(Visão de Rafael)
A impotência era um animal vivo roendo meus ossos por dentro. A dor na perna tinha virado um latejar constante e maçante, mas era a limitação que me enlouquecia.
Eu estava preso nesta maldita cadeira de rodas, num quarto de hóspedes do andar de baixo que virou meu bunker.
Tudo o que eu era, a força, o controle, a capacidade de ir, tinha sido reduzido a esta peça de metal e plástico.
Tentei alcançar a caneca de café que estava na mesinha de centro, um pouco fora do alcance.
Meus dedos escorregaram no cabo e a caneca tombou com um baque surdo, derramando o líquido marrom e frio no tapete.
Um rastro de humilhação.
— Raul! — Minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia.
Ele apareceu na porta em dois segundos, sempre alerta. Sem dizer uma palavra, pegou um pano que já estava por perto porque estávamos acostumados com esses pequenos desastres e começou a limpar.
— Preciso de mais café — grunhi, evitando olhar para a bagunça que eu tinha feito.
— Já vou fazer, chefe