CAP 3

Felipe chegou ao apartamento de Rafaela trazendo o sorvete favorito dela. Tudo o que desejava era uma noite tranquila ao lado da mulher que amava.

Destrancou a porta e entrou, sendo imediatamente envolvido pelo aroma da comida que vinha da cozinha.

Deixou o terno sobre o sofá. Naquela noite, nem se preocupou em levar uma troca de roupa. Depois de tantos meses, já tinha camisas, calças e até alguns objetos pessoais espalhados pelo apartamento dela.

Seguiu até a cozinha.

Rafaela sorriu assim que o viu.

— Trouxe a nossa sobremesa. Passei o dia inteiro com saudade de você. Hoje eu só quero ficar ao seu lado.

Felipe aproximou-se e a beijou. Rafaela ainda fingiu reclamar da ousadia, mas bastou sentir os lábios dele tocarem os seus para um arrepio percorrer seu corpo inteiro.

— Vai tomar banho. O jantar já está quase pronto. Separei uma roupa para você e deixei em cima da cama. Imaginei que viesse sem nada.

Ela se afastou com um sorriso discreto e voltou a mexer as panelas.

Felipe aproximou-se outra vez, envolvendo sua cintura.

— Vou me trocar rapidinho. Estou morrendo de fome...

Então inclinou-se até o ouvido dela e completou, em um sussurro:

— ...e não é só da comida.

Rafaela sentiu o rosto corar.

Mesmo depois de tantos anos, aquele homem ainda tinha o dom de deixá-la completamente sem jeito.

Felipe sorriu, satisfeito com a reação dela, e seguiu para o quarto, deixando-a terminar o jantar.

***

Antonella vestia o pijama em Lorenzo, que naquela noite parecia mais inquieto do que o normal.

Durante o jantar, ele havia perguntado pelo pai.

Ela inventou uma desculpa qualquer , para distraí-lo, contou que, no dia seguinte, viajariam até a fazenda dos avós para almoçar com a família. A notícia foi suficiente para acalmar o menino.

A cada dia que passava, Lorenzo ficava mais parecido com Felipe.

Não apenas nos traços do rosto, mas também na personalidade. Inteligente, observador e determinado, ele admirava o pai acima de qualquer outra pessoa.

— Mamãe... a vovó Helena disse que, quando eu crescer, vou ser um homem de negócios igual ao papai. O que isso quer dizer?

Antonella sorriu.

Lorenzo era esperto demais para a idade. Crescia cercado por conversas de adultos e fazia perguntas que surpreendiam até mesmo os mais velhos. No ano seguinte começaria a estudar, e Felipe já fazia planos para matriculá-lo nas melhores escolas, sonhando, desde cedo, com a melhor universidade para o filho.

Ela acariciou os cabelos do menino.

— Significa que você pode se tornar um homem muito inteligente, responsável e talentoso, assim como seu pai. Mas, por enquanto, sua única obrigação é dormir. Já passou da hora de fechar esses olhinhos, senhor Martinelli.

Lorenzo deu uma risadinha.

Abraçou a mãe com força.

— Fica comigo até eu dormir?

— Sempre.

Antonella deitou-se ao lado do filho, fazendo carinho em seus cabelos até sua respiração ficar lenta e tranquila.

***

— Essa comida está diferente.

Felipe levou mais uma garfada à boca.

— Diferente como?

Rafaela arqueou uma sobrancelha.

— Melhor. Muito melhor.

Ela riu.

— Bobo. É o mesmo molho de sempre. Só tive mais tempo para preparar tudo com calma hoje.

Enquanto terminavam o jantar, Rafaela perguntou:

— E a reunião? Como foi?

Levantou-se para recolher os pratos, enquanto Felipe começou a limpar a mesa.

Por um instante, ele pensou em comentar sobre Bruno.

Mas Rafaela desconhecia toda a história envolvendo Isadora. Aquilo fazia parte de um passado que Felipe preferia manter distante. Bruno seria apenas um parceiro profissional, e Antônio parecia ter gostado bastante dele.

Não havia motivo para trazer aquele assunto para dentro daquela casa.

— Foi tudo bem. Meu pai e o diretor se entenderam muito bem. Acho que essa parceria vai render bons frutos. É mais um passo para manter vivo o trabalho que meu avô construiu.

Pegou um pano e começou a secar a louça que Rafaela lavava.

Naquele pequeno apartamento, ele deixava de ser o empresário cercado de responsabilidades.

Ali era apenas Felipe.

Um homem cansado do peso que carregava... e completamente apaixonado pela mulher à sua frente.

— E você? Como foi seu dia no hospital?

Rafaela sorriu com ternura.

— Hoje uma das meninas recebeu alta.

Sua voz ficou mais suave.

— Você não imagina a alegria que sinto toda vez que vejo uma criança deixando aquele hospital. É como se um pedacinho do meu coração também fosse embora... em paz.

Felipe observou o brilho nos olhos dela.

Era justamente aquela delicadeza que o fazia amá-la ainda mais.

Quando terminaram a louça, Rafaela largou o pano de prato sobre o fogão e caminhou até ele.

Envolveu sua cintura.

— Você vai mesmo ficar a noite toda comigo... desta vez?

Felipe segurou seu rosto entre as mãos.

Beijou sua testa.

Depois a ponta do nariz.

Por fim, seus lábios.

— A noite inteira.

Sorriu contra a boca dela.

— Quero aproveitar cada minuto ao seu lado.

Sem esforço, tomou-a nos braços.

— Felipe!

Ela riu, assustada.

— Você ainda vai me derrubar.

— Nunca.

A resposta saiu firme, carregada de um significado que ia muito além daquele instante.

Ele a levou até o quarto e a colocou delicadamente sobre a cama.

Antes de voltar para ela, caminhou até a porta e a trancou.

Quando retornou, deitou-se ao seu lado.

— Você viaja na semana que vem, não é?

Rafaela perguntou, acariciando o rosto dele.

— Sim. Vou para a Argentina. Mas volto rápido. Antes disso, vou passar alguns dias com o Lorenzo na fazenda. Por isso queria tanto viver essa noite com você.

Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois começou a desfazer lentamente os botões do pijama.

Felipe acompanhava cada movimento com um olhar cheio de desejo e, principalmente, de admiração.

Não era apenas o corpo dela que o encantava.

Era a mulher inteira.

A mulher que o acolhia quando o mundo parecia pesado demais.

Rafaela sorriu ao perceber que ele não desviava os olhos.

— Vou sentir sua falta.

Ela acariciou seu rosto.

Felipe segurou sua mão e beijou seus dedos.

— Eu também.

Depois encostou a testa na dela.

— Vou ligar todas as noites. Quero ouvir sua voz antes de dormir.

Ela fechou os olhos.

— Promete?

— Prometo.

Os dois permaneceram abraçados por alguns instantes, deixando que o silêncio dissesse aquilo que as palavras já não conseguiam expressar.

Quando seus lábios voltaram a se encontrar, o beijo foi lento, intenso e carregado de saudade antecipada.

Cada toque era uma declaração silenciosa.

Cada abraço parecia tentar impedir que o tempo continuasse correndo.

Naquela noite, mais do que desejo, havia entrega.

Mais do que paixão, existia o medo da distância e a necessidade de guardar um no outro a certeza de que, apesar de todos os obstáculos, aquele sentimento permanecia vivo.

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