Ato 2 — Quarenta Segundos

A primeira vez que Dante me prendeu nesta caixa, eu ri.

— Está nervosa? — perguntou ele do outro lado da tampa.

— Você deveria estar.

Ouvi o clique da trava e a música do cronômetro começou na oficina vazia. Naquela época, a caixa cheirava a madeira nova. Não havia fumaça nem chamas, apenas nós dois testando o mecanismo que eu levara semanas para construir.

— O recorde é de quarenta e três segundos — avisou Dante.

Posicionei os pulsos atrás das costas.

— O meu é de quarenta e um.

— Exatamente por isso você vai perder.

— E se eu vencer?

Os olhos dele apareceram na abertura lateral, acompanhados por um sorriso provocador.

— Pode pedir o que quiser.

A música aumentou. Três movimentos com o pulso direito, pressão sobre a placa lateral e um giro na trava escondida. Em vinte segundos, libertei as mãos. Aos trinta, desloquei a parede falsa. Dante iniciou a contagem enquanto eu empurrava o painel com o ombro.

— Trinta e seis... trinta e sete...

A tampa se abriu e saltei quando o cronômetro marcava trinta e oito segundos.

— Consegui!

Dante me segurou pela cintura e me girou no ar. Passei os braços ao redor do pescoço dele, rindo.

— Você me deve um prêmio — lembrei, ainda sem fôlego.

— Peça.

— Admita que sou melhor do que você.

Ele encostou a testa na minha.

— Você é melhor do que eu, Helena.

Disse aquilo como se meu talento também fosse motivo de orgulho para ele. Eu acreditei.

— Quero outra coisa — sussurrei, segurando sua gravata.

Conduzi Dante de volta à caixa.

— Está com medo? — provoquei.

— De entrar aí com você? Muito.

Ele fechou a tampa sobre nós. O espaço era estreito demais para duas pessoas. Nossos joelhos se tocavam e sua respiração aquecia meus lábios. A escuridão apagava a oficina e todos os problemas fora daquelas paredes.

— Qual é o segundo pedido? — perguntou Dante.

— Beije a vencedora.

O primeiro beijo veio carregado por nossos risos. O segundo foi lento e profundo. A mão dele deslizou por minhas costas, apertando-me contra seu corpo até não restar espaço entre nós. Meus dedos abriram os primeiros botões de sua camisa, e Dante beijou o canto da minha boca, desceu pelo queixo e encontrou o ponto sensível abaixo da orelha. Inclinei a cabeça, sentindo seus lábios percorrerem meu pescoço.

— Se alguém entrar... — murmurei contra sua pele.

— Terá que descobrir como abrir a caixa.

Sua mão encontrou minha cintura sob a blusa. O toque arrepiou minha pele, e Dante silenciou meu suspiro com outro beijo. O calor aumentou naquele espaço apertado. Nossas roupas se desarrumaram entre carícias e movimentos contidos. Sempre que meu ombro tocava a parede, ele colocava a mão atrás de mim para que eu não me machucasse.

Não houve pressa. Apenas nossas respirações misturadas, os dedos entrelaçados e a intimidade de dois corpos que acreditavam conhecer todos os segredos um do outro. Depois, apoiei a cabeça no peito dele.

— Prometa uma coisa — pediu Dante, beijando meus cabelos.

— O quê?

— Nunca faça esse número sem que eu esteja do lado de fora. Só confio em mim para abrir esta caixa se algo der errado.

Fechei os olhos entre seus braços.

— Eu confio em você.

♠ ♦ ♣ ♥

A trava incandescente queima minha mão e volto ao presente com um grito. O homem que prometeu me proteger destruiu o controle e me deixou cercada pelo fogo.

Puxo a placa lateral novamente, mas nada acontece. O calor deformou a trava. Minha perna arde, o tecido queimado está colado à pele e cada movimento espalha uma dor feroz pelo corpo. Encosto a cabeça na parede e, por um instante, penso que talvez seja mais fácil parar de lutar.

Então vejo Theo sentado no tapete da sala, cercado por cartas. Suas mãos pequenas deixam metade do baralho cair enquanto ele procura a carta que escolhi. Finalmente, levanta o ás de copas.

— Acertei, mamãe! — comemora ele, abrindo um sorriso.

— Como fez isso?

Theo se aproxima e cobre a boca com a mão antes de sussurrar em meu ouvido:

— Um ilusionista nunca revela seu segredo.

A lembrança desaparece e o fogo volta a ocupar tudo. Se eu morrer, Dante contará que falhei. Lorena ocupará meu lugar. Meu filho crescerá acreditando que o abandonei dentro desta caixa.

— Não — murmuro, apoiando os pés na parede oposta.

Seguro a trava com as duas mãos. A pele queima, mas não solto. Puxo uma vez e o metal não se move. Na segunda tentativa, sinto algo rasgar em minha perna, mas transformo a dor em força.

— Eu vou voltar para você, Theo.

Enrolo a corrente das algemas na peça e uso todo o peso do corpo. A trava cede alguns milímetros. Grito e puxo outra vez.

O encaixe se rompe.

A tampa se abre e uma massa de fumaça atinge meu rosto. Desabo para fora da caixa, arrastando a perna ferida. Estou livre, mas a sensação dura apenas alguns segundos. Um estrondo sacode o palco e uma viga incandescente despenca diante de mim, bloqueando a única saída. Acima da minha cabeça, o teto começa a rachar.

Então uma voz masculina atravessa a fumaça:

— Bombeiros! Há alguém vivo aqui?

Reconheço aquela voz.

É Caio Vilar.

O irmão do homem que tentou me matar.


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