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Capítulo 3 — Os Olhos da Deusa

Selena passou o restante daquele dia tentando agir normalmente.

Tentando sorrir para Aiden.

Tentando fingir que seu mundo não estava desmoronando.

Mas era impossível.

As palavras de Kael continuavam ecoando dentro de sua mente.

"É uma decisão necessária."

Necessária.

Como se ela fosse um sacrifício aceitável.

Como se os anos que passaram juntos não tivessem significado algum.

Como se o filho deles fosse apenas um detalhe.

Quando a noite caiu, Selena colocou Aiden na cama.

O menino parecia mais quieto que o normal.

— Mamãe?

— Sim, meu amor?

— Você brigou com o papai?

A pergunta a atingiu como uma flecha.

Ela sentou-se na beira da cama.

— Por que acha isso?

— Porque ele ficou bravo.

Selena acariciou os cabelos do filho.

— Os adultos às vezes discordam.

— Vocês vão se separar?

O coração dela se apertou.

Aiden tinha apenas cinco anos.

Não deveria carregar preocupações como aquela.

— Eu sempre vou te amar.

— Eu sei.

Os olhos dourados dele começaram a ficar sonolentos.

— Mas eu quero vocês dois.

Selena precisou engolir o choro.

— Durma, meu pequeno lobo.

Ela beijou sua testa.

Esperou até que ele adormecesse.

Depois saiu do quarto.

Sem perceber, seus passos a levaram para a floresta.

A lua cheia iluminava cada árvore.

Cada pedra.

Cada folha.

O silêncio era profundo.

Quase sagrado.

Selena caminhou até um antigo lago escondido.

Um lugar onde costumava conversar com sua loba.

Onde encontrava paz.

Ela se ajoelhou perto da água.

As lágrimas finalmente vieram.

— O que eu fiz de errado?

Sua voz quebrou.

— Eu o amei.

Eu cuidei dele.

Eu cuidei desta alcateia.

Por que isso não foi suficiente?

O vento soprou.

As águas do lago começaram a se mover.

Ondas pequenas.

Estranhas.

Como se algo estivesse despertando.

Selena levantou o rosto.

A lua refletida na superfície brilhou mais intensamente.

Muito mais.

Uma luz prateada surgiu.

Ela recuou assustada.

O lago inteiro começou a emitir um brilho sobrenatural.

Seu coração acelerou.

Sua loba ficou alerta.

Mas não havia perigo.

Havia apenas uma presença.

Antiga.

Poderosa.

Divina.

Então uma voz ecoou.

Suave.

Feminina.

Cheia de autoridade.

— Filha da lua...

Selena congelou.

— Quem está aí?

— Você chora por alguém que não merece suas lágrimas.

O ar desapareceu de seus pulmões.

— Quem é você?

A luz aumentou.

— Sou aquela que observa todos os filhos da lua.

Uma sensação percorreu seu corpo.

Respeito.

Admiração.

Temor.

A Deusa da Lua.

Selena caiu de joelhos.

— Deusa...

A voz falhou.

— Eu estou sonhando.

— Não.

A luz dançou sobre a água.

— Chegou o momento de você enxergar a verdade.

Selena sentiu um arrepio.

— Que verdade?

O brilho se espalhou pelo lago.

Formando imagens.

Como espelhos vivos.

Então ela viu.

Kael.

Seu coração disparou.

Era uma lembrança.

Ou algo parecido.

Kael caminhava pelos corredores da mansão.

A cena parecia recente.

Talvez de alguns dias atrás.

Talvez de uma semana.

Ele entrou em uma sala.

Violeta já estava esperando.

Ela se aproximou dele.

Sorriu.

Tocou seu peito.

Selena sentiu seu estômago afundar.

— Não...

A imagem continuou.

Kael não se afastou.

Não recusou.

Não demonstrou desconforto.

Ao contrário.

Ele segurou o rosto de Violeta.

E a beijou.

Selena levou a mão à boca.

As lágrimas escorreram imediatamente.

A cena desapareceu.

Ela mal teve tempo de respirar.

Outra surgiu.

Kael e Violeta novamente.

Desta vez em uma reunião.

Magnus Ravencrest estava presente.

Vários conselheiros também.

— A companheira dele é fraca.

— Ela não possui influência.

— Não possui linhagem.

— Não possui utilidade.

Cada palavra foi uma facada.

Então veio a resposta de Kael.

— Eu sei.

O coração de Selena despedaçou.

Eu sei.

Nem mesmo uma defesa.

Nem mesmo uma tentativa.

Nada.

A imagem desapareceu.

— Pare...

Ela chorava agora.

— Por favor...

Mas a Deusa respondeu:

— Você precisa enxergar.

Nova visão.

Kael sentado em seu escritório.

Violeta em seu colo.

Os dois rindo.

Conversando.

Então a mulher perguntou:

— E Selena?

Kael permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Ela vai entender.

— E se não entender?

Os olhos dele ficaram frios.

— Então terá que aceitar.

A dor quase a fez perder o ar.

Ela queria fugir.

Queria fechar os olhos.

Queria desaparecer.

Mas as imagens continuavam.

Como se a própria lua estivesse arrancando as vendas que cobriam seus olhos.

Então algo mudou.

A água ficou mais agitada.

Mais brilhante.

Mais poderosa.

As imagens seguintes pareciam diferentes.

Não eram lembranças.

Eram acontecimentos que ainda não haviam ocorrido.

Selena percebeu isso imediatamente.

Violeta caminhava pelos corredores da mansão.

Sorrindo.

Magnus estava ao seu lado.

— Ela já desconfia.

— Não importa.

— E o menino?

Magnus sorriu.

Um sorriso cruel.

— Sem a mãe, ele será mais fácil de controlar.

O sangue de Selena gelou.

— O quê?

A visão desapareceu.

Outra surgiu.

Kael.

Magnus.

Violeta.

Uma conversa secreta.

— A rejeição acontecerá durante a Assembleia de Outono.

— O povo aceitará?

— Aceitará se acreditarem que ela traiu a alcateia.

Selena ficou sem respirar.

Traiu?

Eles pretendiam acusá-la?

— Não existe prova alguma.

Violeta riu.

— Então criaremos provas.

A água explodiu em luz.

Selena caiu para trás.

O corpo inteiro tremia.

Seu coração parecia incapaz de suportar mais.

— Eles vão me destruir...

— Sim.

A voz da Deusa ecoou novamente.

— Porque temem quem você é.

— Eu sou ninguém.

— Não.

A resposta veio firme.

Absoluta.

— Você é muito mais do que imagina.

A luz ficou intensa.

Por um breve segundo, Selena viu algo estranho.

Uma coroa.

Prata.

Antiga.

Coberta por símbolos.

Atrás dela havia milhares de lobos ajoelhados.

E uma bandeira que ela nunca tinha visto.

Então tudo desapareceu.

O lago voltou ao normal.

O silêncio retornou.

Selena respirava com dificuldade.

As lágrimas continuavam caindo.

— O que foi aquilo?

— Seu futuro está se aproximando.

— Eu não entendo.

— Ainda não.

A voz começou a enfraquecer.

— Mas entenderá.

— Espere!

Selena levantou-se.

— Por que está me mostrando isso?

A luz restante brilhou suavemente.

— Porque você foi escolhida.

— Escolhida para quê?

Por alguns segundos houve apenas silêncio.

Então vieram as últimas palavras.

Palavras que fizeram sua alma inteira estremecer.

— A lua não se curva diante dos reis.

Os reis se curvam diante da lua.

A presença desapareceu.

A floresta voltou a ficar silenciosa.

Mas Selena permaneceu imóvel.

Porque sua dor estava se transformando em outra coisa.

Não esperança.

Ainda não.

Mas dúvida.

Uma dúvida que crescia rapidamente.

E se Kael não fosse o homem mais poderoso daquela história?

E se existisse algo sobre ela que ninguém conhecia?

Algo tão grande que até mesmo a Deusa da Lua havia decidido intervir?

Enquanto retornava para a mansão, sem perceber que estava sendo observada nas sombras por um par de olhos dourados desconhecidos, Selena sentiu uma certeza nascer dentro de si.

As visões não tinham terminado.

A Deusa ainda tinha muito a mostrar.

E cada verdade revelada a aproximaria do dia em que todo o reino descobriria quem ela realmente era.

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