O escritório estava silencioso demais para o horário. A cidade seguia viva lá fora, mas ali dentro tudo parecia suspenso: o ar-condicionado constante, o brilho frio do vidro, o peso organizado da rotina. Eu estava sentado à mesa, paletó pendurado na cadeira, mangas da camisa dobradas, revisando alguns relatórios.
Meu celular vibrou perto da mão direita.
Não precisei olhar para saber quem era, mas olhei mesmo assim.
Patrícia:
Foi ótima a noite de ontem.
Inclinei levemente a cabeça para trás na cadeira, soltando o ar devagar pelo nariz. O corpo ainda lembrava. A mente, nem tanto.
A tela acendeu de novo.
Patrícia:
Já estou com saudades.
Desbloqueei o aparelho, os dedos firmes.
Marco:
Foi.
A resposta veio quase imediata, como sempre.
Patrícia:
Vou desfilar hoje.
Queria você lá.
Um canto da boca se moveu, mas não chegou a ser sorriso. Digitei enquanto me levantava da cadeira.
Marco:
Não vou poder.
Bloqueei a tela antes que ela respondesse. Patrícia sabia provocar. Sempre soube. Mas provoca