Aliança Arranjada
Aliança Arranjada
Por: S.P. MAMEDIO
Marco Mancini 001

O escritório ocupava o último andar do arranha-céu. A cidade se estendia aos meus pés, borrada pela chuva fina que caía lá fora, transformando o horizonte em um quadro enevoado. Cada luz, cada movimento parecia previsível, como se eu já soubesse o que aconteceria em cada esquina.

Ricardo estava ao meu lado, imóvel, observando cada gesto meu. Ele sabia interpretar sinais que outros nem perceberiam — um leve franzir de sobrancelha, a postura, a forma como apoiava as mãos na mesa. Não precisávamos de palavras.

Alexandre entrou. Cada passo ecoou pelo chão de madeira polido, carregando a frustração e a expectativa de alguém que sempre precisou ser obedecido. O rosto dele mostrava impaciência, desaprovação, uma insistência silenciosa de quem ainda acredita que pode impor vontade. Passei a mão pelo queixo, sem me mover. Ele achava que poderia atravessar minha indiferença com a força do olhar. Não podia.

— Marco, você está com 28 anos — disse ele, voz grave e medida. — No auge da sua força e disposição. É hora de pensar no futuro da família.

Eu o ouvi. Respeito não significa submissão, e sabia que cada palavra dele carregava exigência, expectativa e o peso de gerações. Mantive os olhos na cidade, respiração constante.

— Não preciso de esposa. Nem de herdeiro — disse, firme. — Minha vida não gira em torno de legados ou tradições familiares.

Ele estreitou os olhos, cada linha no rosto uma tentativa de me pressionar, de lembrar quem ele era, de mostrar que podia exigir mais do que eu queria.

— Isso não é escolha, Marco. É responsabilidade. Cada Mancini antes de você cumpriu o que era necessário. E você também terá que cumprir.

Inclinei-me levemente sobre a mesa, apoiando as mãos. Uma pausa longa, quase desafiadora, mas com atenção. Eu ouvia. Sabia que ele tentava me dobrar, mas não precisava reagir com emoção. Cada gesto meu era calculado, cada silêncio, uma resposta. Escutar era tão importante quanto falar.

— Se isso é o que você espera de mim, vou considerar.

Alexandre respirou fundo, lábios pressionados. Ricardo permanecia ao lado, atento. Sabia que eu compreendia a exigência dele, respeitava o peso que carregava como pai e líder da família, mas isso não significava que eu me curvaria. Respeito e obediência não são a mesma coisa.

— Você precisa de uma esposa. Um herdeiro. E não qualquer herdeiro — disse ele, avançando um passo — Alguém com sangue puro, de famílias poderosas, com dinheiro e influência. O nome Mancini não pode desaparecer com a sua indiferença.

Soltei um suspiro contido, ombros relaxando apenas o suficiente. Nada mais. Os olhos continuaram fixos na cidade, frios, calculistas. Ele estava exigindo, eu ouvia, mas cada movimento meu mostrava que sabia medir o que aceitava e o que não aceitava.

— Vou considerar.

Alexandre recuou, resignado. Ricardo permaneceu imóvel. Eu voltei-me para a janela, e a chuva continuava caindo, cortinas balançando. Refleti sobre o peso do legado, a expectativa do meu pai, e a própria responsabilidade que vinha com meu sobrenome. Não precisava concordar com desejos alheios. Escutava, aprendia, e cumpriria à minha maneira.

O silêncio se tornou quase sufocante. Por um instante, percebi que nada poderia me dobrar… exceto por aquilo que ainda não conhecia.

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