Amélia Moreira
O ar no quarto parecia ter ficado subitamente mais denso. O alívio de ver Inácio acordado ainda estava lá, pulsando em meu peito, mas agora dividia espaço com uma pontada incômoda de insegurança. A confissão dele sobre o beijo na Dove ecoava na minha mente como um disco riscado. Eu queria pular sobre ele, ignorar os aparelhos e sacudi-lo até que a verdade nua e crua saísse por aqueles lábios pálidos.
— Seja sincero comigo, Inácio — comecei, minha voz saindo mais baixa do que eu pretendia. — Você gostava dela? Sentia alguma coisa pela Dove?
Eu não sabia se estava pronta para ouvir a resposta, mas o silêncio seria mil vezes pior. Inácio engoliu em seco, um movimento sofrido que evidenciou a fraqueza em seu pescoço. Ele se ajeitou na cama com esforço, os lençóis roçando em suas feridas.
— Não... claro que não — ele respondeu rápido demais, a voz ainda rouca pela falta de uso. — Ela é minha cunhada, Amélia. Por que você está desenterrando isso agora? Como pode pensar algo a