Mundo de ficçãoIniciar sessão— Doutora? — A voz de Caio atravessa a porta. — Preciso ver a mulher que retirei daquele incêndio.
A médica leva um dedo aos lábios e aponta para uma porta estreita ao lado do armário. Eu não a havia notado porque a pintura e o puxador escondido fazem com que pareça parte da parede.
Todo lugar possui uma segunda saída.
Miguel segura minha prancheta e aproxima a cadeira de rodas preparada junto ao leito. Enquanto ele desconecta o soro, a médica abre apenas uma fresta da porta principal.
— Ela não tem condições de receber visitas — avisa.
— Não quero interrogá-la — argumenta Caio. — Preciso confirmar uma coisa.
— O quê?
— Quando a encontrei, ela tentou dizer dois nomes: Dante e Helena.
Meu coração acelera, e o monitor denuncia o medo que tento esconder. Miguel me ajuda a sentar, mas a dor atravessa minha perna com tanta violência que preciso morder os lábios para não gemer.
— A paciente inalou muita fumaça e continua desorientada — insiste a médica. — Volte quando houver autorização.
— Um investigador já está a caminho com uma ordem para identificá-la.
A médica olha por cima do ombro. O medo em seus olhos confirma que nosso plano acaba de perder os poucos minutos que possuía.
Miguel me acomoda na cadeira e cobre meu corpo com um lençol. A porta lateral conduz a uma sala de curativos vazia, e ele me empurra por ela enquanto a discussão continua no corredor.
— Se essa mulher for Helena, cada minuto importa — afirma Caio.
— E, se você estiver errado, estará aterrorizando uma vítima que quase morreu — rebate a médica.
Miguel fecha a passagem atrás de nós e apressa o passo pelo corredor de serviço.
— Desculpe — murmura. — Sei que está sofrendo.
Aperto a prancheta contra o peito e escrevo com dificuldade:
NÃO PARE.
Chegamos ao elevador quando um alarme começa a tocar no posto de enfermagem. As portas estão quase fechadas quando Caio surge na outra extremidade do corredor.
Ele nos vê.
Por um instante, seus olhos se prendem às bandagens que escondem meu rosto. Caio corre em nossa direção, mas as portas se fecham antes que consiga nos alcançar.
— Ele viu você — diz Miguel.
Balanço a cabeça. Caio viu apenas uma mulher sem rosto fugindo dele.
♠ ♦ ♣ ♥
A ambulância particular deixa o hospital antes do amanhecer. Miguel viaja ao meu lado enquanto a cidade desaparece pela janela escura e, na tela de seu celular, Dante anuncia que meu funeral simbólico acontecerá dentro de três dias.
Lorena permanece atrás dele, segurando Theo pela mão. Meu filho não chora. Apenas encara as câmeras com a expressão vazia de quem ainda espera que a mãe apareça e revele que tudo não passou de um truque.
— Ainda podemos voltar — oferece Miguel, percebendo onde estou olhando. — Você pode contar a verdade e pedir proteção.
Escrevo na prancheta:
NÃO SEM PROVAS.
Ele desliga a tela e segura minha mão.
— Então vamos garantir que tenha tempo para encontrá-las.
A clínica fica em outra cidade e recebe poucos pacientes. Sou registrada apenas pelas iniciais E. V., como vítima de violência ainda não identificada. Miguel vende parte da antiga oficina para financiar o tratamento e permanece ao meu lado quando a primeira cirurgia remove os tecidos destruídos e tenta salvar os movimentos do lado esquerdo de meu rosto.
Depois vêm os enxertos, a fisioterapia e a dor. Aprendo novamente a sorrir, mastigar e pronunciar meu próprio nome, embora não possa usá-lo. Cada procedimento devolve uma parte de meu corpo e leva outra parte da mulher que fui.
Assisto ao meu funeral por uma tela. Vejo Dante receber condolências pela morte que provocou, Lorena ocupar lentamente meu lugar e Theo crescer por fotografias obtidas por Miguel. Cada imagem se transforma em mais um motivo para suportar a próxima operação.
♠ ♦ ♣ ♥
Dezoito meses depois, entro pela sétima vez numa sala cirúrgica. O médico desenha linhas sobre a pele reconstruída e explica que aquela será a última grande operação, responsável por definir os novos contornos de meu rosto.
— O procedimento será longo — alerta ele. — Seu corpo passou por agressões demais. Ainda existe risco de rejeição, hemorragia ou reação à anestesia.
Miguel aperta minha mão.
— Podemos esperar mais alguns meses, Helena.
— Não.
Minha voz está mais grave do que antes, mas finalmente me pertence outra vez. O médico fecha o prontuário e se aproxima.
— Preciso ter certeza de que compreende os riscos.
Olho para Miguel.
— Passei dezoito meses aprendendo a sobreviver. Agora preciso começar a viver.
Ele beija minha testa antes que os enfermeiros afastem a maca. Na sala cirúrgica, luzes redondas brilham sobre mim, e o anestesista posiciona uma máscara sobre meu rosto.
— Pense em alguma coisa que a faça querer acordar — orienta.
Penso em Theo segurando o ás de copas. Penso em Dante observando minha morte sem apertar o botão que abriria a caixa. Quando a escuridão me envolve, faço uma promessa silenciosa.
Eu voltarei.
Não sei quanto tempo se passa até vozes atravessarem o vazio.
— A pressão está caindo — avisa alguém. — Suspendam o procedimento.
Quero abrir os olhos, mas já não encontro meu corpo. Existem apenas o som acelerado dos aparelhos e o medo de nunca voltar a ver meu filho.
— Perdemos o pulso! — grita outra voz. — Iniciem as compressões!
Procuro Theo dentro da escuridão, mas não consigo encontrá-lo. Então todos os sons desaparecem, substituídos por um único apito longo e contínuo.
Meu coração para de bater.
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