Mundo de ficçãoIniciar sessão
Felipe se encontrava exausto. O trabalho, por si só, já consumia seus dias, mas a presidência da cooperativa — responsabilidade que assumira quase contra a própria vontade — parecia devorar o pouco tempo que ainda lhe restava.
Três anos haviam se passado desde a morte de Lorenzo. Apesar de sempre jurar que jamais se envolveria nos negócios da família, acabara cedendo ao pedido do pai e assumindo a cooperativa fundada pelo avô décadas antes. O que deveria ser apenas uma forma de honrar seu legado transformara-se em mais um peso sobre seus ombros.
Naquela manhã, ainda teria uma importante reunião com o diretor financeiro do banco parceiro da cooperativa, seguida de um almoço com investidores. Antônio faria questão de acompanhá-lo durante toda a agenda.
Felipe, porém, só conseguia pensar em uma única pessoa.
Rafaela.
Desde a morte do avô, os dois mantinham um relacionamento que se fortalecera com o tempo. Ao lado dela, ele encontrava uma paz que não existia em nenhum outro lugar.
Sua vida, no entanto, permanecia dividida.
De um lado, a amante que jamais lhe cobrava promessas ou exigia explicações.
Do outro, a esposa, Antonella, que fingia não enxergar as sucessivas tentativas dele de colocar um fim no casamento.
A relação entre os dois estava desgastada havia anos. As conversas haviam sido substituídas pelo silêncio, e a intimidade praticamente deixou de existir. Felipe passava cada vez mais tempo na cidade, refugiando-se no apartamento de Rafaela, enquanto Antonella permanecia na fazenda.
O único vínculo que ainda o prendia verdadeiramente à família era o filho.
Sempre que pensava em romper de vez com aquele casamento, a voz da mãe ecoava em sua consciência.
— Vocês têm uma criança para criar.
Era o argumento que ela repetia sempre.
Felipe, porém, já não sabia por quanto tempo conseguiria continuar vivendo uma vida que não desejava.
A porta do escritório se abriu.
Antônio entrou ajustando os botões do paletó, elegante como de costume.
— Está pronto? — perguntou. — Se sairmos agora, chegaremos antes dos outros. E, assim que terminarmos o almoço, Pedro me leva de volta para a fazenda.
Felipe ergueu os olhos dos papéis sobre a mesa.
— Só preciso fazer uma ligação. Dois minutos.
Antônio arqueou uma sobrancelha.
— Ligação de trabalho?
Felipe esboçou um sorriso discreto.
— Digamos que seja uma ligação... importante.
O pai o observou por alguns segundos. Conhecia o filho bem o suficiente para perceber que havia algo além dos negócios, mas preferiu não insistir.
— Não demore. O diretor do banco não é homem de esperar.
Assim que ficou sozinho, Felipe pegou o celular e sorriu ao encontrar o contato de Rafaela.
Ela atendeu antes mesmo do segundo toque.
Rafaela tomava café na lanchonete do hospital público onde começara a trabalhar alguns meses antes.
Conciliar dois empregos era cansativo, mas, finalmente, ela via os resultados daquele esforço.
Graças aos dois salários, já conseguira quitar quase metade do apartamento e, pela primeira vez em muitos anos, respirava com tranquilidade ao olhar para as próprias contas.
O celular vibrou sobre a mesa.
Ao ver o nome de Felipe na tela, olhou discretamente para os lados antes de atender.
Mesmo estando no hospital público, ainda receava que alguém conhecido descobrisse seu relacionamento com ele.
Levou o telefone ao ouvido e baixou a voz.
— Aconteceu alguma coisa? Você nunca liga nesse horário.
Do outro lado, Felipe soltou uma risada baixa.
— Aconteceu.
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Descobri que preferia estar sentado na sua frente, tomando café, em vez de entrar numa reunião que promete durar horas.
Rafaela sorriu involuntariamente.
— Você devia aprender a gostar dessas reuniões. Elas pagam suas contas.
— E você devia aprender que dinheiro nenhum compra a paz que encontro quando estou com você.
Ela abaixou os olhos para a xícara, escondendo o sorriso.
— Você está ficando muito romântico.
— Culpa sua.
— Ah, é?
— Desde que apareceu na minha vida, você estragou minha capacidade de fingir que sou um homem frio.
Ela riu baixinho.
— Ainda bem que ninguém aqui consegue ouvir isso. Sua fama de empresário durão iria por água abaixo.
— Só você conhece esse lado.
Por alguns segundos, ambos permaneceram em silêncio, apenas ouvindo a respiração um do outro.
Foi Rafaela quem voltou a falar.
— Vou sair mais cedo hoje.
— Vai?
— Vou. Então me diga... o que quer jantar?
Felipe fechou os olhos por um instante.
— Você.
Ela soltou uma risada abafada.
— Felipe...
— O quê? Você perguntou.
— Estou falando de comida.
— Tanto faz. Tudo o que você fizer vai ficar perfeito.
Ela balançou a cabeça, divertida.
— Você está impossível hoje.
— É saudade.
As palavras fizeram o coração dela acelerar.
Felipe respirou fundo antes de continuar.
— Vou desligar. Meu pai está comigo e teremos uma reunião com o diretor financeiro do banco. Depois, ainda tem um almoço com investidores.
— Tudo bem.
— Me espera no apartamento.
Ela sorriu.
— Vou esperar.
— Quero dormir ao seu lado esta noite.
— Então apareça logo.
— Pode deixar.
Antes de desligar, Felipe falou em voz baixa:
— Obrigado por existir.
Rafaela permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada do celular.
Mesmo sabendo que aquela relação era complicada, era impossível não sorrir.
**
Pouco depois, Felipe chegou ao hotel onde seria realizada a reunião.
Ele e Antônio foram recepcionados por um funcionário, que os conduziu até a sala reservada.
— O senhor D'Ávila já está a caminho — informou o rapaz.
Ao entrar, Felipe encontrou alguns empresários conhecidos. Enquanto Antônio se aproximava de um velho parceiro de negócios, ele aproveitou para cumprimentar os demais convidados.
Alguns minutos depois, o mesmo funcionário reapareceu.
— Senhores, o diretor financeiro acaba de chegar.
Felipe permanecia de costas para a porta quando ouviu passos se aproximando.
— Senhor Martinelli...
Ele se virou.
— Gostaria de apresentar o senhor Bruno D'Ávila, diretor financeiro do banco.
Por um instante, o tempo pareceu desacelerar.
Felipe reconheceu imediatamente aquele rosto.
Bruno.
O ex-cliente de Isadora.
O homem que, anos atrás, alimentara tantas dúvidas e inseguranças em sua cabeça.
Bruno estendeu a mão com cordialidade.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Martinelli.
Felipe demorou um segundo para reagir.
Seu olhar caiu automaticamente sobre a mão esquerda do outro homem.
Uma grossa aliança de ouro brilhava em seu dedo.
Casado.
A palavra ecoou em sua mente.
Apertou-lhe a mão.
— O prazer é meu.
Bruno sorriu com educação e seguiu cumprimentando Antônio e os demais empresários.
Felipe permaneceu imóvel por alguns segundos.
Era evidente.
Bruno não fazia a menor ideia de quem ele era.
"Será que ele ainda vê Isadora?"
A pergunta surgiu de forma involuntária.
Havia anos que Felipe não pensava nela.
Na verdade, acreditava ter enterrado aquela história definitivamente.
Ainda assim, bastou reencontrar Bruno para que antigas lembranças voltassem à superfície.
Sentou-se de frente para ele durante a reunião.
Enquanto Bruno apresentava os projetos do banco, falava com segurança e absoluto domínio do assunto. Respondia às perguntas com naturalidade, conquistando facilmente a confiança dos empresários presentes.
Felipe observava tudo em silêncio.
Lembrava-se de quando Bruno era apenas gerente de uma agência bancária.
Agora ocupava um cargo de enorme prestígio.
"Ele realmente cresceu."
Tentou afastar qualquer pensamento relacionado a Isadora.
Ela fazia parte de um passado encerrado.
Hoje havia Rafaela.
Era ela quem preenchia os espaços vazios de sua vida.
Era com ela que desejava construir um futuro.
— Bruno — disse Antônio ao final da apresentação —, preciso parabenizá-lo. Esse projeto foi extremamente bem estruturado. As taxas oferecidas pelo banco vão facilitar muito a vida dos pequenos e médios produtores.
Bruno agradeceu com um discreto aceno de cabeça.
— Nosso objetivo sempre foi criar uma parceria sólida com as cooperativas. Quando o produtor cresce, todos crescemos juntos.
A reunião se estendeu por quase três horas.
Ao término, os convidados seguiram para o restaurante do hotel.
Bruno caminhava à frente, conversando animadamente com Antônio sobre os investimentos para os próximos anos.
Felipe vinha logo atrás.
Em silêncio.
Observando aquele homem que, sem saber, despertara lembranças que ele acreditava terem ficado definitivamente no passado.







