O aroma da terra e a saudade

​O cheiro de antisséptico misturado ao aroma forte de feno limpo era o meu novo refúgio. A ala médica dos animais da Fazenda Alvorada não lembrava em nada a cozinha reluzente da mansão, e eu agradecia mentalmente por isso a cada segundo. O laboratório era equipado com o que havia de melhor, e o labor técnico exigia uma atenção que me arrancava, finalmente, do labirinto de mentiras do contrato.

​O Dr. camilo, o veterinário-chefe, era um homem de cabelos brancos e poucas palavras, mas percebeu meu entusiasmo logo nas primeiras horas. O estágio era um desafio imenso; eu lidava com dosagens de medicamentos complexas, fichas de linhagem e curativos que exigiam precisão. Mas eu estava disposta a absorver cada detalhe. Ao contrário da desconfiança que enfrentei na lavanderia, aqui o ambiente era leve. Meus novos colegas, dois assistentes técnicos da região, logo se renderam ao meu jeito. Eu sempre fui de rir com facilidade quando estava confortável, e a simpatia fluiu naturalmente entre nós enquanto organizávamos os frascos de vacinas.

​— Você tem jeito com os grandes, Sofia — comentou um dos assistentes, rindo, enquanto eu acalmava uma potra arredia apenas conversando com ela em tom baixo. — Parece que nasceu sabendo.

​Sorri, mas o elogio trouxe um eco familiar que fez meu peito apertar.

​“Os bichos sentem o coração da gente antes de sentirem as mãos, minha filha”, meu querido pai costumava dizer. Estar ali, no meio do território que ele tanto amou, era um abraço e uma facada ao mesmo tempo. Cada olhar manso de um cavalo me lembrava do homem que me ensinou a ler o mundo através dos olhos dos animais. A ausência dele era um vazio físico, uma dor crônica que Nova Alvorada parecia amplificar.

​Ao final do turno, por volta das seis da tarde, a sensação de sufocamento se tornou insuportável. A saudade do meu pai pesava tanto que o ar do laboratório pareceu rarefeito. Precisando respirar, saí pelos fundos da ala médica sem avisar ninguém. Meus pés me guiaram mecanicamente para longe dos estábulos, em direção à densa floresta lateral que delimitava a propriedade da fazenda.

​Entrei na mata, deixando que a penumbra das árvores grandes me engolisse. Caminhei até que o som dos funcionários sumisse por completo. Quando minhas pernas fraquejaram, sentei-me no chão, apoiando as costas contra as raízes expostas de uma imensa paineira. E ali, longe de todos os olhares, eu desabei. Chorei o choro que vinha guardando desde o enterro. Um pranto doloroso, com os joelhos colados ao peito, soluçando alto pela falta que ele me fazia.

​Eu estava tão imersa na minha própria escuridão que não ouvi o farfalhar das folhas secas, nem os passos firmes que pararam a poucos metros de mim.

​Julian havia me seguido.

​Ele ficou parado, observando aquela garota teimosa que sempre o enfrentava de queixo erguido reduzir-se a um fragmento de dor no chão da floresta. Por um breve segundo, o reflexo do herdeiro quebrado e solitário que ele também era falou mais alto. Julian deu um passo longo, abaixou-se na minha altura e, em um impulso puramente humano, estendeu a mão para tocar meu ombro, o olhar azul-acinzentado nublado por uma empatia genuína. Ele abriu a boca, talvez para dizer que entendia a dor de perder um pai.

​{Pensamentos do Julian: Vê-la desse jeito, tão indefesa, quebra qualquer lógica do meu tabuleiro. Dá vontade de...}

​Mas antes que os dedos dele encostassem no meu tecido, Julian congelou no ar. A armadura mental que ele construíra para sobreviver ao Silas foi ativada como um mecanismo de defesa automático. O vislumbre de humanidade desapareceu de seus olhos tão rápido quanto surgiu, dando lugar ao gelo habitual. Ele recolheu a mão, endireitou a postura e limpou a garganta com um som seco.

​Com o susto, ergui o rosto num salto, limpando as lágrimas rapidamente com as mangas da blusa, o coração disparado pela quebra da minha privacidade.

​— O que você está fazendo aqui? — perguntei, a voz saindo rouca e embargada.

​— Você sumiu da ala médica sem assinar o ponto de saída — Julian disse, a voz gélida e impessoal, como se estivesse cobrando um relatório de negócios. — Silas tem seguranças rondando essa divisa. Se ele te encontra chorando no meio do mato, vai achar que eu estou abusando da filha da governanta ou que você está arrependida de algo. Volte para a casa de apoio, Sofia. O teatro precisa de você inteira amanhã.

​Olhei para ele através dos meus olhos vermelhos, sentindo a frieza daquelas palavras me atingirem como gelo. O homem que segundos antes parecia hesitar agora era apenas o patrão calculista de sempre.

​— Eu já estou indo — respondi, levantando-me e limpando a terra da saia, engolindo o resto da minha dor para manter o orgulho intacto perante a sua armadura

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