Mundo de ficçãoIniciar sessãoFelipe pediu licença, dizendo que precisava fazer uma ligação para a esposa antes do almoço. Avisaria Antonella de que não voltaria para casa naquela noite. Para o pai, inventaria alguma desculpa relacionada ao trabalho. Assim, teria a noite livre ao lado de Rafaela.
Depois do choque de reencontrar Bruno, tudo o que Felipe desejava era o colo de Rafaela. Somente ao lado dela encontrava um pouco de paz, um refúgio onde a culpa e as lembranças deixavam de sufocá-lo. E, é claro, havia o filho, o único capaz de devolver algum sentido aos seus dias.
Afastou-se até a recepção do restaurante e ligou para a esposa. O celular estava desligado.
— Deve estar com meu pai ou vistoriando a fazenda. — Suspirou, guardando o aparelho. Em seguida, ligou para a mãe. Helena daria o recado à nora, poupando-o de inventar explicações para Antonella.
***
Depois do almoço, Rafaela iniciou sua rotina no hospital. Passou de quarto em quarto, verificando se as crianças estavam alimentadas, se haviam recebido a medicação e conferindo quais pacientes teriam alta naquele dia.
Enquanto trabalhava, contava as horas para voltar para casa.
Felipe dormir ao seu lado durante a semana era um acontecimento raro. Na maioria das vezes, eles se encontravam por poucas horas, sempre às escondidas. Naquela noite, porém, ela queria aproveitar cada minuto ao lado dele.
***
Felipe voltou para a mesa e sentou-se ao lado do pai.
Antônio ainda tentava falar com Helena. Somente então Felipe comentou que já havia conseguido conversar com a mãe, já que o telefone de Antonella permanecia desligado.
— E por que você vai dormir na cidade? — perguntou Antônio.
— Preciso organizar alguns documentos antes da viagem. Quero deixar tudo em ordem antes da festa da cooperativa.
O pai pareceu satisfeito com a resposta.
Quando voltou sua atenção para a conversa, ouviu Inácio comentar algo sobre a esposa de Bruno. Por um instante, Felipe tentou descobrir quem era aquela mulher, mas, assim que ele retornou à mesa, Bruno mudou discretamente de assunto.
Aquilo o incomodou mais do que deveria.
— Felipe, como andam os negócios na Argentina e na França? — perguntou Inácio.
— Viajo para a Argentina nos próximos dias. Na França, Fernando continua administrando tudo muito bem. Estamos estudando expandir as operações para outros países da Europa.
Os homens voltaram a discutir investimentos e oportunidades de mercado.
Felipe falou apenas o necessário durante o restante do almoço.
Preferiu observar.
Bruno dominava a conversa com naturalidade. Expunha ideias com segurança, respondia às perguntas sem hesitar e parecia conquistar a admiração de todos à mesa.
Seu pai, principalmente.
A cada elogio dirigido a Bruno, um desconforto crescia dentro de Felipe.
Era impossível não pensar em Isadora.
Lembrou-se de quantas vezes ela falara daquele cliente misterioso por quem nutria uma admiração quase inocente. O homem educado. Gentil. Bem-sucedido. O cliente que jamais ultrapassara os limites.
Agora ele sabia quem aquele homem era.
E também sabia que Bruno havia seguido em frente.
Casara-se.
Construíra uma nova vida.
Enquanto isso, Isadora...
Felipe apertou discretamente os punhos sob a mesa.
Tentou afastar aquele pensamento antes que a culpa voltasse a esmagá-lo.
***
O almoço terminou pouco depois.
Inácio foi o primeiro a deixar o restaurante, seguido pelos demais empresários.
Antônio e Felipe foram os últimos.
Bruno fez questão de acompanhá-los até o estacionamento.
Felipe permaneceu em silêncio, apenas ouvindo a conversa entre o pai e aquele homem.
— Bruno, foi um prazer conhecê-lo. Espero sinceramente que essa parceria seja um grande sucesso. Meu filho fará tudo o que estiver ao alcance dele para que isso aconteça.
Bruno sorriu com cordialidade.
— O prazer foi meu, senhor Antônio. Tenho certeza de que teremos uma excelente parceria. Nos vemos na festa da cooperativa. Façam uma boa viagem de volta.
Felipe limitou-se a fazer um breve aceno com a cabeça.
Quando abriu a porta do carro, ouviu a voz de Bruno chamá-lo.
— Felipe.
Ele congelou por um segundo antes de virar o rosto.
Os dois ficaram frente a frente pela primeira vez desde que se reconheceram.
Bruno sustentou seu olhar por alguns instantes.
— Espero que possamos trabalhar bem juntos.
A frase era simples.
Educada.
Mas Felipe teve a estranha sensação de que havia muito mais escondido naquelas palavras.
Ele respondeu apenas:
— Também espero.
Foi o suficiente.
Ou talvez não.
Os dois permaneceram imóveis por um breve instante, presos em um silêncio carregado de significados.
Bruno mantinha a expressão serena.
Felipe, porém, sentia o peito apertar.
Naqueles poucos segundos, teve a impressão de enxergar Isadora entre eles.
Como se a presença dela ainda ocupasse o espaço que nenhum dos dois ousava mencionar.
Felipe foi o primeiro a desviar o olhar.
Entrou no carro e fechou a porta com mais força do que pretendia.
Durante todo o caminho de volta ao escritório, ouviu o pai elogiar Bruno.
— Homem educado... inteligente... passa confiança. É raro encontrar alguém assim hoje em dia.
Cada palavra era como um peso a mais sobre seus ombros.
— Pai...
Antônio interrompeu o comentário.
— Avise à Antonella que ela não precisa se preocupar. Amanhã, depois do almoço, volto para a fazenda.
O pai apenas assentiu.
Felipe voltou toda a atenção para a estrada.
Precisava esquecer aquele encontro.
Precisava impedir que Isadora voltasse a ocupar seus pensamentos.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, percebeu que talvez isso fosse impossível.
***
Rafaela chegou em casa pouco depois das cinco e meia da tarde.
Antes, passou no supermercado próximo ao apartamento para comprar os ingredientes de um dos pratos favoritos de Felipe.
Sempre que ele conseguia passar a noite com ela, Rafaela permitia-se sonhar.
Naquelas poucas horas, fingia que Felipe não tinha uma esposa.
Que eles não precisavam esconder o amor que sentiam.
Que eram apenas um casal comum.
Seu aniversário seria dali a algumas semanas.
Durante os dias de folga, pretendia organizar uma viagem com Felipe para a cidade onde costumavam se refugiar quando queriam esquecer o resto do mundo.
Entrou no apartamento, deixou as sacolas sobre a bancada da cozinha e seguiu para o quarto.
Tomaria um banho, trocaria de roupa e começaria a preparar o jantar, esperando pela chegada dele.
***
Felipe fechava o notebook quando o celular tocou.
Antonella.
Atendeu imediatamente.
— Aconteceu alguma coisa com Lorenzo ou com a minha mãe?
— Acabei de chegar em casa. Sua mãe disse que você não vem hoje. Houve algum problema no escritório?
— Não. Preciso analisar alguns documentos antes da viagem. Amanhã volto para a fazenda depois do almoço e fico lá o restante da semana. Depois sigo para a Argentina e, quando retornar, já teremos o evento da cooperativa.
— Entendi. Fiquei preocupada. Seu pai comentou que a reunião e o almoço com o diretor do banco correram muito bem.
— Correu tudo certo.
Fez uma breve pausa.
— Agora preciso desligar. Ainda tenho trabalho. Dê um beijo de boa-noite no Lorenzo por mim.
— Pode deixar.
A ligação terminou.
Felipe guardou o celular no bolso, conferiu rapidamente o escritório, pegou as chaves do carro e saiu.
Rafaela o esperava.
***
Antonella permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada do celular.
Ligara apenas para confirmar aquilo que, no fundo, já sabia.
Felipe passaria a noite com a amante.
A viagem para a Argentina havia surgido na hora perfeita. Dormiria com a outra mulher e usaria o trabalho como desculpa para não voltar para casa.
Sentia seu casamento morrer lentamente diante dos próprios olhos.
E não havia nada que pudesse fazer.
Quando afastou a prostituta da vida de Felipe anos atrás, acreditou que finalmente teria uma chance de conquistar o coração do marido.
Depois do nascimento de Lorenzo, alimentou novamente essa esperança.
Mas, após a morte do avô de Felipe, tudo começou a desmoronar.
Dia após dia.
Ela jamais procurou descobrir quem era a amante.
Parte por medo de descobrir que Felipe realmente amava outra mulher.
Parte porque transformar a suspeita em certeza seria doloroso demais.
Descobrira a traição por acaso, ao ouvir uma ligação do marido.
Nunca contou a ninguém.
Nem mesmo a Helena, a sogra que tanto respeitava.
Às vezes, lembrava dos conselhos da mãe quando decidiu se casar.
Constância sempre dizia que amor não se impunha.
Conquistava-se.
E Antonella percebia, tarde demais, que jamais soubera conquistar o homem com quem dividia a vida.
Deixou o celular sobre a cama e foi até a varanda.
Lorenzo brincava com os avós, rindo alto, completamente alheio ao sofrimento da mãe.
Era um menino saudável, cheio de energia.
Felipe o amava profundamente.
Como pai, era irrepreensível.
Talvez melhor do que ela própria.
Antonella respirou fundo.
Não permitiria que o filho percebesse sua tristeza.
Nos próximos dias, convidaria Helena para ir a São Paulo. Aproveitariam a viagem para escolher o vestido que usariam no jantar com os empresários da região.
Talvez manter a rotina fosse a única maneira de impedir que sua vida desmoronasse por completo.







