Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcerto de Contas
Autora: Edivania Rios Todos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98 História ambientada entre 1990 e 1998 Protagonistas: Karina e Gabriel Capítulo 5 Karina narrando… Eu sei muito bem que foi o meu filho quem quebrou o relógio do Paulo. Ele está encolhido, apertado contra o peito do pai, e aqueles olhos grandes cheios de medo já me dizem tudo — conheço o meu menino, sei quando ele apronta algo sem querer. Agora eu vejo que ele pode ficar marcado nessa casa como a única criança, alvo de todos os olhares. Mas ninguém vai fazer mal ao meu filho. Se alguém tentar, vira meu inimigo para sempre. Olhei firme para o Paulo: — Pois é, Paulo, se quiser falar alguma coisa, fale. Eu pago o valor do relógio. Dinheiro não é mais tão fácil para mim como antes, mas para não causar confusão, a gente abre mão do que for preciso. O Luan não estava na sala nesse momento; tinha subido para o quarto de cima. O Paulo sorriu de um jeito que me deu arrepios na espinha: — Se eu quisesse dinheiro, já teria pedido há muito tempo. O que eu quero é outra coisa… algo que vai me satisfazer muito mais do que qualquer objeto. E você sabe muito bem do que estou falando. Senti o rosto queimar de vergonha. Todos ali me olhavam, e eu me senti suja, humilhada naquele instante. Peguei o meu filho pela mão, saí dali depressa e levei ele para fora da sala. Como o Paulo se atreve a falar assim comigo? Meus pensamentos giram sem parar, o coração batendo forte de raiva. — O que ele quer em troca do relógio, mamãe? — perguntou o menino, olhando para mim com olhos curiosos e inocentes. — Ele só quer outro relógio, meu amor — respondi, tentando disfarçar toda a raiva que sentia. Estava tão frustrada que precisava desabafar com alguém. Não sei por que fui falar com o Luan mais cedo, contei que estava brigando com o Gabriel. Ele acabou entendendo errado, pensou que nós dois estávamos conversando numa boa, como se fôssemos amigos! Mas não é assim… nós somos inimigos, não temos nada a dizer um ao outro. Mas então lembrei do toque dele, da forma como o Gabriel me tocou… e todo o meu corpo tremeu de uma vez. Olha que não estou carente, não preciso de ninguém. Mas ele é pobre, Karina, o mais simples de todos ali! Tenho que esquecer esse sentimento, afogá-lo bem fundo. Ninguém pode saber que ele ainda mexe comigo. Sempre que ele chegar perto, eu vou fugir, vou fingir que não sinto nada, vou fazer tudo com cuidado para ninguém perceber. Depois bateu na porta. — Posso entrar, Karina? Era a voz do Luan. — Não, Luan, não pode! — respondi rápido. — Estou só de calcinha e sutiã, e o meu filho está aqui comigo. Me espera no seu quarto, por favor, já vou ir lá falar com você. Ele foi embora. Não entendo por que ele queria ficar ali… não tem respeito por uma criança? Meu filho não precisa ver a minha intimidade, isso não é certo. Virei para o menino, precisava falar com ele com carinho: — Filho, não precisa mentir para mim. Foi você que quebrou o relógio do Paulo, não foi? Ele abaixou a cabeça, todo envergonhado: — Foi sim, mamãe. Foi sem querer… eu achei ele tão bonito, e só queria ver ele tocar e cantar. — Meu Deus, filho… nunca mais faça uma coisa dessas, por favor. Me arrumei depressa e fui em direção ao quarto do Luan, mas esbarrei em alguém bem na porta. Quando levantei o olhar, era o Gabriel. Senti as pernas tremerem sozinhas, o meu corpo reagiu antes da minha mente. Ele me puxou forte para perto, com uma pegada firme que me deixou sem ar: — Vem cá. Ah, meu Deus! Que pegada forte! Ele não faz ideia do quanto o meu corpo sentiu esse toque… fechei os olhos, a adrenalina foi tão forte que eu quase quis ficar ali para sempre. — Fala com esse seu namorado — disse ele baixo, bem firme — para respeitar essa casa e respeitar você, e respeitar o nosso filho também. E pede para o Paulo te respeitar também, para que o nosso filho não perceba o desejo doentio que ele tem por você. Vou te dizer uma coisa: o Paulo vai acabar mostrando a cara verdadeira, ele sempre te quis. Mas eu peço respeito acima de tudo. O nosso filho não pode sofrer por causa de paixão de homem mal amado. Ele me soltou e saiu andando sem olhar para trás. Abaixei a cabeça e respirei fundo, sentindo-me viva como nunca antes. Eu estava procurando esse sentimento há tanto tempo… queria sentir tudo de novo. Mas a realidade bateu forte no peito: ele tem namorada, Karina! Entenda de uma vez: a sua felicidade não pode existir em cima da tristeza de outra pessoa. Devagar, peguei o meu casaco, as chaves do carro e de casa, e saí. A noite parecia toda minha. Desisti de ir ao quarto do Luan. Passei horas andando com o carro, sem rumo, até que voltei para casa de madrugada. Quando entrei, vi todos ali com a cara assustada, pálidos: — Por que vocês estão com essa cara toda? O que aconteceu? — O seu filho passou muito mal durante a noite. Ele está com o pai no hospital. O meu mundo caiu de vez. Saí correndo de volta para o carro e fui direto para lá, sem prestar atenção em nada no caminho. Chegando ao hospital, procurei por eles desesperada: — Cadê o meu filho, Gabriel? Onde você estava essa noite, Karina? — ele me perguntou, com os olhos cheios de raiva e preocupação. — Você deixou alguém entrar no seu quarto e quase sufocou o nosso filho! Eu ouvi os gritos dele, esse bandido pulou pela janela antes que eu chegasse. A Clarisse está aqui comigo… e ela parece cuidar mais do seu filho do que você mesma. — Te odeio, maldito! — gritei com toda a força que tinha. Como ele pode dizer que aquela mulher sonsa é mais mãe do que eu? Será que eu não posso ter nem um momento de tristeza para respirar? — Odeio gente que parece perfeita demais, isso me cansa até a alma! — falei olhando para a Clarisse. — E cansei de você também, Gabriel! Já te odiava, agora esse ódio está virando indiferença. Sai do meu caminho. Ele me olhou sério, sem piscar: — Todos esses homens atrás de você… vou ter que tomar uma medida forte para proteger o nosso filho. — Que medida? — perguntei furiosa, sem entender. — Vou ter que casar com você. — O quê? — O meu coração disparou tão forte que doeu, pareceu que ia sair pela boca. — Sim. Pense bem e me dê a sua resposta. Não vamos viver como marido e mulher de verdade, é só para ninguém mais chegar perto de você e do nosso filho. Por ele eu faço qualquer coisa. E você? Qual é o preço que você pede para proteger ele também? — Você já falou com a Clarisse sobre isso? — Ela está aqui ouvindo tudo. Vou conversar direito com ela agora mesmo. Saí dali e fui até o leito do meu filho. Ele me olhou assustado, com a vozinha fraca: — Mamãe… eu quase morri… Comecei a chorar, passando a mão devagar nos seus cabelos: — Deus te protegeu, meu amor. Perdoa a sua mãe, por favor. Eu saí sem saber o que fazer, vivo em conflito comigo mesma, e nunca imaginei que algo tão ruim fosse acontecer com você. — Eu te amo muito, mamãe! — disse ele, e aquelas palavras acalmaram um pouco o meu coração que estava todo despedaçado. — E eu te amo mais que tudo nessa vida. E pode ter certeza: a partir de agora, tudo vai mudar.






