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capítulo 4 Gabriel narrando...

Acerto de Contas

Autora: Edivania Rios

História ambientada entre 1990 e 1998

Protagonistas: Karina e Gabriel

Todos os direitos autorais reservados à autora citada acima. Qualquer uso parcial ou total sem autorização será considerado crime virtual e/ou de violação aos direitos autorais. LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.

 

Capítulo 4

Gabriel narrando…

Assim que terminei a escola, fiz curso de eletricista. Sempre corri atrás do que gosto, e tenho facilidade para fazer desenhos bonitos na madeira — para mim, esse trabalho é o que mais me dá prazer. Ser pedreiro também sei fazer bem, pois meu pai fazia e me ensinou desde pequeno, mas não gosto tanto quanto de trabalhar com madeira e fiação.

Meus pais foram para os Estados Unidos tentar a sorte, e eu fiquei aqui. Nunca consegui sair do Brasil por causa da Clarisse e do meu filho. Vim morar nesta casa por causa dela, e isso está me deixando com os nervos à flor da pele. Odeio ficar brigando o tempo todo com esse pessoal, odeio ter que responder com grosseria a ninguém. Todos os clientes do meu pai ficaram sob a minha responsabilidade quando ele foi embora; dizem que ele era o melhor da região, e eu tento honrar esse nome.

Minha terra natal é Poço Fundo, mas vim para cá ainda adolescente para estudar — lá só tinha escola até a quarta série, e hoje já é completa. Aqui conheci o Luan na quinta série, e seguimos juntos por anos… até que aos vinte e um anos a Karina engravidou. Não era o que eu queria, e creio que também não era o plano dela.

Hoje, ao descer para o café, estranhei: só o Paulo e a Clarisse estavam à mesa.

— Cadê o meu filho? — perguntei logo.

— Saiu. Mãe, filho e o padrasto — respondeu o Paulo, com aquele tom de quem quer me provocar.

Entendi na hora: Karina está querendo afastar o menino de mim. Vai ser uma guerra longa, e eu não vou recuar.

— Entendi, Paulo. Fique sabendo que não me importo nem um pouco. — Virei para a minha namorada. — Clarisse, eu te amo. Às vezes é preciso falar alto para certas pessoas entenderem de uma vez.

— Eu também te amo muito, meu amor — sorriu ela, doce como sempre.

Respirei fundo. Espero que a Karina não comece a aprontar como antigamente; só de pensar já me dá calafrios na espinha.

 

Mais tarde…

Eu estava debaixo da pia da cozinha, arrumando o encanamento que estava vazando, quando ouvi passos correndo e gritos: o Luan, o meu filho e a Karina entraram ali de uma vez.

— Seu safado! Seu traíra! — berrou ele, apontando o dedo para mim.

Não entendi nada. Ao tentar sair debaixo da pia, bati a cabeça com força na quina.

— O que foi? Não faço ideia do que você está falando — respondi, já imaginando que a Karina tivesse dito algo para ele. Olhei para o Luan com desprezo, sem surpresa: esperava por esse tipo de confusão. Ele estava ofegante, os olhos azuis arregalados, o cabelo loiro todo bagunçado, transbordando ódio por mim.

— Por que você fica perseguindo a Karina?

Olhei para ela: estava de cabeça baixa, com a mão cobrindo a boca, envergonhada.

— Para, Luan! Você não sabe guardar segredo nenhum — reclamou ela.

Ele me segurou pela blusa com força. Nesse instante, o meu filho pegou um pedaço de pau que estava no chão e bateu na cabeça do Luan.

— Quem foi que fez isso comigo?

— Fui eu! Não b**e no meu papai! — gritou o menino, firme.

— Menino mau! Não te bato por causa da sua mãe, mas fique sabendo: o seu pai merece muito mais do que isso!

— Não fale assim com o meu filho! — repreendeu a Karina, de uma vez.

— Karina, o que foi que você disse para esse seu namorado? — perguntei, já bravo. — Contou que eu disse que você precisa de um terapeuta? Me esquece de uma vez, Karina. Esse ódio todo que você guarda por mim nunca fez bem a nenhum de nós dois. Isso vai acabar trazendo coisa ruim dentro desta casa, e eu não vou ficar esperando para ver. Vai lá curtir o seu dinheiro! Será que você é tão infeliz que não consegue aproveitar tudo o que tem?

— Olha, eu não precisava te dar explicações, mas pela minha honra não aceito que me chame de fofoqueira — respondeu ela, irritada. — Ele nos viu aqui na cozinha brigando, pensou que estávamos conversando de outra coisa. Eu saí cedo para explicar tudo longe de todos, porque tenho vergonha de ser vista falando com você. Mas pelo jeito não adiantou nada. Olha aí todo mundo olhando para uma briga feia por causa de uma bobagem sua, Luan.

Nesse momento a Clarisse apareceu na porta, ouvindo tudo.

— E você teve vergonha de contar para o seu namorado que estava falando com o pai do seu filho? Devia ter dito a verdade: somos inimigos, não nos entendemos, só brigamos. Talvez nem adiantasse nada, porque esse aí é teimoso como um jumento. Me poupe, Karina! — Passei a mão no rosto, cansado. Não tenho um dia de sossego nessa vida.

Terminei de arrumar a pia depois daquela confusão, me sentindo para baixo. Graças a Deus, a Clarisse me deixou em paz. O meu filho ficou me olhando de longe, todo quieto. Todos esses ali parecem ser filhos de berço rico, e eu sou o único que não faço parte dessa elite — na verdade, a Clarisse também não. Depois de mais uma armadilha preparada para mim, fiquei sabendo que a Karina foi para o salão de beleza. A vida dela é assim: só luxo, só vaidade. Mulher que vive de aparências e que gosta de armar confusão para os outros.

 

Mais tarde, na hora do jantar…

Todos estavam à mesa. Ela apareceu toda arrumada, cheirosa, e ficou calada até então.

— Clarisse, amanhã vamos visitar a minha tia — avisei.

— Claro, meu amor, vamos sim.

— Se quiser arrumar o cabelo antes, eu pago para você — disse a Karina, entre os dentes, com aquele ar de superioridade.

— Não, obrigada. Se eu quiser, o meu namorado que paga por mim — respondeu a Clarisse, calma, fechando a boca dela na hora.

— Luan, eu odeio pessoas que parecem perfeitas demais… e você? Não suporto esse tipo de gente. Me desculpe, mas você também não acha isso? — Jogou o veneno, jogou o guardanapo na mesa e levantou-se depressa. O meu filho foi atrás dela, com medo de ela ficar mais brava ainda.

— Também odeio — concordou o Luan, só para agradar.

Pelo jeito, eu e a Clarisse já estamos marcados como os vilões dessa história toda. Peguei na mão dela e saímos: só voltaremos mais tarde.

 

Quando voltei à noite, vi os dois se beijando no sofá. Olhei logo para o lugar onde o meu filho costuma estar, preocupado.

— Olha, se forem fazer isso… — fiz um gesto com a mão — ...vão para o quarto, por favor. Tem uma criança nesta casa.

Os dois me olharam cheios de ódio.

— Cadê o meu filho?

— Não sei. Vê se não está escondido atrás de você — respondeu ela, seca como sempre.

Não falei mais nada com a Karina. Ela está com raiva porque eu disse que ela precisa de ajuda — e precisa mesmo, vive frustrada com tudo. Muitas vezes a Clarisse segurou a onda no nosso namoro: quando engravidei a patricinha, ela ficou comigo mesmo assim. Várias vezes o meu filho falou na frente dela que queria que eu voltasse a morar com a mãe, e ela só fechou a cara mas nunca me deixou. Se eu a perder, não sei o que será de mim. Vim para cá por causa dela, e outra mulher não teria essa paciência toda comigo, nem com o meu filho. Eu valorizo quem me valoriza.

Mais tarde, quando a Clarisse saiu um pouco, eu fiquei arrumando o pé de uma cadeira que estava solto.

— Ainda faz esse tipo de coisa? — Ouvi a voz da Karina atrás de mim.

— Claro que faço. Quem aprende um ofício nunca esquece, nem para de praticar.

— Cadê o meu filho?

— Ele já está dormindo — respondeu ela, depois de um instante.

— Que bonitinha… na frente do seu namorado me trata como lixo, mas sozinha é educada.

— Não sei do que você está falando.

Levantei devagar, encostei as duas mãos no braço dela e desci e subi bem devagar. Juro que senti ela tremer inteira. Minha mente zombou de mim: essa cobra treme de medo, mas tem vontade de te morder. Ela não teve coragem de me encarar.

— Tem suco na geladeira — disse, e saiu depressa, me deixando ali com as mãos abertas.

— Ouvi direito? Deixou suco na geladeira para mim? — Fiquei rindo sozinho, sem entender. Ela saiu para a rua muito rápido, como se estivesse fugindo.

Duas horas depois, o meu filho acordou.

— Papai, o senhor viu a mamãe?

— Ela saiu, filho. — Percebi que ele estava estranho, mais distante. — Eu fiz alguma coisa com você?

— Não, papai. Só não quero deixar a mamãe triste de jeito nenhum.

— Ela pediu para você ficar longe de mim?

— Não, nunca pediu isso, papai.

— Já terminei de arrumar as cadeiras. Vamos sair só nós dois, para você gastar essa energia toda. Você também é meu filho, e eu amo você.

— Vamos sim, papai! E o senhor não conta para ninguém?

— O que foi, meu amor?

— Eu quebrei o relógio do Paulo sem querer.

— Nossa, filho! Mas não se preocupe, vamos assim mesmo. Acontece. Eles podem até desconfiar, mas ninguém vai levantar a mão em você. O seu pai está aqui para te defender sempre.

 

Mais tarde ainda…

— Quem foi que quebrou o meu relógio? Quem foi? — gritou o Paulo, aparecendo na sala.

O meu filho ficou com os olhos arregalados, assustado, e eu quase sorri de ver o quanto ele se parecia comigo.

— Quanto custa esse relógio, Paulo? — perguntei, firme. Vi que a Karina já tinha percebido, pois o menino levou a mãozinha à boca, todo assustado.

— Foi o meu avô que me deu. Tem valor sentimental, não tem preço — disse ele, bravo.

— Se quiser, eu compro outro igual — ofereceu a Karina, como se o dinheiro resolvesse qualquer coisa no mundo. Fiquei ali olhando: para ela, parece que tudo se compra, tudo se conserta com dinheiro.

 

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