Helena passou a noite inteira sem conseguir dormir.
O contrato estava sobre a mesa da sala, aberto na mesma página havia horas.
Ela já tinha lido cada cláusula tantas vezes que algumas palavras pareciam perder o significado.
Casamento.
Contrato.
Prazo.
Condições.
Tudo parecia absurdo.
E, ainda assim, era a primeira oportunidade real de salvar a Montenegro.
Ela caminhou até a janela do apartamento e observou as luzes da cidade.
Milhares de pessoas vivendo suas próprias histórias.
Tomando decisões.
Errando.
Recomeçando.
E ela estava diante da escolha mais difícil da sua vida.
Aceitar um casamento falso com um homem que mal conhecia ou assistir a empresa do pai desaparecer.
Helena fechou os olhos.
A lembrança do pai voltou imediatamente.
A voz dele.
O jeito como acreditava nela.
Ela não podia permitir que tudo pelo que ele trabalhou fosse perdido.
O celular vibrou sobre a mesa.
Era uma mensagem de Ricardo.
"Precisamos de uma resposta até amanhã. O banco não vai esperar."
A realidade voltou como um golpe.
Não havia tempo.
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Na manhã seguinte, Helena chegou cedo à Montenegro.
Como sempre.
Mas naquele dia tudo parecia diferente.
Os corredores pareciam mais silenciosos.
As pessoas pareciam esperar uma notícia.
Ela entrou em sua sala e encontrou Ricardo sentado.
— Você conseguiu alguma alternativa? — ele perguntou.
Helena colocou a bolsa sobre a mesa.
Por alguns segundos, ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Talvez.
Ricardo franziu a testa.
— Talvez?
Ela respirou fundo.
— Recebi uma proposta.
O olhar dele mudou.
— De quem?
— Dante Valenti.
O nome foi suficiente para fazê-lo ficar sério.
— A Valenti Corporation?
Helena confirmou.
— Sim.
Ricardo levantou-se.
— Isso é grande.
— Grande demais.
Ela entregou uma cópia do contrato para ele.
Enquanto ele lia, Helena observava sua reação.
Primeiro surpresa.
Depois confusão.
E, por fim, preocupação.
— Helena...
Ela já sabia o que ele iria dizer.
— Eu sei.
— Isso é um casamento por contrato.
— Eu sei.
— Você tem certeza do que está fazendo?
A pergunta ficou no ar.
Ela não tinha.
Mas precisava parecer que tinha.
— Não.
Ricardo ficou surpreso com a honestidade.
— Mas sei o que acontece se eu não fizer nada.
Ele baixou o documento.
— Você está pensando em aceitar?
Helena olhou para a fotografia do pai sobre a estante.
— Estou pensando em salvar o que ele construiu.
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Naquela tarde, Helena voltou à Valenti Corporation.
Desta vez, não estava indo para descobrir a proposta.
Ela já conhecia.
Estava indo negociar seus próprios termos.
Quando entrou no escritório de Dante, ele percebeu imediatamente que ela havia tomado uma decisão.
— Você voltou.
— Voltei.
Ele indicou a cadeira.
— Então imagino que tenha uma resposta.
Helena sentou-se.
Colocou o contrato sobre a mesa.
— Tenho algumas condições.
Uma pequena expressão de surpresa apareceu no rosto dele.
Quase imperceptível.
— Estou ouvindo.
— Primeiro: a Montenegro continua sob minha administração.
— Concordo.
— Segundo: nenhum membro da sua família terá autoridade para interferir nas minhas decisões profissionais.
Dante analisou aquela exigência.
— Você sabe que minha família não costuma aceitar imposições.
— Então talvez esse seja o momento de aprenderem.
Por alguns segundos, houve silêncio.
Dante encarou Helena.
Ela não estava implorando.
Não estava tentando convencer.
Estava negociando.
E isso despertou seu interesse.
— Continue.
— Terceiro: nossa vida pessoal será separada do acordo empresarial.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Explique.
— Não quero que esse casamento seja usado para controlar minha vida.
— Você acredita que eu faria isso?
Helena sustentou o olhar dele.
— Eu ainda não conheço você o suficiente para acreditar em qualquer coisa.
A resposta deveria incomodá-lo.
Mas, estranhamente, ele respeitou.
Dante pegou a caneta.
— Mais alguma coisa?
Ela pensou por um momento.
— Sim.
Ele aguardou.
— Se um dia esse contrato terminar, ninguém poderá usar isso contra mim ou contra a minha empresa.
Dante assinou a primeira página.
— Aceito.
Helena observou.
Não esperava que fosse tão fácil.
— Por que você está fazendo isso?
A pergunta saiu antes que pudesse impedir.
Dante levantou os olhos.
— Já respondi.
— Não completamente.
Ele ficou em silêncio.
Por um instante, ela teve a sensação de que ele quase revelaria algo.
Mas a expressão dele voltou a ser fechada.
— Algumas alianças são necessárias.
Helena não gostou da resposta.
Porque parecia incompleta.
Mas também sabia que todos guardavam segredos.
Inclusive ela.
Pegou a caneta.
Sua mão hesitou por alguns segundos.
Aquele simples movimento mudaria sua vida.
Quando assinasse, não seria mais apenas a herdeira da Montenegro tentando salvar uma empresa.
Seria a futura esposa de Dante Valenti.
Um homem que parecia esconder mais do que revelava.
Ela assinou.
O som da caneta tocando o papel pareceu mais alto do que deveria.
Dante pegou o documento.
O acordo estava oficialmente fechado.
— A partir de agora, começaremos os preparativos.
Helena levantou-se.
— Preparativos?
— O anúncio público.
Ela parou.
— Já?
Dante fechou a pasta.
— Quanto mais tempo demorarmos, mais perguntas surgirão.
Ela respirou fundo.
Era isso.
A partir daquele momento, sua vida deixaria de pertencer apenas a ela.
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Na manhã seguinte, os principais veículos de comunicação receberam a notícia:
"Dante Valenti anuncia casamento com Helena Montenegro."
Em poucas horas, o nome dos dois estava em todos os lugares.
Helena observava a manchete na tela do celular.
Uma sensação estranha tomou conta dela.
Medo.
Ansiedade.
Dúvida.
Mas também uma pequena esperança.
Talvez aquele acordo fosse a única saída.
Talvez fosse apenas um contrato.
Talvez nada além disso.
Ela ainda não sabia que alguns contratos eram feitos para unir pessoas que jamais deveriam se encontrar.
E que alguns sentimentos nasceriam justamente onde ninguém esperava.