Mundo ficciónIniciar sesiónO sol da manhã batia contra o vidro fosco da grande janela da cozinha, e eu usava um pano e uma mistura de vinagre para remover as manchas de gordura. O movimento dos meus braços era ritmado, mas meus olhos e meus ouvidos estavam completamente voltados para a horta orgânica, logo atrás do painel de vidro que eu fingia polir. Como a janela estava entreaberta por causa do calor, eu conseguia captar cada palavra que o vento trazia, sem que ninguém notasse a minha presença.
Lá estava Julian. Ele havia cumprido a palavra de consertar o mal-entendido. De onde eu estava, podia ver o contraste entre os dois. Minha mãe, Elena, não era apenas a governanta para ele. Ela havia sido sua babá desde o dia em que ele nasceu, dedicando a vida a cuidar daquele menino aristocrata. A única vez em que ela se afastou da mansão foi quando eu nasci, o que a forçou a dividir seu tempo. Foi aqui, inclusive, que ela conheceu meu pai, Fausto. Eles viveram um amor humilde e bonito entre esses muros: enquanto meu pai cuidava com toda a alma dos cavalos e animais da Alvorada, minha mãe cuidava da criança que herdaria tudo. Ver o Julian ali, com a cabeça levemente baixa diante dela, mostrava que ele ainda guardava o respeito por aquela que o acolheu na infância. Minha mãe parou de colher as ervas, limpou as mãos no avental e o encarou de frente, o semblante sério de quem não se intimidava pelo sobrenome dele. — Eu conheço você desde que era um menino assustado, Julian — a voz de minha mãe veio clara pelo vão da janela, despida de qualquer submissão. — Mas a Sofia é tudo o que me sobrou. Ela veio para cá tentando juntar os pedaços da vida dela após a morte do Fausto. Se você está usando a minha filha como um passatempo para aliviar a sua solidão ou para pirraçar o seu primo, eu exijo que pare agora. Não a machuque. Julian engoliu em seco. Os olhos dele, geralmente duas pedras de gelo cinzento, pareciam opacos, pesados de uma culpa real. — Eu nunca faria nada para ferir você, Elena. E muito menos ela — Julian respondeu, a voz rouca e baixa, mas com uma convicção que me fez parar o pano no ar. Ele olhou de relance na direção da janela, como se pressentisse que eu estava espiando, antes de voltar a focar em minha mãe. — A verdade é que... a Sofia é a única pessoa nessa fazenda que não olha para mim esperando que eu caia. Ela apenas faz eu querer ser alguém melhor. Minha respiração falhou contra o vidro. Eu sabia que aquilo fazia parte do nosso teatro combinado, mas o tom de voz dele parecia terrivelmente sincero. {Pensamentos Julian: Mentir para a Elena é o preço mais alto desse maldito contrato, mas quando eu disse que a Sofia me faz querer ser alguém melhor... eu não estava atuando.} Minha mãe o observou por longos segundos. O amor que ela nutria pelo menino que ajudara a criar amoleceu a rigidez de seus ombros. Ela suspirou, tocando o braço dele com carinho. — Só não se esqueça de que as atitudes de um homem valem mais do que as palavras dele, Julian. Assim que a conversa terminou, minha mãe seguiu em direção à horta dos fundos e Julian girou nos calcanhares, caminhando diretamente para a cozinha. Eu tentei disfarçar, esfregando o vidro com força, mas a silhueta dele logo preencheu o batente da porta. — Deixe isso — ele ordenou, a voz firme, mas sem a arrogância habitual. Virei-me, segurando o pano úmido. — O quê? Eu preciso terminar de limpar os vidros, Julian, ou o Silas vai... — O Silas não vai fazer nada — ele cortou, dando um passo para dentro e tirando o frasco de produto da minha mão, colocando-o em cima do balcão. — Eu não quero mais ver você trabalhando nisso. Não quero você limpando chão, vidros ou servindo mesas. Fiquei encarando-o, confusa com a mudança repentina de comportamento. — Julian, esse é o meu trabalho aqui. Se eu parar do nada, a fazenda inteira vai falar. — Deixe que falem. Esse é exatamente o plano — ele explicou, aproximando-se o suficiente para que apenas eu ouvisse. Um brilho focado e inteligente surgiu em seus olhos cinzentos. — Nós precisamos fazer você circular por outros espaços. Para o nosso relacionamento parecer real e aceitável no futuro, precisamos elevar o seu status aqui dentro. Fazer você parecer um pouco mais... nobre aos olhos do Silas e dos outros. — E como você pretende fazer isso? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. — Eu consegui um estágio para você na ala médica dos animais. Você vai trabalhar diretamente com o veterinário chefe da Alvorada a partir de amanhã. É a sua área, não é? O que você sempre quis. Meu coração deu um salto no peito. Olhei para ele com os olhos arregalados, a surpresa me deixando temporariamente sem fala. Trabalhar com os animais? No laboratório e nas baias de tratamento, fazendo o que eu realmente amava, em vez de limpar o luxo do Silas? — Julian... isso é sério? — sussurrei, a teimosia dando lugar a uma gratidão genuína que tentei esconder. — É puramente estratégico, Sofia — ele rebateu rapidamente, embora um meio sorriso quase imperceptível tenha surgido no canto de sua boca. — O Silas vai morder a isca. Quando ele vir que eu tirei a filha da governanta da limpeza para colocá-la em um cargo técnico, ele vai entender que a minha obsessão por você é real. E para os outros funcionários, vai parecer que estou tentando te agradar de todas as formas. {Pensamentos Julian: Ver os olhos dela brilharem desse jeito por causa de um punhado de bichos... vale cada centavo que vou pagar ao veterinário para aceitá-la. Ela tenta ser durona, mas é transparente demais quando quer algo.} — Tudo bem, "noivo" — falei, sentindo um sorriso legítimo tentar escapar dos meus lábios. — Se é pelo contrato, eu aceito o sacrifício de trabalhar com o que eu amo. Julian assentiu, voltando a adotar sua postura ereta. — Esteja nos estábulos principais amanhã às sete. Com roupas adequadas para o laboratório. O jogo acabou de subir de nível, Sofia. É bom estar pronta. Ele se virou e saiu da cozinha, deixando-me sozinha com o pano de limpeza na mão e uma sensação completamente nova no peito. O contrato ainda era uma farsa perigosa, mas a partir de amanhã, eu estaria pisando no território que meu pai Fausto tanto amou. E o Silas que se preparasse, porque eu estava prestes a me tornar muito mais do que ele jamais conseguiria controlar.






