Helena descobriu rapidamente que existir ao lado de Dante Valenti significava viver sob observação constante.
Desde o momento em que acordou, seu celular não parou de receber notificações.
Mensagens.
E-mails.
Notícias.
Comentários.
O mundo inteiro parecia interessado em um casamento que, para ela, ainda era apenas um acordo assinado em algumas folhas de papel.
Ela estava sentada diante da mesa do café quando abriu uma das manchetes.
"Dante Valenti e Helena Montenegro: o novo casal do poder empresarial."
Helena soltou um pequeno suspiro.
Casal.
A palavra parecia estranha.
Ela e Dante não eram um casal.
Eram duas pessoas tentando resolver problemas usando uma solução incomum.
Mas explicar isso para o mundo seria impossível.
— A partir de hoje, tudo muda.
A voz de Dante chamou sua atenção.
Ele estava parado na entrada da sala.
Como sempre, impecável.
Terno escuro.
Expressão controlada.
Nenhum sinal de que uma multidão de jornalistas aguardava uma declaração dos dois.
Helena fechou o celular.
— Você sempre aparece sem fazer barulho?
— Você sempre faz perguntas quando já sabe a resposta?
Ela quase sorriu.
Quase.
— Você realmente é difícil.
— Já me disseram isso.
Ele se sentou à frente dela.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio.
Era curioso.
Mesmo depois de assinarem um contrato e anunciarem um casamento, ainda pareciam dois estranhos tentando entender como agir perto um do outro.
— Hoje teremos a primeira entrevista oficial — disse Dante.
Helena assentiu.
— Eu sei.
— Precisamos estar alinhados.
Ela cruzou os braços.
— Você quer dizer que precisamos parecer apaixonados.
Dante manteve o olhar nela.
— Precisamos parecer seguros.
A resposta chamou sua atenção.
— Não apaixonados?
Ele desviou os olhos por um breve instante.
— Segurança convence mais do que exageros.
Helena percebeu algo.
Dante não era um homem que fingia sentimentos.
Ele fingia controle.
E talvez essa fosse a maior diferença entre eles.
---
A entrevista aconteceria em um dos salões mais importantes da cidade.
Quando Helena chegou ao local, entendeu imediatamente o tamanho da situação.
Câmeras por todos os lados.
Repórteres.
Fotógrafos.
Pessoas tentando descobrir cada detalhe da vida deles.
Dante caminhava ao lado dela.
Calmo.
Seguro.
Como se aquele ambiente fosse apenas mais uma reunião de negócios.
Helena, por outro lado, precisava lembrar a si mesma de respirar.
— Não olhe para as câmeras.
Ela olhou para ele.
— O quê?
— Olhe para mim.
A frase a surpreendeu.
Mas antes que pudesse responder, as portas se abriram.
Os flashes começaram.
Dante segurou sua mão.
Dessa vez, o gesto pareceu diferente.
Ainda fazia parte do acordo.
Ela sabia.
Mas havia algo na forma como ele fazia.
Não parecia apenas uma estratégia.
Parecia proteção.
---
A primeira pergunta veio de uma jornalista conhecida por ser direta.
— Senhor Valenti, muitos ficaram surpresos com esse casamento. Quando exatamente o relacionamento começou?
Dante respondeu sem hesitar:
— Há algum tempo.
Helena percebeu que ele não entrou em detalhes.
E agradeceu por isso.
Outra pergunta veio.
— Senhorita Montenegro, o que fez você aceitar se casar com um homem tão reservado?
Todos olharam para ela.
Helena respirou fundo.
Ela poderia dar uma resposta ensaiada.
Mas preferiu algo mais próximo da verdade.
— Eu acredito que as pessoas são mais do que aquilo que o mundo vê.
Por um instante, Dante olhou para ela.
Como se aquela resposta tivesse sido inesperada.
A jornalista continuou:
— E o que você mais admira nele?
Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
O que ela admirava em um homem que mal conhecia?
A resposta veio antes que pudesse pensar demais.
— A determinação.
O ambiente ficou silencioso.
Ela continuou:
— Dante construiu tudo o que tem porque não desiste facilmente.
Dessa vez, ele não desviou o olhar.
Havia algo diferente em sua expressão.
Talvez surpresa.
Talvez respeito.
---
Depois da entrevista, seguiram para a sessão de fotos oficial.
O fotógrafo analisava os dois com atenção.
— Preciso de mais proximidade.
Helena e Dante trocaram um olhar.
Eles sabiam que aquilo fazia parte do jogo.
Ela aproximou-se.
Dante colocou uma das mãos em sua cintura.
O toque era firme, mas cuidadoso.
Helena sentiu o perfume dele.
A proximidade.
A presença.
Por alguns segundos, esqueceu que havia câmeras ao redor.
— Perfeito.
O fotógrafo continuou fazendo registros.
Mas Helena percebeu que algo havia mudado.
Não nele.
Nela.
Porque, pela primeira vez, estava começando a enxergar o homem por trás da imagem de CEO.
---
O momento de tranquilidade terminou quando deixaram o prédio.
Uma multidão de fotógrafos aguardava na saída.
Os seguranças tentaram abrir caminho.
Mas tudo aconteceu rápido.
Uma pessoa avançou além da barreira.
Helena perdeu o equilíbrio.
Antes que caísse, Dante a puxou para perto.
O braço dele envolveu sua cintura.
Protegendo-a.
— Afastem-se!
A voz dele mudou.
Não era o tom frio de empresário.
Era uma ordem carregada de preocupação.
Os seguranças rapidamente controlaram a situação.
Helena permaneceu alguns segundos próxima demais dele.
Então percebeu.
Dante ainda a segurava.
Ele também percebeu.
Soltou-a imediatamente.
— Você está bem?
Ela assentiu.
— Estou.
Mas havia algo diferente.
Porque, naquele momento, ela não viu o homem calculista que assinou um contrato.
Viu alguém preocupado.
Alguém que agiu sem pensar.
---
No carro, o silêncio entre os dois foi diferente.
Não era desconfortável.
Era apenas cheio de pensamentos.
— Obrigada — Helena disse.
Dante olhou pela janela.
— Não precisa agradecer.
— Preciso.
Ele ficou em silêncio.
Então perguntou:
— Por quê?
Helena observou o perfil dele.
— Porque naquele momento você não estava pensando no contrato.
Pela primeira vez, Dante não respondeu imediatamente.
A frase pareceu atingir algo que ele não esperava.
— Você interpreta demais as situações.
Ela sorriu levemente.
— E você sente menos do que deveria.
Ele virou o rosto para ela.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então o celular de Dante tocou.
O momento desapareceu.
---
Naquela noite, quando Helena chegou ao apartamento, encontrou um envelope sobre a mesa.
Sem remetente.
Sem endereço.
Apenas seu nome escrito.
Ela abriu.
Dentro havia um pequeno cartão.
E uma frase.
"Não se case com Dante Valenti."
Seu coração acelerou.
Ela continuou lendo.
"Você não faz ideia de quem ele realmente é."
Helena ficou parada.
O papel tremia levemente em sua mão.
Pela primeira vez desde que assinou aquele contrato, sentiu uma dúvida verdadeira.
Talvez o maior risco daquela aliança não fosse perder sua empresa.
Talvez fosse descobrir tarde demais quem era o homem que agora estava ligado ao seu nome.