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apítulo 6 – Segredos Entre Quatro Paredes

C

Helena leu o bilhete mais uma vez.

Depois outra.

Como se, em algum momento, as palavras pudessem mudar.

Mas elas continuavam ali.

Negras.

Frias.

Ameaçadoras.

"Não se case com Dante Valenti. Você não faz ideia de quem ele realmente é."

Ela segurava o papel entre os dedos enquanto permanecia parada no meio da sala.

O silêncio do apartamento parecia mais pesado do que antes.

Durante todo o dia, Helena tinha tentado entender Dante.

O homem por trás das notícias.

Por trás da fama de CEO implacável.

Por trás da expressão sempre controlada.

E, pela primeira vez, alguém dizia que havia algo escondido.

Um segredo.

Ela deveria contar a ele.

Essa seria a atitude mais lógica.

Mas uma pergunta a impediu:

E se o bilhete fosse verdade?

Helena caminhou até a mesa e colocou o papel dentro de uma pasta.

Não era porque confiava no remetente.

Também não era porque desconfiava completamente de Dante.

Era porque ainda não sabia em quem confiar.

E essa talvez fosse a parte mais perigosa.

---

Na manhã seguinte, Helena chegou à Montenegro antes do horário habitual.

Precisava se concentrar.

Precisava lembrar que, antes de qualquer casamento, antes de qualquer contrato, havia uma empresa dependendo dela.

Mas não conseguiu evitar.

A imagem de Dante protegendo-a diante dos fotógrafos continuava voltando à sua mente.

O gesto tinha sido real.

A preocupação nos olhos dele também.

Então por que alguém tentaria alertá-la?

— Você parece estar em outro lugar.

A voz de Ricardo fez Helena levantar o olhar.

Ele entrou na sala carregando alguns documentos.

— Estou apenas cansada.

Ricardo não pareceu convencido.

Ele conhecia Helena há anos.

Sabia quando ela escondia alguma coisa.

— Aconteceu algo depois da entrevista?

Por um momento, ela pensou em contar.

Mas parou.

— Não.

A resposta saiu rápido demais.

Ricardo percebeu.

Mas decidiu não pressionar.

— A parceria com a Valenti já começou a trazer resultados. Alguns fornecedores voltaram a conversar conosco.

Helena respirou aliviada.

Pelo menos uma parte daquele acordo estava funcionando.

— Ótimo.

Ela olhou para os documentos.

— Vamos usar essa oportunidade para recuperar a confiança do mercado.

Ricardo sorriu.

— Eu sabia que você conseguiria.

Helena sorriu de volta.

Mas, por dentro, a dúvida permanecia.

---

No final da tarde, Helena recebeu uma mensagem de Dante.

"Precisamos conversar sobre a convivência durante o contrato."

Ela encarou a tela.

Ainda não estava acostumada com a forma direta dele.

Sem introduções.

Sem explicações.

Apenas informações.

"Onde?"

A resposta chegou rapidamente.

"Na cobertura."

Helena respirou fundo.

A cobertura.

O lugar onde, oficialmente, começariam a construir a imagem de um casal.

---

Quando chegou, percebeu que o espaço era diferente do que imaginava.

Não havia luxo exagerado.

Era elegante.

Organizado.

Mas tinha uma característica marcante:

Tudo parecia perfeitamente planejado.

Como Dante.

Ele estava na sala, analisando alguns documentos.

— Você chegou.

Helena tirou o casaco.

— Você sempre recebe as pessoas como se estivesse começando uma reunião?

Dante levantou os olhos.

— Você sempre faz comentários antes de sentar?

Ela quase sorriu.

Quase.

— Talvez.

Ele indicou o sofá.

Sobre a mesa havia uma pasta.

Helena abriu.

— Regras de convivência?

— Sim.

Ela começou a ler.

Respeito à privacidade.

Participação em eventos públicos quando necessário.

Manutenção da imagem do casal perante a imprensa.

Tudo parecia exatamente como ela esperava.

Frio.

Organizado.

Calculado.

Até chegar à última cláusula.

Ambos terão liberdade para manter suas próprias rotinas e escolhas pessoais.

Helena ergueu o olhar.

— Você colocou isso aqui?

— Sim.

— Por quê?

Dante pareceu surpreso com a pergunta.

— Porque um acordo não deve significar perda de liberdade.

Ela ficou em silêncio.

A resposta não combinava com a imagem que ela tinha criado dele.

— Você sempre pensa em tudo?

— Tento.

— Deve ser cansativo.

Pela primeira vez, ela viu uma pequena mudança no rosto dele.

Quase imperceptível.

Como se aquela frase tivesse tocado em algo pessoal.

— Às vezes.

A resposta simples a surpreendeu.

Antes que pudesse continuar, o celular dele tocou.

Dante olhou para a tela.

A expressão mudou.

Não completamente.

Mas o suficiente para Helena perceber.

Ele ficou sério.

Mais sério do que o normal.

— Preciso sair.

Ela observou.

— Agora?

— Sim.

Dante pegou o paletó.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele hesitou.

Por um segundo, pareceu pensar em responder.

Mas escolheu o silêncio.

— É uma questão de trabalho.

Helena assentiu.

Mas sabia reconhecer quando alguém escondia algo.

E Dante Valenti escondia muitas coisas.

---

Mais tarde naquela noite, Helena estava na sala quando ouviu o som de um carro deixando a garagem.

Ela caminhou até a janela.

Dante saía sozinho.

Sem motorista.

Sem segurança.

Algo dentro dela dizia que aquilo não era uma simples reunião de trabalho.

Ela sabia que não deveria segui-lo.

Sabia que invadir a privacidade dele ultrapassava os limites do contrato.

Mas a curiosidade venceu.

Pegou um casaco e saiu discretamente.

Manteve distância.

O carro de Dante parou diante de um restaurante reservado em uma área pouco movimentada da cidade.

Ela observou de longe.

Dante entrou.

Alguns minutos depois, um homem apareceu.

Helena não conseguia ouvir a conversa.

Mas viu a postura de Dante.

Não era uma reunião comum.

Era uma conversa entre pessoas que carregavam um problema.

Dentro do restaurante, o homem colocou uma pasta sobre a mesa.

— Ela já assinou o contrato?

Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu:

— Sim.

O homem abriu a pasta.

— Então o plano começou.

Dante ficou sério.

— Ela não pode descobrir a verdade agora.

Helena sentiu o coração acelerar.

Verdade?

Plano?

Sobre o que eles estavam falando?

O homem continuou:

— Você tem certeza de que ela é a pessoa certa?

Dante olhou para os documentos.

Depois respondeu em voz baixa:

— Ela é a única pessoa capaz de fazer isso.

Helena deu um passo para trás.

A única pessoa capaz de fazer o quê?

Naquele momento, percebeu que o bilhete talvez não fosse apenas uma tentativa de destruir Dante.

Talvez fosse um aviso.

E talvez o maior segredo daquela história ainda estivesse apenas começando.

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