Mundo de ficçãoIniciar sessão
Eu estou sendo assassinada pela pessoa que eu mais amo.E tenho menos de um minuto para escapar desta caixa em chamas.
O fogo sobe pelas paredes transparentes, alimentado pelo combustível cenográfico que eu mesma escolhi. Em condições normais, as chamas jamais alcançariam o interior da estrutura. Mas a temperatura já ultrapassou qualquer limite de segurança, e o ar que entra pelas frestas queima meus pulmões.
Tateio a lateral da caixa até encontrar a trava principal. Giro o mecanismo uma vez, depois outra, mas ele não se move. O metal está deformado, como se alguém tivesse alterado a peça antes do espetáculo e esperado que o calor terminasse o trabalho.
Do lado de fora, a plateia vibra.
Para todos eles, ainda é apenas um truque. Dante ergue os braços diante do palco, recebendo os aplausos enquanto sua esposa luta para não morrer a poucos metros dele. O público acredita que eu surgirei no meio do teatro quando o cronômetro chegar ao fim.
Foi assim que projetei a ilusão.
Eu só não planejei ser deixada dentro dela.
Procuro o encaixe do pino de emergência sob o piso falso. Mesmo que a trava principal falhasse, aquela peça liberaria toda a lateral da caixa. Meus dedos encontram o compartimento, mas não o pequeno cilindro metálico que deveria estar ali.
O pino foi retirado.
Um gosto amargo invade minha boca. Não é fumaça. É a certeza de que nada daquilo aconteceu por acaso.
Como permiti que meu amor por Dante me conduzisse até minha própria execução?
♠ ♦ ♣ ♥
Horas antes, abro a porta do camarim sem bater. Quero contar a Dante que finalmente encontrei uma maneira de tornar o desaparecimento mais rápido, mas as palavras morrem antes de saírem.
Lorena está diante do espelho, fechando o robe sobre o corpo. Dante permanece atrás dela com a camisa aberta e os cabelos desarrumados. Durante alguns segundos, os dois apenas me encaram, como se eu fosse a pessoa que entrou no lugar errado.
— Helena! Desde quando você... — Dante inicia uma pergunta que se perde no ar.
— Não é o que você está pensando — Lorena dispara enquanto aperta o robe contra o peito.
Observo minha melhor amiga e quase rio. É exatamente o que estou pensando, mas essa frase parece pequena demais para descrever o que fizeram comigo.
— Há quanto tempo?
— Você precisa se acalmar — Dante responde, aproximando-se.
— Não chegue perto de mim.
Ele para. Conheço cada expressão daquele rosto, mas nunca havia percebido como seus olhos ficam frios quando o sorriso desaparece.
Lorena tenta tocar meu braço.
— Nós não queríamos que você descobrisse dessa maneira.
— Que maneira seria melhor? Vocês pretendiam me contar depois do próximo espetáculo ou esperar que eu continuasse projetando ilusões para sustentar a vida de vocês?
Ela baixa os olhos. Dante, porém, não demonstra vergonha.
— Não misture nosso casamento com o meu trabalho.
— Seu trabalho? — Minha voz falha, mas não recuo. — Cada grande truque que tornou você famoso foi criado por mim. Eu desenvolvi os mecanismos, construí as rotas de fuga e arrisquei meu corpo enquanto você recebia os aplausos.
— E recebeu uma vida que jamais teria sem o meu nome.
A crueldade daquela resposta destrói alguma coisa dentro de mim. Durante anos, aceitei permanecer nos bastidores porque acreditava que o sucesso de Dante também pertencia à nossa família. Agora compreendo que ele nunca dividiu nada comigo, nem mesmo a verdade.
— Quero o divórcio. Amanhã vou buscar Theo e retirar meus projetos do ateliê.
Dante fecha a camisa lentamente.
— Você não pode levar meu filho.
— Posso impedir que ele cresça acreditando que o pai é um homem que nunca existiu. Também vou contar à imprensa quem criou suas ilusões.
Lorena empalidece. Dante continua imóvel, mas uma veia pulsa em sua têmpora.
— Faça o espetáculo desta noite — pede ele, assumindo outra vez o tom carinhoso que me enganou por tanto tempo. — É nossa última apresentação contratada. Depois, conversaremos sobre o divórcio, Theo e tudo o que você quiser.
— Está preocupado com a multa da produtora?
— Estou preocupado com as pessoas que dependem de nós. Técnicos, bailarinos, funcionários. Não destrua a vida de todos por causa de um erro meu.
Um erro.
Ele transforma meses de traição em uma palavra pequena e coloca centenas de empregos sobre meus ombros. Ainda assim, aceito. Conheço aquela caixa melhor do que conheço meu próprio corpo. Fui eu quem calculou cada saída e instalei o mecanismo de emergência.
Dante pode ter destruído nosso casamento, mas não pode me ferir dentro de uma ilusão criada por mim.
Foi nisso que acreditei.
♠ ♦ ♣ ♥
Uma placa metálica se solta acima da minha cabeça e cai sobre o piso. As chamas já atravessaram a primeira proteção, e o cronômetro preso à parede interna marca trinta e quatro segundos.
Encontro Dante através da pequena abertura usada pelos técnicos. Ele está nos bastidores, fora do alcance da plateia, observando-me lutar com a trava.
— Dante! — grito, golpeando o vidro. — O mecanismo falhou!
Ele se aproxima sem pressa.
— Eu sei.
Meu sangue esfria apesar do calor.
— Abra a caixa.
Dante olha para os dois lados e ergue uma barra de ferro. Por um instante, acredito que vai usá-la para quebrar o vidro. Em vez disso, ele golpeia o painel do controle manual. Faíscas saltam da estrutura, e a última possibilidade de abertura externa desaparece.
— O que você fez?
Ele encosta o rosto na pequena abertura. Seus olhos não carregam raiva nem culpa, apenas uma tranquilidade assustadora.
— Você deveria ter continuado nos bastidores, Helena.
— Dante, por favor. Pense no Theo.
O nome do nosso filho faz seu sorriso desaparecer, mas não o faz voltar atrás. Ele fecha a proteção metálica sobre a abertura e bloqueia minha visão.
— Adeus, Helena.
Seus passos se afastam enquanto eu me jogo contra a lateral da caixa. O fogo atravessa uma das frestas e alcança minha perna. A dor explode pela minha pele, arrancando de mim um grito que ninguém consegue ouvir sobre a música.
Do lado de fora, a plateia aplaude o meu assassinato.
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