Helena chegou à sede da Valenti Corporation exatamente às oito e cinquenta e cinco da manhã.
Ela nunca gostou da sensação de entrar em um lugar onde todos pareciam saber mais sobre ela do que ela sabia sobre eles.
O prédio era impressionante.
Alto.
Moderno.
Imponente.
Tudo naquele lugar transmitia poder.
Era diferente da Montenegro.
A empresa de sua família carregava história, memórias e marcas de anos de trabalho.
A Valenti carregava autoridade.
Helena entrou na recepção segurando a bolsa com firmeza.
— Bom dia. Tenho uma reunião com o senhor Dante Valenti.
A recepcionista sorriu profissionalmente.
— Senhorita Helena Montenegro?
Ela confirmou com a cabeça.
Por um breve segundo, percebeu que não era apenas uma visitante.
Era alguém que eles já esperavam.
— O senhor Valenti está aguardando.
A frase despertou sua atenção.
Ele estava aguardando.
Não era apenas uma reunião marcada.
Ele havia preparado aquele encontro.
Uma funcionária a acompanhou até o elevador privativo.
Enquanto subia, Helena observava a cidade através das paredes de vidro.
De lá de cima, tudo parecia pequeno.
Inclusive problemas.
Mas ela sabia que, quando as portas daquele elevador se abrissem, teria que enfrentar uma das conversas mais importantes da sua vida.
---
O último andar era silencioso.
Não havia movimentação exagerada.
Não havia pessoas correndo de um lado para outro.
Apenas eficiência.
A funcionária parou diante de uma grande porta de madeira escura.
— O senhor Valenti está esperando.
Helena agradeceu e entrou.
A primeira coisa que percebeu foi a vista.
A segunda foi o homem diante da janela.
Dante Valenti.
Ela já havia visto fotos.
Reportagens.
Entrevistas.
Mas nenhuma imagem fazia justiça à presença dele.
Ele parecia controlar o ambiente sem precisar dizer uma palavra.
Alto.
Elegante.
Uma expressão séria que revelava pouco.
Quando se virou, seus olhos encontraram os dela.
E Helena teve a impressão de que ele já sabia exatamente quem ela era.
— Senhorita Montenegro.
A voz dele era calma e firme.
— Senhor Valenti.
Nenhum dos dois sorriu.
Não era uma reunião para gentilezas.
Era uma negociação.
Dante indicou a cadeira à frente da mesa.
— Sente-se.
Helena sentou-se sem desviar o olhar.
— Confesso que fiquei curiosa com essa reunião.
— Imagino.
Ele abriu uma pasta.
Dentro estavam documentos sobre a Montenegro.
Helena imediatamente percebeu.
Ele tinha informações detalhadas.
Muito detalhadas.
— O senhor investigou minha empresa.
Dante não tentou negar.
— Eu analisei sua situação.
— Existe diferença?
Ele levantou os olhos para ela.
— Investigação procura fraquezas. Análise procura soluções.
A resposta era típica de alguém acostumado a vencer discussões.
Helena cruzou os braços.
— E qual solução o senhor encontrou?
Dante deslizou alguns documentos pela mesa.
— Um investimento.
Ela olhou para os papéis.
— Em troca de quê?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.
— De uma parceria.
Helena analisou a expressão dele.
Havia algo naquela conversa que ainda não tinha sido dito.
— Que tipo de parceria?
Dante apoiou as mãos sobre a mesa.
— Uma parceria que envolve nossas duas famílias.
O coração dela acelerou levemente.
— Seja mais claro.
Pela primeira vez, percebeu uma pequena mudança no rosto dele.
Não era dúvida.
Era decisão.
— Eu quero me casar com você.
O silêncio que veio depois pareceu impossível de quebrar.
Helena ficou alguns segundos apenas olhando para ele.
Depois soltou uma pequena risada de incredulidade.
— Desculpe?
Dante permaneceu completamente sério.
— Um casamento por contrato.
Agora ela tinha certeza de que tinha ouvido corretamente.
— O senhor está falando sério.
— Sim.
Helena levantou-se lentamente.
— Então deixe-me entender. Minha empresa está em crise, eu venho buscar uma solução financeira e o senhor me oferece um casamento?
— Não é uma proposta emocional.
A resposta rápida dele a irritou.
— Eu percebi.
Dante continuou:
— Será um acordo com regras claras. Você terá acesso aos recursos necessários para recuperar a Montenegro. Minha família também se beneficiará da união.
— E por que eu?
Ele sustentou o olhar dela.
— Porque você é a única pessoa que ainda está tentando salvar aquela empresa.
A resposta a surpreendeu.
Não esperava isso.
— O senhor poderia comprar a Montenegro.
— Poderia.
— Então por que não faz isso?
Dante ficou em silêncio.
E, pela primeira vez, Helena percebeu que havia algo por trás daquela proposta.
Um motivo que ele ainda não estava revelando.
— Porque comprar uma empresa não é a mesma coisa que preservar um legado.
Aquelas palavras tocaram em um ponto sensível.
Porque era exatamente isso que ela tentava fazer.
Preservar.
Não vender.
Não abandonar.
Preservar.
Dante abriu outro documento.
— Você terá sua independência financeira. A empresa continuará sob sua administração. O casamento terá prazo definido.
Helena olhou para o contrato.
Era absurdo.
Frio.
Calculado.
Exatamente como ele.
Mas também era uma oportunidade.
A única que tinha naquele momento.
— E o que acontece quando o contrato acabar?
Dante respondeu sem hesitar:
— Cada um segue sua vida.
A frase deveria trazer alívio.
Mas, por algum motivo, Helena sentiu um desconforto.
Como se aquele homem tivesse certeza demais de que nada poderia mudar.
Ela pegou o documento.
— Preciso analisar.
— Claro.
Ela caminhou até a porta.
Antes de sair, parou.
— Senhor Valenti?
— Sim?
Helena virou-se.
— O senhor acredita mesmo que duas pessoas conseguem fingir um casamento sem que nada aconteça?
Pela primeira vez, algo mudou nos olhos dele.
Uma sombra de dúvida.
Mas desapareceu rápido.
— Sentimentos complicam acordos.
Ela segurou a maçaneta.
— Talvez.
Fez uma pausa.
— Mas às vezes são justamente eles que mostram o que realmente importa.
Helena saiu da sala.
Dante permaneceu parado, olhando para a porta fechada.
Pela primeira vez em muitos anos, alguém havia entrado em seu escritório e não tentara impressioná-lo.
Não tentou agradá-lo.
Não teve medo.
Helena Montenegro tinha acabado de desafiar a única regra que ele sempre seguiu:
Nunca misturar negócios com sentimentos.
E ele ainda não sabia que aquela mulher seria a única capaz de fazer seu mundo perfeitamente controlado começar a desmoronar.