O questionário de vidro

​Duas semanas haviam se passado desde o meu choro na floresta, e eu fiz questão de me enterrar no trabalho para esquecer a frieza de Julian. Na ala médica, as coisas iam de vento em popa. Meus colegas de setor, o Léo — um assistente técnico que sabia imitar perfeitamente o som de um bezerro chorando — e a Tati, a técnica de laboratório que não sobrevivia sem três xícaras de café puro por turno, tinham me acolhido de vez. Eles me levavam para conhecer todos os setores da Alvorada, desde o galpão de armazenamento de grãos até o setor de inseminação. Eu ria com facilidade das piadas do Léo e me sentia, pela primeira vez em meses, parte de algo real.

​Mas o contrato não dormia. Com a chegada do final de semana, a pressão de Silas sobre a contabilidade da fazenda aumentou, e Julian me procurou com uma urgência diferente. Precisávamos acelerar o plano. Silas ainda nos olhava com desconfiança, achando que meu estágio era apenas um capricho bobo do primo. Precisávamos de um fato público. Um encontro.

​No sábado à tarde, Julian organizou um piquenique nos limites da colina leste, um lugar alto de onde se podia ver toda a extensão do vale da fazenda. Era estrategicamente visível para qualquer capataz ou segurança que estivesse na ronda da divisa.

​Quando cheguei lá, ele já havia estendido uma manta xadrez grossa sobre a grama e colocado uma cesta com queijos, pães e frutas. Ele vestia uma calça jeans escura e uma camisa de linho azul clara, com os botões de cima abertos. Parecia relaxado, mas eu sabia que os olhos cinzentos dele rastreavam os arredores.

​— Sente-se — ele disse, estendendo a mão para me ajudar a descer o pequeno barranco. Lembrei-me da regra do contato físico, mas cedi. A mão dele era firme. — Precisamos alinhar nossas histórias. Se Silas nos interrogar separadamente sobre coisas bobas, precisamos ter as mesmas respostas.

​— Um questionário estratégico? — ironizei, sentando-me e ajeitando minha saia modesta sobre as pernas. — Tudo bem. Comece você, Lancaster. Qual é a sua cor preferida?

​— Azul-petróleo — ele respondeu de pronto, servindo um pouco de suco de uva para mim. — E a sua?

​— Verde-oliva. Lembra a cor das folhas de parreira que meu pai cuidava. — Peguei um pedaço de queijo. — Estilo de música?

​— Clássica e jazz instrumental quando estou trabalhando. Rock antigo quando preciso esquecer o mundo — Julian deu um meio sorriso, o que me surpreendeu. — E você?

​— MPB, até gosto de jazz também e música sertaneja de raiz. Daquelas bem antigas que o meu pai ouvia no rádio de pilha enquanto escovava os cavalos.

​Julian soltou uma risada curta, um som limpo e desarmado que eu raramente ouvia.

— Silas vai achar uma heresia eu me casar com alguém que ouve modão de viola, Sofia.

​— Ele que se exploda — respondi, e nós dois rimos juntos. O som da nossa risada misturada ao vento da colina quebrou o gelo que vinha se acumulando entre nós desde o dia na floresta.

​— Comida preferida? — Julian perguntou, apoiando o peso do corpo em um dos cotovelos, olhando para mim de uma forma mais receptiva, menos gélida.

​— Lasanha de beringela que a minha mãe faz. E a sua?

​— Risoto de cogumelos selvagens com bastante queijo parmesão. — Ele fez uma pausa, o olhar fixo no horizonte antes de lançar a pergunta mais difícil: — E onde você quer estar daqui a dez anos, Sofia?

​Respirei fundo, sentindo o aroma da grama molhada.

— Daqui a dez anos, quero ter minha própria clínica veterinária de grandes animais. Quero ser reconhecida na minha área, ter a minha mãe morando em uma casa confortável, sem precisar limpar a sujeira de ninguém, e ter paz. Uma vida simples, mas totalmente minha. E você?

​— Quero ter a Alvorada completamente limpa da corrupção do Silas. Quero expandir a criação de cavalos de raça para o mercado europeu e, quem sabe, criar uma fundação de manejo sustentável na região. Quero governar esse império com a certeza de que honrei o nome do meu pai.

​Ele falava com paixão, os olhos brilhando com a ambição de quem queria proteger o próprio sangue. Eu o ouvia atentamente, mas de repente, um estalo de lucidez me atingiu como um raio.

​Eu me dei conta do que estávamos fazendo. Nós estávamos traçando planos para o futuro. Planos perfeitamente desenhados, cheios de ambição, sonhos e independência... mas eram planos onde nenhum de nós dois incluía o outro. Em dez anos, de acordo com as nossas próprias palavras, estaríamos divorciados e vivendo vidas completamente separadas.

​Olhei para o Julian, que sorria de leve olhando para o vale. Meu coração deu um aperto estranho, uma pontada de incômodo que eu me recusei a chamar de ciúme ou carinho. Se o plano desse certo, nós nos tornaríamos fantasmas na vida um do outro. E, por um segundo terrível, a ideia de não ter Julian Lancaster e sua arrogância irritante no meu futuro me pareceu... vazia.

​Julian percebeu meu silêncio repentino e se virou para mim, a expressão suave.

​— O que foi, Sofia? Resposta errada?

​— Não — menti, forçando um sorriso e desviando o olhar para o vale. — Só estava pensando que... somos bons nisso. Em planejar.

​{Pensamentos do Julian: Ela ficou séria de repente. Mas a verdade é que passar essa tarde ouvindo ela falar sobre o pai e rindo das minhas piadas bobas me fez perceber algo. A Sofia não é apenas uma peça no meu tabuleiro contra o Silas. Ela é inteligente, rápida e tem uma luz que essa fazenda não via há anos. Pela primeira vez em muito tempo, sinto que encontrei alguém com quem posso conversar de verdade. Uma boa amiga. Talvez a única que eu tenha por aqui.}

​— Nós somos uma boa equipe, Sofia — Julian disse, a voz mais baixa e amena, quebrando o protocolo de distância ao deixar os dedos roçarem de leve nos meus sobre a manta. — Silas não tem a menor chance contra nós.

​Eu assenti, segurando o tremor nos meus dedos. O espetáculo público do encontro havia funcionado, os guardas certamente reportariam o piquenique romântico ao Silas. Mas ali, na intimidade da colina, as dez regras do nosso contrato pareciam estar sendo reescritas pelo próprio vento

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