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Autora: Edivania Rios História ambientada entre 1990 e 1998 Protagonistas: Karina e Gabriel Todos os direitos autorais reservados à autora citada acima. Qualquer uso parcial ou total sem autorização será considerado crime virtual e/ou de violação aos direitos autorais. LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. Capítulo 3 Karina narrando… Meu filho saiu com o pai, os dois bem arrumados, de mãos dadas. Nunca tinha visto de perto tanto carinho entre eles, e meu peito se apertou como se eu fosse uma fracassada — pois agora vou ter que dividir o meu menino com ele, tão de perto, todos os dias. Ah, vovô… o senhor nos faliu. Éramos milionários, e agora chegamos à estaca zero: só classe média. Tinha tudo o que quis, e agora quase nada me resta. — O que a bela está pensando aí, tão calada? — perguntou o Paulo, chegando devagar. — Não consigo me acostumar a ser pobre. Tenho medo de perder todo o conforto que sempre tive, e é justamente por isso que estou aqui: num lugar onde não me sinto à vontade, onde tudo me lembra o que perdi. — Mas você sabe muito bem que a única que nasceu em berço de ouro aqui é você. Às vezes é compreensível se sentir assim, como se estivesse fora do lugar — mas você já viveu aqui antes, só se desacostumou. — Um berço que agora está aos pedaços… mas o resto eu concordo com você. Sempre fui muito materialista, eu sei. — Me virei para ele. — Me desculpe, Paulo, vou sair um pouco. Peguei meus óculos escuros, a chave do carro e fui embora. Queria andar, sem hora para voltar, sem rumo. Sentei na pracinha e vi vários casais passando de mãos dadas, rindo, conversando. Quantas vezes eu desejei isso para mim? Quis poder passear assim, de mãos dadas com alguém que me amasse de verdade… mas nunca pude. Senti uma inveja sem fim, esse desejo bateu forte no meu peito: eu queria ter um grande amor. Fiquei ali olhando para o nada, os óculos escuros me protegiam do sol avermelhado do fim de tarde — mas também serviam para esconder os olhos cheios de lágrimas. — Mamãe! Era o meu filho, vindo de mãos dadas com o pai e com a Clarisse. O coração bateu desesperado dentro do peito. — Oi, meu bombom! Oi, Clarisse, tudo bem? Gabriel… — Tentei ser educada, mas a presença deles me deixava toda constrangida, como se eu fosse uma intrusa na minha própria vida. — Mamãe, eu, o papai e a Clarisse vamos comer alguma coisa. Vem com a gente? — Não, filho… — Tirei os óculos, me abaixei e beijei a sua testa. — Desculpem, mas eu já estava de saída. Meu filho é inocente, não entende que aquilo é um encontro de casal, que eu não pertenço ali. Saí andando rápido, sentindo a garganta fechar. Antigamente eu era mais impulsiva, mais brava — hoje sou mais madura, mas essa dor continua exatamente a mesma. Andei de carro por aí, sem saber para onde ia. Sinto falta de algo que nunca tive; a minha alma está completamente deserta… dá vontade de ter asas, voar alto e não ter nenhuma responsabilidade. Essa necessidade de ter alguém ao meu lado para sorrir é como um tiro no peito, mas esse alguém nunca chega. Parei num campo de futebol vazio, levantei o rosto e respirei fundo. Será que só eu vivo nessa busca constante? Será que só a minha alma anda tão desesperada? Será que nós buscamos sempre algo maior que o amor humano, e nunca encontramos? Mais tarde, quando voltei… — Nossa, você sumiu o dia todo! Seu avô ligou aqui várias vezes — disse o Luan assim que me viu entrar. — Depois eu ligo para ele, não vou esquecer. — Por que você está assim, tão triste? — Luan… me beija, por favor! — Não sei de onde veio essa carência toda, tão forte e avassaladora. — Cansei de viver sozinha… nem sei como te explicar o quanto estou me sentindo vazia. — Meu sonho era ouvir isso de você, Karina. — Então faz amor comigo, mata essa necessidade que está no meu corpo. Ele me beijou com vontade, mas de repente ouvi uma voz grossa e seca, que me gelou o sangue: — Nesta casa há uma criança. Se quiserem fazer isso, vão para o quarto. É mais adulto, não acham? Era o Gabriel. Olhei para ele com todo o ódio que cabia em mim — só faltava isso para completar o meu dia. — A sua fala é muito pior do que o que iria acontecer aqui! A sua mente que é doente! — respondi, firme e irritada. Ele só passou a mão na nuca, continuando a nos olhar como se estivesse julgando cada movimento nosso. — Vamos, Karina. Esse traíra sempre aparece para estragar tudo — disse o Luan, me puxando devagar. Fomos para o quarto, fizemos o que eu pedi… mas nada melhorou. Depois, fui ao banheiro e senti como se o meu coração estivesse chorando baixinho. Nem eu mesma entendo essa nostalgia: tenho tanta coisa, nada me falta de verdade, mas sinto esse vazio que não passa. Tudo vai voltar ao normal, Karina, disse a mim mesma. Acalma-se. Na hora do jantar, vi o meu filho todo ao lado do pai, rindo de cada coisa que ele dizia. Perdi a fome na hora. — Vou me deitar — falei, levantando depressa. — Mamãe, eu vou com a senhora! — Não, fica com o seu pai! Ele é o seu preferido, não é mesmo? Desde que ele chegou, você nem veio me ver direito… filho ingrato. O menino começou a chorar, assustado. Vi o Gabriel se levantar de uma vez, e meus olhos se arregalaram. — Deixa de ser criança, Karina! Deixa de agir como patricinha mimada! Quando vai crescer de uma vez? — Quando não doer mais! Seu aproveitador! Finge ser o bom moço e quer tomar o meu filho de mim! — O que está doendo então? Fala logo! Não quero tomar o nosso filho de você… lembra que ele foi até o seu quarto te procurar? E você estava lá com o Luan. Ele me segurou pelo braço, e o Luan já se levantou para interferir. — Ninguém se mete nisso! — disse o Gabriel, firme. — Vou conversar com a Karina sobre o nosso filho, só isso. — Não quero conversar com você! Me solta, seu imbecil! — Então vem cá! — Ele me levou até o escritório, fechando a porta atrás de nós. — Você vai parar com essa birra? Parece uma menina! Está fazendo o nosso filho sofrer com essas suas ideias. Ele te ama, ele foi te procurar. Olhei bem dentro dos olhos dele, e aos poucos me acalmei. — Vou buscar ele, Gabriel, não se preocupe. Vou dormir com ele hoje. Agora me solta, seu panaca. — A vida não é toda cor-de-rosa como você pensa, patricinha. Aprenda a dar o melhor que você tem — se é que existe algo — e dê amor para o nosso filho. Ele é o único que ainda te suporta de verdade. — Você está brincando com fogo! Um dia eu quero ver você comendo na minha mão, vai ser o meu cachorrinho! Ele sorriu de canto, aquele sorriso que me irrita tanto. — Você é venenosa… mas esse seu charme não pega em mim. Esse sonho de me ter nas suas mãos não passa de um sonho mesmo. — Quem disse que estou jogando charme? Só quero que entenda: o meu espaço ninguém toca. Cada um no seu devido lugar. — Ui, que medo! — fez ironia, balançando a cabeça. — Posso sair agora? — Ainda não terminamos. O nosso filho não é só seu, ele é meu também. E como vamos viver juntos nesta casa por quatro anos, eu vou sair com ele quando eu quiser, e você vai ter que entender e aceitar. — Entendi. Agora posso ir? — Pode. Voltei para a sala e vi o meu filho dormindo com a cabeça apoiada na mesa. Não dava mais para pegá-lo no colo com facilidade, já tem sete anos; só fiz carinho nas suas costas devagar. — Vamos dormir, filho. Ele se levantou caladinho e veio comigo. Antes de subir a escada, o Luan apareceu ali. — Como vamos fazer para continuar tudo isso? — Hoje não, por favor. Quero só dormir com o meu filho, você entende? — Me abaixei perto do menino. — Me perdoa, meu amor. A mamãe não é perfeita, sou muito ciumenta, mas te amo mais do que tudo. — Mamãe, eu também te amo muito. — Que bom que você me ama… — sorri, com o coração apertado de alegria e de dor. De madrugada… Dá uma vontade enorme de pegar o carro e sair por aí, gastar gasolina sem rumo. A vida de solteiro é tão vazia… Já pedi tanto a Deus um grande amor, mas ele nunca chega. Queria me sentir de alguém, ter um motivo para me arrumar e sorrir, igual aquele casal que mora aqui. Não sinta inveja, Karina, falei para mim mesma. Eles nem são tão perfeitos assim juntos. Não consegui ficar na cama, desci até a cozinha para beber um copo de água. A cabeça girando em mil pensamentos. — Você também não dorme? Era ele, parado ali na porta. — É da sua conta? Quer ser meu parceiro de insônia? Vai beber a sua água e suma daqui. Se nos verem juntos, os boatos vão rolar — e o ruim sempre cai em cima da mulher, o homem sai ileso como se nada tivesse acontecido. Não quero ficar perto de você, tenho pavor. — Que valentia… Mas a solidão mata, venenosa. Senti os olhos encherem de lágrimas de uma vez. Era verdade, aquilo estava me matando por dentro. — Se eu pudesse, eu te mataria! Você tirou tudo o que eu tinha! — A sua virgindade? Se não fosse eu, teria sido outro. Naquela noite iria acontecer de qualquer jeito, com o Paulo ou com quem mais estivesse ali. Eu caí de paraquedas nessa história toda. — Você gostou! Vejo esse sorriso de satisfação na sua cara! Acho que foi você quem armou tudo! — De que mais você me acusa? Já disse mil vezes que não tinha nenhuma pretensão com você! Eu amo outra mulher, Karina, entenda de uma vez por todas! Não armei nada, nós dois estávamos dopados. — Você podia ter pedido para nos soltarem! — Eu não sou estuprador, Karina. Engoli o choro com força, quase me sufocando. — Então procura um terapeuta, riquinha. Você não esqueceu aquela noite… talvez ela tenha sido a pior, ou a melhor da sua vida, e você nunca superou. Mas não me culpe: eu curti tanto quanto você, mesmo dopado. Não segurei mais e comecei a chorar na frente dele, sem poder me esconder. Odiava me sentir tão frágil diante desse homem. Bati com a mão na mesa, cheia de raiva de mim mesma e dele. Ele virou e saiu sem dizer mais nada, me deixando ali sozinha — que era exatamente o que eu precisava, para poder chorar sem máscaras, sem ninguém me vendo.






