Ato 5 — Atrás das Bandagens

Às seis da manhã, a polícia virá recolher meu DNA. Às cinco e cinquenta e nove, Helena Vilar precisa estar morta.

O relógio marca duas e dezessete. Tenho menos de quatro horas para desaparecer, mas não consigo apoiar a perna no colchão sem sentir a carne rasgar sob os curativos. Escapar daquele quarto parece mais impossível do que sair da caixa em chamas.

A enfermeira entra para conferir o acesso e encontra a prancheta sobre meu colo. Escrevo uma palavra e mostro a ela.

TELEFONE.

— Você precisa descansar — responde. — A polícia virá pela manhã e poderá ajudá-la.

Balanço a cabeça. Embaixo da primeira palavra, escrevo outra frase com os dedos trêmulos.

SE DESCOBRIREM QUEM SOU, MEU FILHO CORRE PERIGO.

Ela lê duas vezes. Seu olhar percorre as faixas do meu rosto e para na marca pálida deixada pela aliança.

— O homem que fez isso sabe que você sobreviveu?

NÃO.

— E quer continuar assim?

Confirmo. A enfermeira hesita, dividida entre o dever e o medo que reconhece nos meus olhos. Então retira o celular do bolso, desbloqueia a tela e o coloca sobre a cama.

— Dois minutos — avisa. — Não posso ajudá-la a fugir. Posso apenas fingir que não vi esta mensagem.

Digito de memória um número que não uso há anos.

A FÊNIX SAIU DA CAIXA. PRECISO DE UMA SAÍDA INVISÍVEL ANTES DAS SEIS.

A resposta chega imediatamente.

QUEM É?

Respiro fundo antes de escrever:

A ALUNA QUE CORRIGIU O SEU LABIRINTO DE VIDRO.

Os três pontos surgem e desaparecem. Por fim, recebo a pergunta que faz meu coração falhar uma batida.

HELENA?

Envio o nome do hospital e o número do quarto. A última mensagem aparece segundos depois:

NÃO CONFIE EM NINGUÉM. ESTOU INDO.

Apago a conversa e devolvo o aparelho. A enfermeira não pergunta quem atenderá ao pedido. Apenas verifica o corredor antes de sair.

Pela primeira vez desde o incêndio, não estou completamente sozinha.

♠ ♦ ♣ ♥

Pouco depois das quatro, a porta se abre e um homem de cabelos grisalhos entra acompanhado pela médica. Miguel Salvatierra está mais velho, mas ainda observa qualquer sala procurando alçapões, espelhos e saídas secretas.

Ele foi meu professor, meu mentor e o primeiro a dizer que minhas ilusões eram grandes demais para permanecerem escondidas atrás do nome de Dante. Quando tentei defender meu marido, Miguel se afastou, cansado de me ver entregar minhas criações a um homem que jamais dividiria os aplausos.

Agora, diante das minhas bandagens, ele parece envelhecer vários anos.

— Meu Deus... — murmura.

A médica fecha a porta.

— Ela se recusa a fornecer a identidade e afirma que o filho corre perigo. Se você souber quem é essa mulher, preciso que me diga.

Miguel não tira os olhos de mim.

— O Labirinto de Vidro possuía cento e vinte espelhos — explica. — Passei oito meses tentando fazê-lo funcionar. Uma aluna resolveu o problema mudando apenas a inclinação do teto.

Ele segura minha mão com cuidado.

— Quantos graus, Helena?

SETE.

O rosto de Miguel se contrai. Ele leva meus dedos aos lábios, mas interrompe o gesto ao perceber as queimaduras.

— Disseram que você morreu.

Escrevo depressa:

DANTE DESTRUIU O CONTROLE. RETIROU A TRAVA DE EMERGÊNCIA. ELE ME DEIXOU QUEIMAR.

A médica lê por cima do ombro dele e empalidece.

— Isso é uma acusação de tentativa de homicídio. Preciso comunicar à polícia.

NÃO.

— Você precisará de proteção.

DANTE TEM DINHEIRO, INFLUÊNCIA E MEU FILHO. NÃO TENHO PROVAS.

Miguel aperta a mandíbula. Conheço aquela expressão: é a mesma que fazia quando um mecanismo aparentemente perfeito escondia uma falha fatal.

— O que quer que eu faça? — pergunta.

DESAPARECER.

O silêncio é quebrado apenas pelos bipes do monitor. A médica observa as viaturas estacionadas diante do hospital e depois encara meus curativos.

— Ela não sobreviverá sem tratamento especializado. As queimaduras exigirão enxertos, fisioterapia e diversas cirurgias.

— Tenho acesso a uma clínica particular em outra cidade — responde Miguel. — Posso assumir os custos e organizar uma transferência sigilosa.

— A polícia perceberá.

— Então precisamos sair antes que a identificação seja formalizada.

A médica olha para mim.

— Por que confia nele?

Escrevo sem hesitar:

FOI O PRIMEIRO HOMEM QUE ACREDITOU EM MIM.

Miguel baixa a cabeça. Quando volta a me encarar, não resta dúvida em sua voz.

— E não serei o último.

A médica permanece imóvel por alguns segundos. Então abre um armário e pega roupas hospitalares limpas.

— A troca de plantão começa às cinco. Existe um elevador de serviço. Se alguma coisa der errado, nunca tivemos esta conversa.

Miguel coloca as roupas numa bolsa e aproxima uma cadeira de rodas do leito. Ainda organizamos os tubos quando o telefone interno toca.

A médica atende. Escuta em silêncio, e seu rosto perde a cor.

— O que aconteceu? — pergunta Miguel.

Ela desliga lentamente.

— O bombeiro que resgatou a paciente acabou de entrar no andar. Ele se chama Caio Vilar.

Caio conhece meus olhos, meus gestos e todos os segredos que compartilhei com a família de Dante. Se atravessar aquela porta antes de eu desaparecer, talvez reconheça Helena atrás das bandagens.

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