Ato 7 — O Rosto de Eva

Estou diante de um espelho, embora não me lembre de ter saído da sala cirúrgica. Meu rosto está coberto por tantas bandagens que apenas os olhos permanecem visíveis, duas manchas assustadas em meio ao branco.

Ergo as mãos e começo a desfazer os curativos. A primeira faixa cai limpa. A segunda vem manchada de sangue. Quando retiro a terceira, um pedaço de pele permanece grudado no tecido.

Deveria parar, mas meus dedos não obedecem. Arranco as últimas camadas e encaro o que o fogo deixou: pele retorcida, uma pálpebra caída e lábios deformados que já não fecham. A mulher refletida parece uma criatura construída com os restos de Helena.

Tento gritar, mas outra voz ecoa pelo quarto.

Dante está atrás de mim.

Ele ri enquanto segura Theo no colo. Meu filho chora e estende os braços em minha direção, mas Dante recua antes que eu consiga tocá-lo.

— Olhe para você — diz meu marido, satisfeito. — Mesmo que volte, seu filho nunca reconhecerá esse monstro.

— Mamãe! — Theo grita.

Corro até ele, mas o espelho se transforma numa parede de vidro. Bato com os punhos, imploro e tento chamar seu nome enquanto Dante leva meu menino para a escuridão.

O vidro começa a rachar. Meu reflexo sorri, embora eu continue chorando.

Então a mulher desfigurada do outro lado sussurra:

— Você morreu.

Acordo gritando.

O som sai rouco e fraco, mas é suficiente para Miguel se levantar da poltrona ao lado da cama. Ele segura meus ombros enquanto tento arrancar os curativos.

— Helena, pare! Você está segura.

As luzes do quarto substituem o espelho, e os aparelhos ao meu redor recuperam o ritmo. Ainda estou na clínica. Ainda estou coberta por bandagens.

Ainda estou viva.

— Meu rosto... — consigo dizer.

— A cirurgia terminou — explica Miguel, afastando minhas mãos. — Houve uma complicação, mas o procedimento foi concluído.

— Meu coração parou?

A pergunta faz seus olhos se encherem de lágrimas.

— Durante um minuto e quarenta e sete segundos.

Levo a mão ao peito. Não encontro nenhuma diferença, apenas uma dor profunda sob o esterno e a certeza de que estive perto demais de abandonar Theo.

— E a cirurgia?

Miguel sorri pela primeira vez.

— Foi bem-sucedida.

Fecho os olhos. Não agradeço nem comemoro. Apenas faço uma promessa à criança que vi desaparecer no pesadelo: nunca mais permitirei que Dante decida se volto ou não.

♠ ♦ ♣ ♥

Seis semanas depois, sento diante de outro espelho. Desta vez, Miguel está ao meu lado, e o médico remove cuidadosamente as últimas faixas que envolvem minha cabeça.

Os curativos caem um após o outro. Minha pele ainda está avermelhada e sensível, mas não existe monstro algum esperando por mim. A mulher refletida possui maçãs do rosto mais altas, nariz delicado, queixo marcado e lábios que não reconheço. Os olhos são meus, embora pareçam pertencer a outra pessoa.

Uma cicatriz clara desce da orelha até o pescoço e desaparece sob a roupa. Não é o rosto perfeito de uma modelo, nem a restauração exata da mulher que fui. É um rosto novo, belo de uma maneira estranha, construído entre a ciência de um cirurgião e a crueldade de meu marido.

Toco a própria face. A mulher no espelho repete o gesto, mas Helena não retorna.

— O que está sentindo? — pergunta Miguel.

— Luto.

Ele apoia a mão em meu ombro.

— Ainda é você.

— Não. Helena tinha marido, casa, carreira e um filho que chamava por ela. Helena acreditava que amor era aceitar viver atrás das cortinas. Aquela mulher entrou numa caixa e morreu queimada diante de uma plateia.

Minha voz continua mais grave, alterada pela fumaça e pelos meses de tratamento. O rosto também não é o mesmo. Pela primeira vez, compreendo que as cicatrizes não são apenas marcas do que perdi. Elas podem ser meu melhor disfarce.

Miguel coloca um envelope sobre a penteadeira. Dentro dele estão documentos, registros profissionais e uma identidade com a fotografia da mulher refletida no espelho.

EVA VALENÇA.

— Você ainda pode escolher outro nome — diz ele. — Depois que começarmos, não será fácil voltar atrás.

Passo o polegar sobre a fotografia. Eva não possui passado, marido ou certidão de óbito. Pode entrar onde Helena jamais seria recebida e olhar nos olhos de Dante sem ser reconhecida.

— Não quero voltar atrás.

— Então preciso ouvir você dizer.

Encaro meu reflexo.

— Helena Vilar morreu naquele incêndio. A partir de hoje, meu nome é Eva Valença.

Miguel se afasta, como se reconhecesse que o momento pertence apenas a mim. Permaneço diante do espelho até conseguir olhar para aquela mulher sem procurar o rosto antigo.

— O que Eva fará agora? — pergunta ele.

Levanto-me, mesmo sentindo a perna queimada protestar. Minha recuperação ainda não terminou, mas minha vingança acaba de começar.

— Vou recuperar meu filho e destruir a vida de todos que participaram da morte de Helena Vilar.

— Como pretende se aproximar de Dante sem despertar suspeitas?

Penso no homem que atravessou o fogo para me salvar, quase me alcançou no hospital e continua sendo a única porta pela qual posso voltar à família Vilar.

Sorrio para Eva pela primeira vez.

— Vou começar fazendo Caio Vilar se apaixonar por mim.

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