Mundo de ficçãoIniciar sessãoO dia começou como qualquer outro. Acordei com o sol entrando pelas janelas do meu quarto, uma manhã clara e calma. Tomei meu café, organizei minhas coisas e pensei nas pequenas tarefas do dia: estudar, ajudar Antônia na cozinha, conferir algumas mensagens da Amanda. Nada que despertasse grandes emoções — até que a fome bateu e decidi ir buscar um lanche.
Enquanto caminhava pelo corredor, ouvi vozes baixas vindas do salão de empregados. Um cochicho constante, como se estivessem tentando não ser ouvidas. Meu coração pulou. Amo uma boa fofoca, e meu dia entediante parecia finalmente ganhar um tempero. — O que estão cochichando aí? — perguntei, sorrindo, me aproximando. As meninas se entreolharam, inquietas, desviando o olhar. — Ah… nada, senhorita Zucconelli… só conversinha besta… — respondeu uma, em voz baixa, tentando encerrar o assunto. Mas eu não desisti. Meus olhos brilhavam, ansiosos. — Me contem, por favorzinho, vocês sabem que eu sempre fico de bico calado! — disse, animada, curiosa para saber o que estava acontecendo. Uma delas finalmente respirou fundo e falou: — Está acontecendo… seu pai está em reunião… com homens importantes… para tratar sobre… seu casamento, senhorita Zucconelli. Arranjado… Meu corpo inteiro congelou. O que? Meu coração disparou, minhas mãos tremiam levemente. Um casamento arranjado? Com alguém que eu nem conhecia? Eu estava desacredita. Corri pelo corredor, sentindo cada passo rápido ecoar em direção ao escritório. “Jamais faria isso comigo”, pensei. Meu pai sempre foi amoroso e protetor. Até que, oito anos atrás, algo mudou. Ele me olhou de um jeito estranho, frio, distante, como se eu fosse apenas uma obrigação. Desde então, nunca mais fui a menina de antes. Ele cuidou de mim, mas sem amor — apenas com dever, com responsabilidade. Eu nunca soube o que aconteceu, e ainda hoje a dúvida me corrói: por que ele se afastou? O que mudou? E agora… será que ele faria isso comigo? Um casamento arranjado, como se minha vida fosse resumida a nada? Quando abri a porta do escritório, meu coração disparou. Meu pai estava sentado atrás da mesa, postura firme, semblante sério. À frente dele, um homem de terno permanecia imóvel, de costas para mim, mãos cruzadas atrás das costas, silencioso. Ao lado, outros dois homens de terno observavam, atentos a cada detalhe, mas sem qualquer gesto que denunciasse quem eram. Eu não conhecia nenhum deles; apenas figuras sérias e rígidas. A porta se abriu de vez, e eu entrei, passos firmes, olhando ao redor. Meus olhos se fixaram nas silhuetas, cada gesto, cada movimento. — Pai! — gritei, correndo alguns passos — Por favor, não faça isso comigo! Não posso me casar com um homem que nem conheço! Meu corpo tremia, minha voz falhando. Eu precisava lutar, gritar que minha vida não podia ser entregue assim. Ele permaneceu firme, respirando fundo, tentando manter a calma: — Camila… sei que é difícil, mas isso é o melhor a se fazer. Um contrato entre nossas famílias será benéfico para você e para todos. Protege você e mantém o legado. Eu apertei os punhos, dentes cerrados, olhos cheios de lágrimas e raiva, mas minha voz permaneceu firme, determinada. — Benéfico? Isso é absurdo! Eu jamais vou aceitar! Casamento arranjado é coisa de velho! O homem de costas diante de mim não se moveu, nem se virou. Cada palavra, cada gesto, cada explosão de raiva ou medo não despertava nada nele, nenhuma reação. Ele permanecia silencioso, frio, impassível. — Marco não quer ver você — disse meu pai, com uma calma que me causava repulsa — apenas a aliança importa. Eu gritei mais alto, tentando mostrar uma coragem que eu nunca imaginei ter para ir contra as decisões do meu pai. — Não! — andei com passos curtos e apressados perto do meu pai — Não vou me casar! Eu tinha raiva, minha voz tremia, mas não tive medo de olhar nos olhos do meu pai, mas ele desviou o olhar — e continuei: — Pai, por favor, não faça isso comigo! Não posso perder minha vida assim! Mas meu pai não cedeu e disse, com uma voz firme: — Camila… é o melhor a se fazer. Um contrato. Um benefício para ambas as famílias. Você terá segurança, influência, e respeito. Eu recuei; não tinha o que fazer ali. O outro homem de terno fez um gesto sutil, quase imperceptível, atento a tudo. Meu pai respirou fundo, resignado: — Vá agora, Camila. Depois teremos uma conversa mais calma. Relutante, saí, ainda em choque, coração disparado, com o pensamento martelando: ele me faria isso mesmo? Um casamento arranjado com um desconhecido? E mais uma dúvida, velha e dolorosa, veio à tona: o que aconteceu para meu pai se afastar de mim anos atrás? Eu não tinha respostas, apenas incertezas e um futuro que começava a ser decidido sem meu consentimento. Do lado de fora, senti o peso da aliança que estava sendo traçada. Homens de terno, silenciosos, observando, calculando, representavam a frieza de um mundo que eu ainda não conhecia. Não havia emoção, apenas estratégia, legado e formalidade.






