Na manhã seguinte, Helena acordou com uma certeza desconfortável.
Não confiava mais no silêncio de Dante.
Cada resposta incompleta parecia esconder outra pergunta.
Cada mudança em sua expressão parecia revelar algo que ele se recusava a dizer.
Ainda assim, havia uma coisa que Helena precisava admitir: se Dante realmente quisesse controlá-la, já teria feito isso.
Ele tinha poder suficiente.
Dinheiro suficiente.
Influência suficiente.
Mas não havia ultrapassado nenhum dos limites que ela havia estabelecido.
Isso tornava tudo ainda mais confuso.
Às oito da manhã, Helena chegou à Montenegro e encontrou Ricardo esperando por ela.
— Temos um problema.
Ela deixou a bolsa sobre a mesa.
— O que aconteceu?
Ricardo entregou-lhe um envelope.
— Três fornecedores receberam propostas para cancelar os contratos conosco.
Helena abriu o documento.
— Quem fez as propostas?
— Uma empresa intermediária.
Ela percorreu os dados.
O nome não significava nada.
— Descubra quem está por trás dela.
— Já estou tentando.
Helena fechou o envelope.
— E não conte nada à Valenti ainda.
Ricardo franziu a testa.
— Tem certeza?
— Sim.
— Por quê?
Ela hesitou.
— Porque preciso saber até onde esse problema vai antes de envolver Dante.
Ricardo a observou por alguns segundos.
— Você está desconfiando dele?
Helena desviou o olhar.
— Estou tentando descobrir em quem posso confiar.
---
Naquele mesmo dia, Helena recebeu uma ligação inesperada.
— Senhorita Montenegro?
— Sim.
— Meu nome é Henrique Avelar.
O coração dela acelerou.
Por alguns segundos, não conseguiu responder.
— Como conseguiu meu número?
— Existem maneiras de conseguir informações quando se conhece as pessoas certas.
Helena permaneceu em silêncio.
— O que você quer?
— Conversar.
— Sobre?
— Sobre Dante.
Ela apertou o celular.
— Não tenho interesse.
— Talvez devesse ter.
— Se tiver alguma coisa para dizer, diga agora.
Houve uma breve pausa.
— Dante não se casou com você apenas para salvar sua empresa.
Helena sentiu o estômago apertar.
— Eu já ouvi isso.
— Então talvez seja hora de descobrir o motivo verdadeiro.
— Qual?
Henrique soltou uma pequena risada.
— Pergunte a ele sobre seu pai.
A ligação terminou.
Helena ficou imóvel.
Seu pai.
Por que Dante estaria relacionado ao pai dela?
A pergunta era absurda.
Dante só havia entrado em sua vida recentemente.
Pelo menos era isso que ela acreditava.
---
Naquela noite, Helena encontrou Dante no escritório da cobertura.
Ele estava lendo alguns documentos quando ela entrou.
— Precisamos conversar.
Ele levantou os olhos.
— Sobre o quê?
Ela fechou a porta.
— Meu pai.
O rosto dele mudou.
Foi mínimo.
Mas Helena percebeu.
— O que tem seu pai?
— Você conhecia Augusto Montenegro?
Dante permaneceu em silêncio.
A pergunta parecia ter criado uma barreira invisível entre os dois.
— De onde tirou essa ideia?
— Apenas responda.
Ele se levantou.
— Sim.
Helena sentiu o peito apertar.
— Desde quando?
— Há muitos anos.
— E por que nunca me contou?
Dante caminhou até a janela.
— Porque não era relevante para o nosso acordo.
— Não era relevante?
Ela soltou uma risada amarga.
— Você está se casando comigo, conhece meu pai, conhece problemas da minha empresa e espera que eu acredite que isso não seja relevante?
Ele se virou.
— Seu pai e eu tivemos negócios.
— Que tipo de negócios?
— Investimentos.
— Só isso?
Dante não respondeu.
Helena se aproximou.
— Henrique disse que você não se casou comigo apenas para salvar minha empresa.
Dante ficou completamente imóvel.
— Você falou com Henrique?
Ela percebeu o erro tarde demais.
— Sim.
Ele se aproximou.
— Quando?
— Hoje.
— Ele esteve perto de você?
— Apenas por telefone.
A mandíbula dele se contraiu.
— Você não deve falar com ele novamente.
— Não me dê ordens.
— Não é uma ordem.
— Parece.
Dante respirou fundo.
— Helena, você não entende o que Henrique é capaz de fazer.
— Então me explique!
Ele ficou em silêncio.
Ela esperou.
Mas, novamente, ele escolheu esconder a verdade.
Helena balançou a cabeça.
— É sempre assim.
— Assim como?
— Você exige minha confiança enquanto me dá motivos para não confiar em você.
A expressão dele mudou.
Por alguns segundos, parecia vulnerável.
— Eu estou tentando proteger você.
— Eu não pedi para ser protegida.
— Talvez você não tenha escolha.
Helena ficou indignada.
— Então temos um problema.
Ela tirou o anel que usava desde o anúncio e colocou sobre a mesa.
Dante olhou para o objeto.
— O que está fazendo?
— Estabelecendo um limite.
Ela apontou para o anel.
— Se esse casamento vai acontecer, eu preciso saber a verdade.
— E se eu não puder contar?
— Então não espere que eu finja confiar em você.
O silêncio entre os dois foi intenso.
Dante aproximou-se.
Parou diante dela.
— Você quer a verdade?
Helena sustentou o olhar.
— Quero.
Ele baixou a voz.
— Então existe uma coisa que você precisa saber antes de se casar comigo.
O coração dela acelerou.
— O quê?
Dante hesitou.
Então disse:
— Seu pai não perdeu a Montenegro por causa de uma crise financeira.
Helena ficou imóvel.
— O que você está dizendo?
— Alguém provocou a queda da empresa.
Ela sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
— Quem?
Dante a encarou.
— Ainda estou tentando descobrir.
— E você sabia disso quando me procurou?
Ele não respondeu.
A resposta estava em seu silêncio.
Helena deu um passo para trás.
— Você sabia.
— Sim.
— E mesmo assim me pediu em casamento?
— Porque o contrato era a única forma de colocar você sob minha proteção.
Ela sentiu raiva.
Medo.
Confusão.
— Proteção contra quem?
Dante se aproximou.
— Contra a mesma pessoa que destruiu seu pai.
Helena ficou sem palavras.
Durante anos, acreditara que o fracasso financeiro da Montenegro havia sido resultado de decisões ruins e circunstâncias econômicas.
Agora descobria que talvez tudo tivesse sido planejado.
— Quem fez isso?
Dante respirou fundo.
— Henrique Avelar é apenas uma parte da história.
Antes que Helena pudesse perguntar mais, o celular dele tocou.
Dante olhou para a tela.
Atendeu.
— Fale.
O rosto dele perdeu a cor.
— Quando?
Silêncio.
— Entendi.
Desligou.
Helena percebeu imediatamente que alguma coisa havia acontecido.
— O que foi?
Dante pegou o paletó.
— Precisamos sair.
— Para onde?
Ele a encarou.
— Para a Montenegro.
— Por quê?
Dante respondeu com uma única frase:
— Porque alguém acabou de invadir sua empresa.
Helena sentiu o sangue gelar.
O casamento ainda nem havia começado.
E a guerra já tinha começado.