação criminosa.
Fecho a pasta. Dante eliminou a esposa, recebeu uma fortuna e ainda deixou que a culpa técnica recaísse sobre a mulher morta. Não foi um impulso provocado por nossa discussão. Ele planejou cada detalhe.
— Preciso ver as gravações.
Miguel permanece em silêncio por tempo demais.
— A maior parte dos servidores queimou. A polícia recuperou apenas trechos enviados automaticamente para uma central externa.
— E o trecho da caixa?
— Foi corrompido.
Encaro o rosto dele.
— Corrompido ou apagado?
Miguel conecta um disco ao computador. A imagem de uma câmera do corredor de serviço aparece na tela, granulada e sem som. O horário no canto marca vinte e duas horas e quarenta e um minutos.
Dante surge usando o figurino do espetáculo. Ele olha para os dois lados, abre a porta que conduz aos bastidores e sai do campo da câmera. O alarme do incêndio foi registrado às vinte e duas e quarenta e nove.
— Oito minutos — murmuro. — Ele deixou o palco oito minutos antes de todos saberem que havia fogo.
— E voltou para a frente do teatro dizendo que tentou salvar você.
Miguel avança o vídeo. No segundo seguinte, o horário salta de vinte e duas e quarenta e um para vinte e duas e cinquenta. Os oito minutos decisivos foram removidos.
— Alguém editou o arquivo — conclui ele. — Mas não sabemos o que foi apagado.
Peço que retorne ao último segundo intacto. Dante está de costas para a câmera, com uma das mãos estendida para alguém que permanece fora do enquadramento.
Aproximo a imagem. No metal polido do armário de emergência, existe um reflexo quase invisível.
Dante não estava sozinho quando preparou minha morte.
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