Mundo de ficçãoIniciar sessãoNarrado por Elena Volkov
O silêncio do quarto onde Dante me trancou era mais ensurdecedor do que os gritos que ecoaram na mansão Volkov horas antes. Eu estava parada diante da janela, observando a lua refletida no mar, mas minha mente estava a quilômetros daqui. Eu conseguia fechar os olhos e ver a cena: meu pai, um homem que outrora comandava exércitos com um simples erguer de sobrancelhas, sentado entre os escombros fumegantes da nossa biblioteca. Minha mãe, cujo orgulho sempre foi sua maior armadura, tentando limpar as cinzas de um retrato de família que não existia mais. Eles não eram reféns em uma cela, mas eram prisioneiros da própria desgraça. Sem dinheiro, sem proteção e com a marca da derrota estampada em seus rostos. Dante Moretti não precisava de correntes para prendê-los; ele usava a pobreza e a ameaça de extermínio total como coleira. A porta se abriu. Eu não precisei me virar para saber quem era. O ar no cômodo mudou, tornando-se pesado, carregado com o cheiro de tabaco caro e uma colônia que cheirava a poder e pecado. Dante entrou com a arrogância de quem é dono do mundo, ou pelo menos, dono de cada pedaço de mim que ele comprou com seu "acordo de proteção". — Seus pais receberam a primeira remessa de mantimentos e segurança — ele disse, sua voz grave vibrando contra as minhas costas. — Os engenheiros chegam amanhã para avaliar a reconstrução da ala leste da sua antiga casa. Eu cumpro minhas promessas, Elena. Eu me virei lentamente, mantendo minha expressão tão gélida quanto os invernos da Sibéria. Ele estava encostado no batente da porta, o paletó do terno aberto, exibindo uma postura relaxada que me irritava profundamente. Eu sabia quem ele era: o Dom da Camorra, o homem que passava as madrugadas em baladas exclusivas, rodeado de mulheres que imploravam por um olhar seu. Ele era experiente, mundano e perverso. E eu? Eu era apenas o resto de um clã inimigo, uma soldada que nunca permitiu que o calor de um homem ultrapassasse a barreira da minha pele. — Você cumpre promessas para garantir que eu cumpra a minha — respondi, minha voz firme, apesar do turbilhão interno. — Você quer uma esposa para validar sua conquista sobre o território russo. Você terá seu nome no papel, Dante. Mas não espere que eu agradeça por você "reconstruir" o que você mesmo ajudou a destruir. Dante deu um passo à frente, estreitando a distância entre nós. Ele era muito mais alto, uma presença esmagadora que parecia consumir todo o oxigênio do quarto. — Eu não quero seus agradecimentos, piccola. Eu quero sua lealdade. E, no devido tempo, eu vou querer muito mais. Ele estendeu a mão e, por um reflexo treinado, eu recuei. O brilho de divertimento nos olhos dele me queimou. — Você é dedicada à sua máfia, Elena. Eu respeito isso. Mas agora, sua missão mudou. Sua missão é garantir que seus pais tenham um teto sobre a cabeça e comida na mesa. E o preço disso é o anel que você vai colocar hoje. Eu olhei para as minhas mãos. Elas eram feitas para segurar facas, para carregar armas, para defender a honra dos Volkov. Agora, elas seriam usadas para segurar o braço do homem que eu jurara odiar até o meu último suspiro. Eu era virgem, intocada, guardada para um futuro que agora estava morto. A ideia de pertencer a ele, um homem que trocava de mulher como quem troca de carro, fazia meu estômago revirar. — Por que eu? — perguntei, finalmente deixando uma fresta de vulnerabilidade aparecer. — Você tem a Itália inteira aos seus pés. Você tem baladas cheias de mulheres que conhecem o seu mundo, que sabem como te satisfazer. Por que forçar um casamento com alguém que quer te ver morto? Dante se aproximou tanto que eu podia sentir o calor emanando de seu corpo. Ele inclinou a cabeça, sussurrando perto do meu ouvido, seu hálito roçando minha pele sensível. — Porque as outras são fáceis, Elena. E eu nunca tive interesse no que é fácil. Eu quero a mulher que me olha com promessas de assassinato. Eu quero a pureza que você guarda com tanto fervor, apenas para ter o prazer de ver você implorar para que eu a tome. O pavor e uma faísca desconhecida de eletricidade percorreram minha espinha. Ele era um predador, e eu era a presa que ele decidira não matar, mas domesticar. — Vista-se — ele ordenou, entregando-me uma caixa com o logotipo de uma grife italiana caríssima. — O juiz e o padre estão esperando. Meus pais podem ter me dado o título de Dom, mas hoje, você vai me dar a sua rendição. Ele saiu, e eu fiquei sozinha com o peso da minha nova realidade. Eu não tinha escolha. Pelos meus pais, eu aceitaria a coroa de espinhos que ele me oferecia. Eu entraria naquele jardim e selaria meu destino com sangue e cinzas, torcendo para que, no processo, eu não perdesse a única coisa que ainda me restava: a minha alma.






