Mundo de ficçãoIniciar sessãoCaio Vilar atravessa o fogo para me salvar, sem saber que seu irmão me deixou ali para morrer.
Eu o reconheço antes mesmo de enxergar seu rosto. O nome VILAR está bordado na faixa refletiva do uniforme, acima do peito, e a visão daquela palavra faz meu corpo reagir como se Dante tivesse voltado para terminar o serviço.
Tento me afastar, mas minha perna queimada não responde. Estou caída entre pedaços do cenário, respirando uma mistura de fumaça, poeira e ar quente. A caixa da qual acabei de escapar continua ardendo atrás de mim, transformando em cinzas o palco onde construí a carreira do meu marido.
— Encontrei uma vítima! — grita o bombeiro pelo rádio. — Ala oeste, próximo ao palco principal.
Ele se ajoelha ao meu lado e retira uma máscara de oxigênio presa ao equipamento. Quando a luz do incêndio atravessa a proteção de seu capacete, finalmente vejo seus olhos.
Caio.
O irmão mais novo de Dante sempre foi o único Vilar incapaz de fingir diante de mim. Enquanto Dante sorria para fotógrafos, produtores e patrocinadores, Caio preferia ficar longe dos espetáculos. Dizia que não gostava de truques porque passava os dias vendo pessoas morrerem por acreditarem que tinham controle sobre o perigo.
Agora, ele está dentro do meu inferno.
— Consegue me ouvir? — pergunta Caio enquanto posiciona a máscara sobre meu rosto. — Preciso que respire devagar.
Seguro seu pulso antes que ele se afaste.
— Dante...
Minha voz não passa de um ruído áspero. A fumaça queimou minha garganta, e o nome do meu assassino se desfaz atrás da máscara.
— Não tente falar — orienta Caio. — Vou tirar você daqui.
Balanço a cabeça e aperto seu braço com mais força. Preciso fazê-lo entender. Dante planejou o incêndio, destruiu o controle da caixa e retirou minha saída de emergência. Se Caio encontrar o irmão antes que eu consiga falar, talvez também se torne um alvo.
— Foi... ele...
Caio aproxima o rosto, tentando compreender.
— Quem fez isso com você?
Abro a boca, mas uma tosse violenta toma conta do meu corpo. A dor se espalha do peito para a lateral do rosto e desce pelo pescoço. Quando tento respirar novamente, sinto o cheiro da minha própria pele queimada.
O teto estala acima de nós.
— Precisamos sair agora — avisa uma voz pelo rádio. — A estrutura pode desabar a qualquer momento.
Caio passa um braço por baixo das minhas pernas e o outro pelas minhas costas. Grito quando ele toca a queimadura, mas ele não me solta.
— Eu sei que dói — diz, erguendo-me. — Fique comigo.
A frase desperta uma lembrança cruel. Dante costumava dizer as mesmas palavras antes de me prender em qualquer equipamento. Fique comigo. Confie em mim. Eu nunca deixaria nada acontecer com você.
Acreditei nele até as chamas alcançarem minha pele.
Caio começa a atravessar o palco enquanto segura a máscara contra meu rosto. Parte do teto desaba atrás de nós, lançando uma onda de calor pelo corredor. Ele gira o corpo e me protege com as costas, recebendo sobre o uniforme uma chuva de faíscas e fragmentos incandescentes.
— Você está ferido — tento dizer.
Apenas um gemido escapa.
— Ainda estou andando — responde, embora não possa ter compreendido minhas palavras. — Isso é tudo o que importa agora.
A saída de emergência está bloqueada por uma estrutura metálica que caiu sobre a porta. Caio me coloca cuidadosamente no chão, retira uma ferramenta do cinto e tenta mover a peça. Seus braços tremem pelo esforço, mas o metal quase não se desloca.
O fogo avança pelo corredor.
Procuro alguma alternativa e reconheço uma faixa estreita na parede. Atrás daquele painel existe uma passagem usada pelos técnicos para alcançar o sistema de contrapesos. Eu a projetei para permitir manutenção sem interferir nos ensaios.
Estendo o braço e bato duas vezes na parede.
Caio olha para mim.
Aponto para o painel e desenho com o dedo uma linha em volta da estrutura. Ele entende, enfia a ferramenta na lateral e força a madeira até arrancá-la. Um corredor escuro aparece atrás da parede.
— Você conhece este teatro — observa ele.
Conheço melhor do que conhecia meu marido.
Caio volta a me carregar e entra na passagem. O espaço é estreito, obrigando-o a avançar de lado enquanto cabos e pesos balançam sobre nossas cabeças. A cada passo, a dor na minha perna cresce, mas permaneço consciente porque seu sobrenome continua diante dos meus olhos.
Vilar.
O nome que tentou me matar agora é o único capaz de me manter viva.
Quando finalmente alcançamos a área externa, o ar frio atinge minhas queimaduras como uma lâmina. Sirenes cercam o teatro, bombeiros correm em todas as direções e paramédicos se aproximam com uma maca.
— Mulher, aproximadamente trinta anos — informa Caio ao me entregar à equipe. — Queimaduras no rosto, pescoço e perna. Inalação severa de fumaça. Estava consciente durante o resgate.
Uma paramédica corta parte da minha roupa e procura algum documento.
— Sabe o nome dela?
— Não conseguiu falar.
Seguro a mão de Caio antes que ele volte para o prédio. Ele se inclina, e por um instante seus olhos permanecem presos aos meus. Uma dúvida atravessa sua expressão, como se alguma coisa em mim parecesse familiar.
— Nós nos conhecemos? — pergunta ele.
Tento responder, mas meus lábios não obedecem. Caio olha para minha mão coberta de fuligem, depois para o teatro destruído. O rádio preso ao seu ombro chia.
— Equipe três, informe a situação de Helena Vilar.
Meu coração dispara. Aperto os dedos dele, tentando dizer que estou ali, mas Caio interpreta o gesto como medo e segura minha mão com mais firmeza.
— Ainda não a encontramos — responde pelo rádio. — Vou retornar para a busca.
A paramédica injeta alguma coisa em meu braço. O rosto de Caio começa a perder a nitidez enquanto ele se afasta da maca e leva a mão novamente ao comunicador.
— Há uma sobrevivente sem identificação — informa ele. — Mas Helena Vilar continua desaparecida.
Antes de desmaiar nos braços do irmão do meu assassino, ouço o mundo começar a me declarar morta.
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